Durante décadas, um consenso bipartidário em Washington sustentou que uma agenda protecionista seria um caminho garantido para conquistar apoio entre eleitores da classe trabalhadora. Agora que o presidente Donald Trump testa essa teoria na prática, o resultado eleitoral tem sido, segundo reportagem da CNN, majoritariamente negativo.
Trump adotou, de acordo com a matéria, a agenda comercial mais confrontacional de qualquer presidente americano desde pelo menos William McKinley, no fim do século 19 — e, na avaliação de alguns historiadores citados, até mesmo mais agressiva do que a de Thomas Jefferson no início do país.
Mesmo em estados e distritos de perfil operário historicamente considerados mais receptivos ao protecionismo, democratas têm se mostrado à vontade para criticar as tarifas de Trump na campanha deste ano, enquanto republicanos enfrentam dificuldade para defendê-las. A reportagem cita até democratas tradicionalmente céticos de acordos de livre-comércio — como o candidato ao Senado por Ohio, Sherrod Brown, e o metalúrgico Brian Poindexter, que disputa uma cadeira na Câmara contra o deputado Max Miller — como vozes sem reservas na condenação das tarifas.
Pesquisas da CNN e de outras organizações de mídia mostram de forma consistente que uma parcela maior de americanos acredita que as tarifas prejudicaram, e não ajudaram, suas finanças pessoais — percepção que, segundo o levantamento, se estende até a eleitores brancos da classe trabalhadora sem diploma universitário de quatro anos.
Uma mudança na política do comércio
Segundo a CNN, esse quadro representa uma mudança estrutural na política comercial americana, capaz de afrouxar o vínculo de Trump com os eleitores da classe trabalhadora que formam o núcleo de sua coalizão — e de permitir que democratas recuperem terreno perdido em regiões operárias e rurais.
O ceticismo de Trump em relação ao Acordo de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta) e outras medidas de restrição ao comércio ajudaram a impulsionar seus ganhos históricos em comunidades operárias durante a corrida de 2016 e seu primeiro mandato, segundo a matéria. Mas as tarifas amplas de seu segundo mandato — que superam até as pautas defendidas por outros candidatos protecionistas desde os anos 1970 — parecem estar corroendo o apoio republicano, inclusive nessas mesmas regiões operárias.
"Todo mundo falava sobre isso, mas Trump fez", disse Douglas Holtz-Eakin, presidente do think tank de centro-direita American Action Forum, à CNN. "E os eleitores estão dizendo: 'não, obrigado'."
Um histórico de promessas protecionistas que nunca chegaram ao poder
A reportagem lembra que, por décadas, uma sucessão de pré-candidatos presidenciais nos dois partidos ofereceu discurso duro em relação ao comércio e políticas de restrição a importações — de John Connally, pelo Partido Republicano em 1980, a Walter Mondale e Richard Gephardt, democratas nos anos 1980, passando pelo insurgente republicano Patrick J. Buchanan e pelo candidato independente Ross Perot nos anos 1990.
Nenhum deles, porém, chegou à Presidência com poder de implementar de fato uma agenda protecionista. Segundo Douglas Irwin, professor de economia do Dartmouth College e historiador da política comercial americana, o padrão desde Franklin D. Roosevelt, nos anos 1930, tem sido de presidentes republicanos e democratas defendendo o livre-comércio, com o impulso protecionista restrito principalmente ao Congresso.
Alan Tonelson, analista de política comercial industrial e defensor histórico de restrições a importações, afirma que a disposição de Trump de impor tarifas a uma lista ampla de parceiros comerciais americanos não tem paralelo desde McKinley, nos anos 1890. Irwin vai além: considera que Trump conduz a política comercial mais confrontacional desde o embargo total ao comércio com Inglaterra e a França napoleônica imposto por Jefferson em 1807 — medida que, segundo ele, terminou de forma desastrosa. "Não houve presidente na história moderna que tenha usado a ameaça tarifária tanto quanto Donald Trump", disse Irwin à CNN.
O paralelo com 2016
Stanley Greenberg, pesquisador democrata que estuda há décadas a perda de apoio do partido entre eleitores brancos da classe trabalhadora, afirma que a postura linha-dura de Trump em relação ao comércio contribuiu para suas vitórias de 2016 sobre Hillary Clinton em comunidades operárias que, em muitos casos, haviam votado duas vezes em Barack Obama.
"Hillary se machucou e Obama se machucou por não entender esses sentimentos no centro-oeste industrial", disse Greenberg à CNN. "E Trump usou isso a seu favor para vencer a eleição de 2016, e isso foi uma parte fundamental de sua presidência no primeiro mandato", ao se apresentar como defensor de eleitores da classe trabalhadora que se sentiam "esquecidos".
