O presidente Donald Trump ameaçou na segunda-feira impedir a venda de aeronaves da canadense Bombardier no mercado americano, caso a companhia não transfira sua manufatura para os Estados Unidos. A declaração foi publicada em sua rede Truth Social e marca nova escalada na guerra comercial entre os dois países, horas antes de o Canadá impor tarifas retaliatórias sobre US$ 20 bilhões em produtos americanos.
"CHEGA DE VENDER BOMBARDIER NOS ESTADOS UNIDOS!", escreveu Trump. "Se querem nosso mercado, precisam construir aqui e parar de tratar a América como um 'cofrinho'." A BBC procurou o gabinete do primeiro-ministro Mark Carney e a Bombardier para comentário, mas não obteve resposta até o momento.
Operações da Bombardier nos EUA
A Bombardier, sediada em Montreal, já mantém uma fábrica no estado americano do Kansas dedicada à construção de aviões militares de missão especial. A unidade emprega 3.500 trabalhadores americanos. Cerca de metade da frota da empresa — 5.100 aeronaves — é operada por clientes baseados nos Estados Unidos.
Os jatos da companhia são fabricados em instalações no Canadá, nos Estados Unidos e no México, segundo o site corporativo. A produção está em conformidade com o acordo de livre comércio da América do Norte assinado por Trump em seu primeiro mandato, conhecido como CUSMA no Canadá e USMCA nos Estados Unidos.
Não está claro como Trump pretende bloquear a Bombardier de fazer negócios no território americano, dado que a empresa já possui presença industrial significativa no país e opera sob o guarda-chuva do tratado trilateral vigente.
Peso econômico da Bombardier
A Bombardier é uma das maiores empresas do Canadá. Segundo relatório encomendado pela própria companhia, ela contribuiu com C$ 7,4 bilhões para o PIB canadense em 2024. A empresa também figura entre os maiores empregadores do setor manufatureiro da província de Quebec.
A primeira-ministra de Quebec, Christine Fréchette, publicou na segunda-feira em sua conta no X que a Bombardier é "uma fonte de orgulho" para a província e "um emblema de nossa economia". Fréchette afirmou ter entrado em contato com o CEO da Bombardier, Éric Martel, e oferecido apoio integral do governo provincial.
Sobre a ameaça de Trump, a premiê declarou: "Não vou responder a provocação com provocação. Quebec não permitirá que ninguém dite onde nossas empresas devem produzir para acessar um mercado."
Colapso das negociações comerciais
As conversas comerciais entre Canadá e Estados Unidos fracassaram no fim do mês passado, quando a delegação canadense abandonou a mesa de negociação. Na sequência, os Estados Unidos impuseram novas tarifas de 50% sobre uma série de produtos canadenses.
O primeiro-ministro Carney acusou o governo Trump de apresentar termos de última hora que seriam "injustos" e "antieconômicos". Autoridades americanas, por sua vez, alegaram que Carney teria recusado assinar um acordo por razões políticas, devido à impopularidade de Trump no Canadá — acusação que o premiê canadense negou.
O que isso significa para o investidor
A ameaça a uma empresa do porte da Bombardier sinaliza que a Casa Branca está disposta a mirar companhias específicas como instrumento de pressão comercial, ampliando o risco regulatório para multinacionais que operam na América do Norte. Investidores com exposição a setores de defesa, aeroespacial e manufatura integrada regionalmente devem monitorar se a retórica presidencial se traduz em medidas executivas concretas — e se essas medidas resistiriam a contestação judicial, dado que a Bombardier já cumpre o USMCA.
A imposição de tarifas retaliatórias canadenses sobre US$ 20 bilhões em bens americanos adiciona volatilidade a cadeias de suprimento bilaterais e pode pressionar margens de empresas dos dois lados da fronteira. Setores como automotivo, agroindústria e bens de capital tendem a sentir o impacto mais rapidamente, com repasse de custos ao consumidor final e possível contração de volumes.
Para quem investe no Brasil, a escalada EUA–Canadá reforça o padrão de fragmentação do comércio global e eleva a atratividade relativa de mercados emergentes menos dependentes da dinâmica norte-americana. Vale acompanhar se outros países do G7 adotam postura de retaliação coordenada, o que ampliaria o escopo da guerra tarifária e poderia redirecionar fluxos de investimento direto para jurisdições neutras.
No curto prazo, a incerteza tende a favorecer ativos defensivos e moedas-refúgio. Empresas brasileiras exportadoras para os EUA ou Canadá — especialmente em commodities e insumos industriais — podem se beneficiar de eventuais lacunas de oferta criadas pelas tarifas recíprocas, mas devem calibrar expectativas de demanda em cenário de desaceleração nas duas economias.
Agregado por AAR News · fonte: BBC
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