Em meio à volatilidade recente dos mercados, associada a preços de petróleo elevados, tensões geopolíticas persistentes, o aumento de juros pelo Federal Reserve e o debate sobre segurança de inteligência artificial, analistas de Wall Street têm buscado separar o ruído de curto prazo das teses de crescimento estrutural. A CNBC reuniu três recomendações de compra de profissionais bem posicionados na plataforma TipRanks, que ranqueia analistas conforme o histórico de acerto de suas chamadas.
As três companhias selecionadas — Oracle, Rocket Lab e Meta Platforms — têm em comum a exposição a temas de infraestrutura de nuvem, espaço e inteligência artificial, segmentos que continuam atraindo atenção mesmo em um cenário de cautela generalizada nos mercados.
Oracle: aposta em nuvem de IA sustenta preço-alvo de US$ 400
A Oracle, fornecedora de software corporativo e infraestrutura de nuvem, divulgou recentemente resultados acima do esperado para o primeiro trimestre do ano fiscal de 2027, impulsionados por crescimento sólido na receita de infraestrutura de nuvem, segundo a reportagem.
Após uma série de reuniões com investidores ao lado de Ken Bond, responsável por relações com investidores da Oracle, o analista John DiFucci, do Guggenheim, reafirmou recomendação de compra com preço-alvo de US$ 400. A ação continua classificada como uma das "Best Ideas" da casa, segundo o analista.
DiFucci afirmou acreditar que a Oracle é uma "ação da década", impulsionada pela oportunidade — descrita por ele como massiva e rentável — em treinamento e inferência de IA. Ele também citou o negócio tradicional de nuvem pública e as novas ofertas de banco de dados e aplicações em nuvem habilitadas por IA como fatores de sua visão otimista, projetando aceleração de receita e lucro nos próximos anos.
A Oracle entregou 850 MW de capacidade de data center no primeiro trimestre do ano fiscal de 2027, mas Bond alertou que a receita de Infraestrutura como Serviço (IaaS) em qualquer trimestre depende mais do momento em que essa capacidade entra em operação do que do número total de megawatts anunciado. DiFucci espera que o crescimento de IaaS permaneça forte, com expansão para o ano fiscal completo acima da taxa de 120% em moeda constante registrada no primeiro trimestre. A administração da empresa espera que o crescimento total de receita se acelere sequencialmente ao longo do ano fiscal de 2027, à medida que o negócio de infraestrutura, de crescimento mais rápido, ganhe peso no mix de receitas.
O analista também tratou das preocupações sobre concentração de clientes, afirmando que a participação da OpenAI no total de obrigações de desempenho remanescentes (RPO) caiu de 80% em junho do ano passado para cerca de 50% atualmente, com expectativa de queda adicional conforme novos contratos sejam firmados com clientes novos e existentes.
DiFucci ocupa a posição 263 entre mais de 12.490 analistas acompanhados pela TipRanks. Suas recomendações foram rentáveis em 62% das vezes, com retorno médio de aproximadamente 17,5%, segundo dados da plataforma citados pela reportagem.
Rocket Lab: aquisição da Iridium muda o perfil de caixa da empresa
A Rocket Lab, provedora de sistemas espaciais e serviços de lançamento, foi alvo de cobertura iniciada pelo analista Brian Gesuale, da Raymond James, com recomendação de compra e preço-alvo de US$ 80.
Segundo Gesuale, a empresa reuniu capacidades de lançamento, espaçonaves, componentes, cargas úteis e comunicações ópticas, com os programas Neutron e Iridium completando, respectivamente, a capacidade de lançamento de média carga e as aplicações de espectro em 2027.
O analista, classificado com cinco estrelas pela TipRanks, destacou que a conclusão da aquisição da Iridium tornará a Rocket Lab a única empresa espacial verticalmente integrada com fluxo de caixa livre positivo. O negócio adicionará uma constelação de satélites já em operação avaliada em mais de US$ 3 bilhões, espectro na banda L com coordenação global e cerca de US$ 500 milhões em EBITDA, além de US$ 300 milhões em fluxo de caixa livre, segundo a reportagem.
Gesuale ressaltou o forte crescimento de receita e de carteira de pedidos (backlog) da companhia, além do avanço em direção a EBITDA e fluxo de caixa livre positivos em 2027 e 2028. Segundo o analista, a Rocket Lab está deixando uma fase de investimento pesado para entrar em uma fase de monetização, com crescimento de receita estimado em 59% em 2026. O backlog da empresa mais que dobrou, passando de US$ 1,1 bilhão no terceiro trimestre de 2025 para quase US$ 2,4 bilhões.