No primeiro mandato, Trump se afastou de forma clara da orientação majoritariamente favorável ao livre-comércio de seus três antecessores imediatos — Obama, George W. Bush e Bill Clinton. Ele renegociou o Nafta, acordo que Clinton havia levado ao Congresso; abandonou o acordo de livre-comércio pan-asiático negociado por Obama (que nunca havia sido submetido ao Congresso, por temor de prejudicar Hillary Clinton na eleição de 2016); e impôs tarifas principalmente sobre aço e alumínio de diversos países, além de uma ampla gama de produtos chineses.
Segundo a reportagem, tudo isso foi apenas um prelúdio para o segundo mandato. Em escala muito maior que na primeira gestão, Trump impôs, retirou e reimpôs tarifas, fez ameaças e abriu investigações em um ritmo confuso que reescreveu as regras do comércio com dezenas de países — avançando com a mesma agressividade contra aliados, como Canadá e União Europeia, quanto contra adversários comerciais tradicionais, como a China.
Antes de Trump, segundo Holtz-Eakin, muitos líderes políticos acreditavam que "a política era boa" para o protecionismo, "mas as implicações de política externa eram ruins" — por isso, "nenhum republicano ia por esse caminho". Trump, segundo ele, "não se importou com o segundo ponto. Então, pudemos ver a economia isolada" — e a reação, segundo a reportagem, foi muito diferente da esperada por Trump e por outros defensores do protecionismo.
A divisão por escolaridade que não se confirmou nas urnas de opinião
Desde pelo menos os anos 1970, a suposição dominante nos dois partidos era de que as questões comerciais dividiam o público por linhas educacionais, com eleitores com diploma universitário mais favoráveis à expansão do comércio e eleitores da classe trabalhadora mais receptivos a mensagens protecionistas voltadas à proteção de empregos industriais.

Essa divisão tradicional persistiu mesmo após o retorno de Trump ao poder. A pesquisa anual de política externa do Chicago Council on Global Affairs, de 2025, encontrou que quase dois terços dos brancos sem diploma universitário preferiam uma política comercial de restrição a importações para proteger empregos, em vez de uma abordagem que minimizasse restrições para reduzir preços. Brancos com diploma universitário se dividiram de forma equilibrada entre as duas opções; já uma pequena maioria de não brancos sem diploma universitário preferiu uma política comercial focada em custos, e não brancos com diploma universitário foram o grupo mais cético em relação a restrições.
O que as pesquisas mostram na prática
Mas, à medida que Trump implementou suas tarifas, elas se mostraram menos atraentes na prática do que na teoria, segundo a reportagem. Em pesquisa do Pew realizada em janeiro, 60% dos americanos se disseram contrários aos aumentos tarifários de Trump; mais do dobro afirmou que a medida afetou sua família de forma negativa em comparação aos que disseram efeito positivo. Em pesquisa CNN/SSRS de abril, o número de americanos que disse ter sido prejudicado financeiramente pelas tarifas foi quatro vezes maior do que o de quem disse ter sido beneficiado.
Pesquisas recentes em Wisconsin e Ohio, dois estados de perfil operário e industrial, mostraram ambas cerca de 60% de rejeição às tarifas entre os moradores. Levantamentos divulgados neste mês também apontaram oposição ampla à mais recente guerra comercial de Trump contra o Canadá, sobretudo em estados de fronteira: em pesquisas da CNN, cerca de dois terços ou mais dos eleitores em Michigan e no Maine disseram que as novas tarifas contra o Canadá são ruins para seus estados.
Em muitas dessas pesquisas, brancos sem diploma universitário de quatro anos permaneceram relativamente mais simpáticos à abordagem de Trump do que outros grupos — na pesquisa do Pew de janeiro, por exemplo, esse grupo se dividiu de forma equilibrada quanto à aprovação das tarifas.
Ainda assim, segundo a reportagem, esse nível de divisão representa muito mais resistência do que Trump costuma enfrentar entre um grupo que o apoiou por margens de 2 para 1 em suas três candidaturas presidenciais. Pesquisas mostram de forma consistente que a maioria dos brancos sem diploma superior também acredita que as tarifas prejudicaram suas finanças pessoais: na pesquisa CNN/SSRS de abril, quase três vezes mais brancos sem diploma disseram ter sido prejudicados do que beneficiados. Grandes maiorias desse grupo também se opuseram às tarifas contra o Canadá tanto no Maine quanto em Michigan.
