A vice-líder dos Liberais Democratas do Reino Unido, Daisy Cooper, afirmou que a economia britânica está sendo travada por um excesso de burocracia, que ela descreveu como uma postura de recusa automática diante de novas ideias e investimentos. A declaração foi feita durante a conferência do partido em Brighton, segundo reportagem da BBC.
Cooper, que também atua como porta-voz do partido para assuntos do Tesouro, apresentou um plano de 30 páginas voltado a remover obstáculos regulatórios enfrentados por empresas no país. Segundo ela, o Reino Unido gera boas ideias, startups e pesquisas, mas grande parte desse potencial acaba migrando para o exterior antes de se transformar em produtos ou negócios consolidados em solo britânico.
Um plano contra a burocracia
No discurso, Cooper afirmou que o país constrói startups notáveis, mas vê muitas delas deixarem o Reino Unido para crescer em outros mercados. Segundo ela, a pesquisa produzida no país é de nível mundial, mas pouco disso se converte em produtos britânicos. Para a vice-líder, o Reino Unido tem potencial, mas o sistema atual funciona como um freio a esse avanço.
Como parte do plano, ela propôs a criação de uma plataforma digital única para empresas e investidores, reunindo em um só lugar serviços de natureza tributária, regulatória, jurídica e de registro empresarial, incluindo integração com a Companies House. Essa estrutura seria organizada dentro de um novo Departamento para o Crescimento, com o objetivo declarado de simplificar a burocracia e facilitar a competitividade de pequenas e médias empresas.
Parceria de Crescimento e Defesa com a União Europeia
Cooper também defendeu a criação de uma Parceria de Crescimento e Defesa com a União Europeia, que classificou como a principal alavanca de crescimento disponível ao país por meio do aprofundamento dos laços com o bloco europeu. Segundo ela, essa aproximação teria potencial para impulsionar a economia britânica e começar a reverter os efeitos econômicos do Brexit, que, de acordo com a vice-líder, custam ao Reino Unido £90 bilhões por ano em receita tributária perdida.
Ela afirmou que, no governo, os Liberais Democratas fechariam acordos envolvendo o mercado único, uma união aduaneira e cooperação em defesa. Cooper declarou ainda que seu partido está disposto a dizer o que nenhuma outra legenda ousa afirmar: que a posição natural da Grã-Bretanha é no centro da Europa, e que os Lib Dems buscariam conduzir o país de volta a esse lugar.
Contexto político: Burnham e Healey
A BBC lembra que, antes de se tornar primeiro-ministro, Andy Burnham já havia dito que gostaria de ver o Reino Unido retornar à União Europeia ainda em vida, embora tenha afirmado respeitar o resultado do referendo de 2016 e não ter planos de reabrir o debate sobre o Brexit.
Na sexta-feira, o chanceler do Tesouro, John Healey, se reuniu com ministros da União Europeia e pediu a inclusão do Reino Unido no esquema europeu voltado à proteção de indústrias contra concorrência considerada desleal da China. Healey também defendeu parcerias mais estreitas entre Reino Unido e UE nas áreas de tecnologia, defesa e manufatura, durante um encontro de ministros de Finanças da UE em Dublin, no mesmo dia em que Burnham realizou seu primeiro encontro oficial com o taoiseach (primeiro-ministro irlandês) Micheál Martin, em Downing Street.
Críticas a rivais políticos
Buscando diferenciar seu partido das demais forças políticas, Cooper disse que os Liberais Democratas evitariam tanto novos aumentos de impostos por parte do Partido Trabalhista quanto cortes de gastos considerados por ela dolorosos, promovidos por conservadores e pelo Reform UK. Ela também criticou o discurso feito por Healey no início do mês, dizendo que ele não trouxe visão, ideias ou qualquer menção à Europa.
A vice-líder ainda classificou Reform UK e os conservadores como estando em uma disputa sem qualquer cálculo fiscal crível apresentado por nenhum dos dois lados. Cooper citou o novo chanceler-sombra do Tesouro, Andrew Griffith, associando-o à formulação e defesa do chamado mini-orçamento de Liz Truss, que segundo ela derrubou a libra, elevou custos de hipotecas e gerou bilhões em prejuízo ao país — e que teria sido defendido por Nigel Farage na época.
Segundo Cooper, o cenário mais preocupante ainda pode estar por vir, ao afirmar que Farage estaria se espelhando no modelo de atuação de Donald Trump, a quem descreveu como um presidente que usou o cargo para se enriquecer, desmontou salvaguardas anticorrupção e concedeu perdões a criminosos ligados a criptomoedas. Ela disse que esse tipo de política não pode se consolidar no Reino Unido e que o país não pode permitir que Farage assuma o comando de Downing Street, nem que os conservadores viabilizem esse caminho.
O que isso significa para o investidor
Para quem acompanha ativos britânicos, a proposta de Cooper reforça um debate já conhecido: o custo econômico do Brexit segue sendo usado como munição política, com a cifra de £90 bilhões anuais em perda de arrecadação citada como argumento central para uma reaproximação com a União Europeia. Ainda que se trate de uma proposta de oposição, sem poder de execução imediata, ela sinaliza que o tema da relação comercial com o bloco europeu continuará no centro do debate político britânico, o que tende a manter viva a sensibilidade de ativos em libra esterlina a notícias sobre integração regulatória e comercial com a UE.
A menção a reuniões já em curso entre o chanceler John Healey e ministros da UE — incluindo o pedido de acesso ao esquema Made in Europe e conversas sobre tecnologia, defesa e manufatura — indica que, independentemente da retórica eleitoral dos Lib Dems, o governo em exercício já sinaliza movimentos concretos de aproximação com o bloco. Investidores expostos a setores como manufatura avançada, defesa e tecnologia no Reino Unido devem acompanhar o desdobramento dessas negociações, já que qualquer avanço em acordos setoriais pode alterar as condições de acesso a mercados europeus para empresas britânicas.
Por fim, as críticas cruzadas entre Lib Dems, Trabalhistas, Conservadores e Reform UK — incluindo a lembrança do mini-orçamento de Liz Truss, episódio associado a forte volatilidade da libra e das hipotecas — mostram que a estabilidade fiscal segue como tema sensível na política britânica. Para quem investe no Reino Unido, isso reforça a importância de monitorar não apenas o partido no poder, mas o tom das oposições, já que mudanças no equilíbrio político podem influenciar expectativas sobre política fiscal, tributação e relação comercial com a Europa nos próximos ciclos eleitorais.
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