Diante das projeções de crescimento, Gesuale espera que as margens brutas da Rocket Lab se expandam de um piso de cerca de 35% em 2027 para aproximadamente 47% até 2030, enquanto os gastos com pesquisa e desenvolvimento devem cair de cerca de 35% das vendas em 2026 para próximo de 10% em 2028 — o que, segundo o analista, criaria alavancagem operacional relevante à medida que a plataforma da empresa maturasse.
Gesuale ocupa a posição 369 entre mais de 12.490 analistas monitorados pela TipRanks, com recomendações rentáveis em 63% das vezes e retorno médio de cerca de 17%, de acordo com a reportagem.
Meta Platforms: upgrade do J.P. Morgan aposta em modelos de fronteira
O analista Doug Anmuth, do J.P. Morgan, elevou a recomendação para Meta Platforms de neutra para compra e aumentou o preço-alvo de US$ 640 para US$ 820. Mesmo com o desempenho abaixo do esperado da ação no acumulado do ano, o analista — também com classificação de cinco estrelas pela TipRanks — vê potencial de valorização significativo, apontando que a Meta está em estágio inicial no lançamento de modelos de fronteira e ofertas de IA além da publicidade, com destaque para o agente de IA Muse e o acesso via API ao Meta Model.
Segundo Anmuth, os modelos de fronteira estão no centro do pipeline de produtos e monetização da Meta ao longo de um período de vários anos, fazendo parte do caminho da empresa rumo à chamada superinteligência.
No verão de 2025, a Meta estabeleceu a meta de reconstruir sua equipe do Meta Superintelligence Labs e entregar modelos de IA de fronteira dentro de um ano. Segundo o analista, a equipe parece ter cumprido esse objetivo, avançando rapidamente do lançamento do Muse Spark 1.1, em julho, até o Muse Spark 1.3, que seria competitivo com os modelos Claude e GPT.
Anmuth também citou o produto Watermelon, da Meta, como fonte de expansão de oportunidades em produtos de consumo, inteligência de negócios e engajamento na família de aplicativos da empresa. Segundo o analista, o produto deve aprimorar operações internas e a eficiência geral, e ele se mostrou confiante na capacidade da Meta de levar produtos de IA voltados ao consumidor para sua base de usuários, estimada em 4 bilhões de pessoas, considerando a rede de distribuição da empresa uma vantagem competitiva.
Além do foco em modelos de fronteira e desenvolvimento de produtos de IA, Anmuth também identifica oportunidade relevante na capacidade de infraestrutura de IA da Meta, que, na avaliação dele, deve sustentar as necessidades futuras de capacidade computacional da empresa.
Anmuth ocupa a posição 832 entre mais de 12.490 analistas acompanhados pela TipRanks, com recomendações bem-sucedidas em 57% das vezes e retorno médio de cerca de 9,40%, segundo a reportagem da CNBC.
O que isso significa para o investidor
As três recomendações reforçam um padrão que já vem sendo observado pelo AAR News: mesmo em semanas de maior volatilidade em Wall Street — como as registradas após a decisão do Fed sobre juros e o fechamento do Dow Jones em queda de 1,69% na semana até 18 de setembro —, um grupo específico de ações ligadas a nuvem, IA e infraestrutura tecnológica tem ajudado a conter perdas mais acentuadas nos índices, conforme apontado pela CNBC em reportagens anteriores.
Para o investidor brasileiro com exposição a ativos internacionais, o caso da Oracle chama atenção pela redução da dependência de um único cliente — a queda da participação da OpenAI no backlog de 80% para cerca de 50% — que tende a reduzir o risco de concentração na tese de nuvem de IA da empresa, ainda que a conversão de capacidade instalada em receita efetiva dependa do ritmo de entrada em operação dos data centers, como alertou o próprio executivo de relações com investidores da companhia.
Já a tese da Rocket Lab é mais dependente da execução da aquisição da Iridium e da trajetória de expansão de margens projetada até 2030; trata-se de uma aposta de ciclo mais longo, com sensibilidade a atrasos de integração ou revisões no cronograma de lançamentos do Neutron. No caso da Meta, o upgrade do J.P. Morgan ocorre justamente após um período de desempenho fraco da ação no ano, o que sugere que o mercado ainda precifica de forma incompleta o avanço dos modelos Muse e do produto Watermelon — pontos que devem ser monitorados nos próximos resultados trimestrais e em eventuais atualizações de guidance das três companhias.
Agregado por AAR News · fonte: CNBC
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