Outros grupos apresentaram oposição ainda mais acentuada. Em pesquisa nacional da CNN, dois terços dos eleitores negros e três quartos dos hispânicos disseram que as tarifas prejudicaram suas finanças — assim como cerca de 7 em cada 10 brancos com diploma universitário. No Maine, brancos com diploma universitário se opuseram às tarifas contra o Canadá por uma margem superior a 11 para 1.
Volatilidade e inflação minam o apoio até entre defensores
Mesmo defensores das tarifas, como Tonelson, reconhecem que parte do problema está na forma errática com que Trump as impôs, retirou e restaurou ao longo do tempo. "É um espetáculo perturbador em grau desnecessário", disse ele à CNN.
Mas, segundo a reportagem, o obstáculo maior é o momento em que Trump avança com as tarifas: justamente quando a principal preocupação dos eleitores é o custo de vida elevado e persistente. "Ele decidiu fazer essas tarifas de um jeito que fez os preços subirem... em um momento de raiva inacreditável com o custo de vida", disse Greenberg. A receptividade a medidas comerciais duras observada no primeiro mandato de Trump, segundo ele, "foi completamente varrida por esse novo período de inflação".
O estrategista republicano Mark Graul, de Wisconsin, concorda com o diagnóstico. Segundo ele, a agenda tarifária não está funcionando para Trump e o Partido Republicano por um motivo direto: "porque está sendo culpada pelos preços mais altos que as pessoas estão enfrentando".
Trump’s core problem: descompasso entre perdedores e ganhadores
Mais reveladora do que as pesquisas, segundo a reportagem, é a postura dos próprios políticos diante do tema. Não surpreende que as tarifas enfrentem críticas duras de Josh Turek e Adam Hamilton, candidatos democratas ao Senado por Iowa e Kansas, e de Dan Osborn, candidato independente e populista pelo Nebraska — tarifas elevadas sempre foram impopulares em estados agrícolas, por temor de retaliação estrangeira contra exportações do setor.
Mais significativa é a oposição às tarifas de Trump vinda de democratas que disputam eleições em estados de forte perfil industrial, onde parte do eleitorado historicamente desconfia de acordos de livre-comércio.
Em Michigan, por exemplo, os candidatos democratas a governadora, Jocelyn Benson, e ao Senado, Abdul El-Sayed, criticaram seus adversários republicanos por apoiarem as tarifas de Trump, especialmente as novas taxas sobre o Canadá. A deputada democrata Kristen McDonald Rivet, que representa um distrito operário em dificuldades ao redor de Flint, atribuiu ao "regime tarifário caótico" e às políticas comerciais "imprudentes" de Trump o fechamento de uma fábrica de semicondutores em seu distrito. "É esse caos que faz as empresas fecharem", afirmou.
Poindexter, o metalúrgico que disputa uma cadeira na Câmara ao sul de Cleveland, veicula um anúncio com tema de futebol americano prometendo "barrar os maus acordos comerciais". Em entrevista à CNN, ele disse que teria votado contra o Nafta caso estivesse no Congresso na época, mas que "o que vimos com as tarifas generalizadas é que elas encareceram a vida das famílias trabalhadoras". "Acho que tarifas podem ser muito úteis para equilibrar o jogo", acrescentou. "Mas não faz sentido tarifar coisas que não produzimos nos Estados Unidos."
O que isso significa para o investidor
Para quem acompanha ativos brasileiros e emergentes, o dado relevante não é o resultado eleitoral em si, mas o sinal de fragilidade política em torno da agenda tarifária americana. Se a rejeição às tarifas, hoje concentrada na percepção de custo de vida mais alto, se traduzir em pressão eleitoral concreta sobre republicanos, cresce a probabilidade de ajustes, recuos pontuais ou negociações setoriais nos próximos meses — o que tende a afetar a volatilidade de moedas emergentes, incluindo o real, e de cadeias exportadoras expostas ao comércio com os EUA.
A reportagem da CNN não traz números de mercado, mas o quadro descrito — tarifas amplas, imprevisíveis e associadas pela opinião pública à inflação doméstica americana — reforça um cenário em que decisões comerciais dos EUA seguem como fonte relevante de ruído para o câmbio e para commodities, já que qualquer sinalização de recuo ou escalada tarifária costuma repercutir rapidamente em ativos ligados ao comércio exterior.
Para o investidor brasileiro, o ponto de atenção prático é o calendário eleitoral americano de meio de mandato: à medida que candidatos dos dois partidos tratam as tarifas como passivo político, aumenta a chance de o tema comercial voltar ao centro do debate econômico nos EUA, com potencial de novos anúncios, ajustes ou disputas judiciais que podem se refletir em oscilações de curto prazo em bolsas, câmbio e preços de matérias-primas exportadas pelo Brasil.
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