Criptomoedas · Regulação

Bitcoin resiste a rejeição do Clarity Act e alta de juros do Fed

Mercado esperava sell-off após Senado derrubar projeto e Fed elevar juros, mas bitcoin se manteve perto de US$ 75 mil, segundo analistas ouvidos pela CoinDesk

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O Senado dos Estados Unidos rejeitou, em 15 de setembro, o chamado Clarity Act, projeto que buscava estabelecer regras claras para o setor cripto, em meio a divergências sobre rendimento de stablecoins e emendas éticas ao texto. A votação, marcada por impasse partidário de 49 a 50 votos na moção de encerramento de debate, ocorreu na mesma semana em que o Federal Reserve promoveu novo aumento de juros — dois eventos que boa parte do mercado temia como gatilhos para uma venda generalizada de criptoativos, segundo reportagem da CoinDesk.

Isso não aconteceu. Mesmo com a derrota do projeto e o aperto monetário confirmado, o bitcoin se manteve próximo de US$ 75.000, evidenciando que grande parte dos operadores já havia precificado ambos os desfechos antes mesmo de se concretizarem, aponta a CoinDesk.

Mercado já vinha posicionado para o fracasso da lei

Segundo Jag Kooner, chefe de derivativos da Bitfinex, citado pela CoinDesk, os traders de derivativos já antecipavam amplamente que o Senado não aprovaria a legislação. Para ele, a reação modesta no mercado à vista reflete justamente a ausência de apostas relevantes na aprovação do texto antes da votação.

"Havia pouca evidência de que os operadores haviam se posicionado para sua aprovação antes do voto", afirmou Kooner à CoinDesk. "Com poucos participantes do mercado apostando na aprovação do projeto, havia correspondentemente poucas posições para desfazer. A consequência mais importante é que o setor permanece sem regras estatutárias claras, prolongando a incerteza regulatória."

Apesar da resiliência no preço à vista, a rejeição no Senado provocou uma onda imediata de liquidações forçadas nos mercados de derivativos. Nas 24 horas seguintes à votação, operadores com posições compradas (apostando em alta) em contratos futuros tiveram US$ 571 milhões liquidados, de acordo com dados citados pela CoinDesk. O episódio também atingiu empresas de infraestrutura cripto listadas nos EUA: as ações da corretora Coinbase Global (COIN) e da emissora de stablecoin Circle Internet (CRCL) caíram 10% no rescaldo da votação, embora ambas tenham se recuperado na sexta-feira seguinte.

Consolidação e não breakout imediato, dizem analistas

Ilya Kalchev, analista da Nexo Dispatch, avalia que a recuperação do bitcoin após a votação do Clarity Act, o aumento de juros do Fed e o episódio de liquidações forçadas sugerem um cenário de consolidação, não de rompimento imediato de faixa, segundo a CoinDesk.

"O próximo movimento do bitcoin agora está ligado a um catalisador que ele ainda não tem", disse Kalchev à publicação. "Tendo absorvido três choques distintos neste mês sem uma reprecificação real, o caminho mais provável no curto prazo é uma negociação lateral, e não um rompimento."

De acordo com Kalchev, US$ 77.950 é o primeiro nível que o bitcoin precisa superar, seguido por US$ 79.300 e US$ 80.000. Uma alta acima de US$ 80.000 poderia abrir caminho para US$ 81.400, enquanto uma queda abaixo de US$ 75.000 colocaria a recuperação em xeque, segundo o analista.

Reguladores devem avançar por conta própria

Após o fracasso do projeto no Senado, analistas ouvidos pela CoinDesk esperam que os órgãos reguladores dos mercados de valores mobiliários e de derivativos nos Estados Unidos avancem com regras próprias usando suas atribuições já existentes, em vez de depender de uma lei específica votada pelo Congresso. Isso significaria uma mudança na forma como o setor é regulado no país: de uma abordagem estatutária permanente para uma abordagem conduzida por agências, baseada em normas administrativas.

O avanço regulatório já começou na quinta-feira anterior à publicação da matéria, com a autoridade de valores mobiliários dos EUA emitindo uma isenção temporária e condicional voltada à inovação, permitindo que plataformas cripto elegíveis oferecessem negociação de ações tokenizadas dos Estados Unidos, segundo a CoinDesk.

Luke Davis, fundador e estrategista-chefe de mercado da Bull Market Blueprint, disse à CoinDesk que essa medida demonstra que o avanço regulatório pode continuar mesmo após o revés do Clarity Act. "A ação regulatória dá aos investidores um motivo para olhar além da votação fracassada. Espero que o bitcoin termine o ano em alta, com as condições de liquidez e o chamado 'trade da desvalorização' pesando mais em minha previsão do que o momento de qualquer projeto de lei específico", afirmou.

Visões divididas sobre o que vem a seguir

Matt Hougan, diretor de investimentos da Bitwise Asset Management, avalia que os Estados Unidos ainda têm dois anos e meio de um regime regulatório favorável às criptomoedas, período durante o qual o setor pode continuar avançando, segundo a CoinDesk. Ele se declara otimista e afirma que isso não deve impedir investidores de considerar ativos de menor capitalização com tokenomics sólidas e vínculos com ativos do mundo real.

No entanto, Hougan pondera que, se o Clarity Act tivesse sido aprovado no Senado, o setor cripto provavelmente seria consenso como a "aposta inteligente" do quarto trimestre, com preços avançando de volta às máximas históricas. Como isso não ocorreu, ele diz esperar um caminho mais acidentado — mas ressalta que a situação não mudou muito em relação ao cenário anterior à votação.

Para Hougan, o Clarity Act era e continua irrelevante para os fundamentos do bitcoin, de modo que uma eventual queda de preço no curto prazo teria mais a ver com sentimento do mercado do que com fatores estruturais. "Se o bitcoin cair no curto prazo por conta do clima em torno do Clarity Act, eu consideraria isso uma oportunidade", disse à CoinDesk.

Já Vineet Budki, sócio-gerente e CEO da Sigma Capital, adota tom mais cauteloso. Segundo ele, a recuperação do bitcoin e a limpeza de posições compradas liquidadas ainda não comprovam que o fundo do mercado foi atingido. "Não estou pronto para fazer essa afirmação", disse Budki à CoinDesk. "Prefiro esperar um trimestre e deixar a ação do preço falar antes de assumir uma visão direcional firme."

Budki lembra que o ciclo de quatro anos do bitcoin ainda precisa se desenrolar e alerta que juros elevados e um mercado imobiliário americano em desaceleração podem levar investidores a uma postura mais avessa a risco. "Então minha postura é segurar e esperar. Não estou inclinado firmemente para alta nem para baixa agora", afirmou.

Kalchev, da Nexo Dispatch, apontou o relatório de emprego de setembro, previsto para 2 de outubro, e a divulgação do Índice de Preços ao Consumidor, em 14 de outubro, como os próximos testes relevantes para o mercado. Segundo ele, entradas consistentes em ETFs ou retomada das compras no mercado à vista seriam o sinal mais claro de que o bitcoin está prestes a romper sua faixa atual de negociação.

Mati Greenspan, analista de mercado e fundador da Quantum Economics, usou uma metáfora para descrever a independência do bitcoin em relação à política regulatória: comparou o ativo a um texugo-do-mel, animal conhecido por sua resiliência, dizendo que o bitcoin "certamente não depende de nenhum governo ou de sua legislação", segundo a CoinDesk.

Greenspan acrescenta que, embora a comunidade cripto acompanhe de perto o cenário regulatório, o fracasso da legislação nos Estados Unidos não representa um momento decisivo para o bitcoin. Segundo ele, historicamente o ativo teve desempenho de preço mais forte durante períodos de pressão regulatória do que durante períodos de clareza regulatória, afirmação atribuída pela CoinDesk ao analista.

O que isso significa para o investidor

O episódio reforça um padrão que a AAR News já vinha destacando: o bitcoin tem mostrado capacidade de absorver choques de política monetária e regulatória sem repricing abrupto, como visto na alta acima de US$ 77 mil após o aperto do Banco do Japão em setembro. O cenário atual, de negociação range-bound entre os níveis técnicos apontados por analistas como Kalchev, sugere que o ativo aguarda um catalisador mais claro — seja fluxo de ETFs, seja dado macroeconômico — antes de romper a faixa em qualquer direção.

Para o investidor brasileiro, a divergência de opiniões entre os próprios especialistas — Hougan mais otimista, Budki mais cauteloso — é um sinal de que o consenso sobre o próximo movimento do bitcoin ainda não existe. Isso reforça a importância de acompanhar os indicadores macro mencionados pelos analistas, como os dados de emprego e inflação americanos previstos para outubro, além do fluxo de ETFs, antes de assumir posições direcionais mais agressivas.

Vale notar que, segundo cotação da TradingView referenciada pelo AAR News em 20 de setembro de 2026 às 10h35 (horário de Brasília), o bitcoin era negociado a US$ 80.431,01, com queda de 0,99% no dia — patamar acima dos níveis de resistência de US$ 77.950 e US$ 79.300 citados por Kalchev na semana da votação do Clarity Act, e já dentro da faixa que ele descreveu como caminho para US$ 81.400. Isso indica que o mercado, nos dias seguintes ao episódio, seguiu na direção que os analistas mais otimistas projetavam, embora a variação diária recente também mostre que a volatilidade de curto prazo permanece presente.

Por fim, o fato de que a rejeição do Clarity Act não tenha travado o avanço regulatório — com medidas pontuais de agências federais já em curso, segundo a CoinDesk — sugere que o mercado cripto nos EUA pode seguir avançando por via administrativa mesmo sem uma lei abrangente aprovada pelo Congresso. Isso é relevante para investidores que monitoram o ambiente regulatório americano como fator de risco, já que reduz, ainda que parcialmente, a dependência de um calendário legislativo incerto.

Agregado por AAR News · fonte: CoinDesk

Texto reescrito pela redação AAR com assistência de IA · confira a fonte · como produzimos