A Securities and Exchange Commission (SEC) abriu na semana passada um novo caminho regulatório para a negociação de ações tokenizadas nos Estados Unidos, medida que reforça uma tendência que já vinha ganhando espaço nos mercados financeiros ao longo do último ano. Segundo a agência, o mecanismo permite que plataformas qualificadas operem pools de criadores de mercado automatizados sem precisar se registrar como bolsas formais.
Apesar do avanço regulatório, o banco de investimento TD Cowen não espera uma corrida de investidores para esse novo formato de negociação. Em relatório assinado por Reid Noch, vice-presidente de estrutura de mercado de ações dos EUA na instituição, a leitura é de que a adoção deve permanecer limitada no curto prazo, tanto entre investidores de varejo quanto entre instituições, segundo a CoinDesk.
O novo regime da SEC
A chamada Innovation Exemption cria uma estrutura válida por cinco anos para que ambientes de negociação de valores mobiliários tokenizados operem por meio de criadores de mercado automatizados (AMMs), em vez do tradicional livro de ofertas. Nesse modelo, um AMM mantém reservas de ativos e usa regras predefinidas para precificar as transações, o que teoricamente permitiria que tokens de ações fossem negociados 24 horas por dia, desde que haja liquidez suficiente na pool.
Segundo o relatório, essa possibilidade de negociação contínua não significa necessariamente melhores condições de negociação, já que uma liquidez rasa pode gerar preços desfavoráveis. A SEC também impôs limites rígidos ao experimento: os tokens precisam representar ações listadas em mercados nacionais organizados (NMS stocks) e preservar direitos econômicos, dividendos, direito a voto e direitos de liquidação vinculados às ações subjacentes.
Além disso, tokenizadores terceirizados são obrigados a notificar a empresa emissora antes de negociar suas ações, dando à companhia um prazo de 30 dias para se opor à iniciativa. O volume de negociação também está sujeito a limites definidos pela regra. Para a TD Cowen, essas exigências podem tornar o modelo americano mais difícil de adotar do que produtos de ações tokenizadas já oferecidos fora dos Estados Unidos.
A regra da SEC chegou poucos dias depois de o Clarity Act não avançar no Congresso, o que deixou a legislação mais ampla sobre estrutura de mercado para criptoativos travada por ora.
Ceticismo da TD Cowen
No centro da análise de Noch está um problema estrutural: as ações tokenizadas precisam resolver algo que o mercado acionário tradicional dos EUA já não resolve bem. Segundo ele, os investidores americanos já têm acesso eficiente às ações subjacentes, e os ambientes tokenizados precisam oferecer um benefício claro para compensar a liquidez limitada e a complexidade operacional adicional.
"Esperamos adoção limitada no curto prazo, tanto entre investidores de varejo domésticos quanto entre instituições", escreveu Noch em relatório divulgado na sexta-feira, segundo a CoinDesk.
O interesse dos próprios emissores de ações também aparece como obstáculo. De acordo com o relatório, conversas da TD Cowen com dezenas de emissores, incluindo companhias com forte presença junto ao varejo, revelaram interesse mínimo em tokenizar suas ações, exceção feita a empresas já ligadas ao setor de criptoativos, como a Figure.
O caso Figure
A Figure ilustra o tamanho desse obstáculo na prática. As ações FIGR da empresa, listadas na Nasdaq, são negociadas ao lado de ações nativas de blockchain, as FGRS, que carregam a mesma exposição econômica e os mesmos direitos de voto. Ainda assim, segundo o levantamento da TD Cowen, 99,9% do volume nocional negociado da Figure ocorreu por meio das ações tradicionais listadas durante o período de 24 horas analisado pelo banco.
Futuros perpétuos como alternativa
Para quem busca exposição a ações via criptoativos, a ameaça mais relevante aos mercados tradicionais pode estar em outro produto: os futuros perpétuos. A TD Cowen identificou que, em um recorte de dados da Binance, 96% do volume nocional relacionado à Nvidia veio de futuros perpétuos, contra apenas 4% de produtos à vista.
"Como já vimos destacando, entendemos os futuros perpétuos como a narrativa de demanda mais forte", escreveu Noch, acrescentando que a expectativa é de expansão contínua desses produtos, tanto internacional quanto domesticamente, refletindo o interesse do investidor de varejo por alavancagem, segundo a CoinDesk.
O que isso significa para o investidor
A avaliação da TD Cowen sugere que a abertura regulatória da SEC, por si só, não deve provocar uma migração relevante de capital das ações tradicionais para versões tokenizadas no curto prazo. O investidor brasileiro que acompanha o tema via ETFs ou ações americanas listadas em bolsas locais tende a ser afetado muito mais pelo comportamento geral do mercado acionário dos EUA do que por essa inovação estrutural específica.
Vale observar que o apetite por risco nos mercados americanos continua elevado: o Nasdaq foi cotado em 27.161,02 pontos, alta de 2,41% no dia, conforme scanner da TradingView em 21/09/2026 às 16h59 (BRT). Esse movimento reforça que o principal motor de valorização de ações ligadas a tecnologia e cripto ainda é o mercado tradicional, e não os experimentos de tokenização discutidos pela SEC.
Para investidores expostos a criptoativos, o dado mais relevante do relatório pode ser o predomínio dos futuros perpétuos sobre produtos tokenizados à vista, o que indica que a demanda por alavancagem, e não por substitutos tokenizados das ações, é o que de fato move volume nesse nicho hoje. Isso reforça que qualquer tese de investimento baseada em ações tokenizadas deve ser tratada com cautela até que haja sinais concretos de adesão por parte de emissores fora do universo cripto.
Vale acompanhar, nos próximos meses, se a SEC amplia os limites de volume da Innovation Exemption, se mais emissores tradicionais aceitam tokenizar suas ações e se o volume em plataformas de futuros perpétuos continua crescendo mais rápido do que os produtos tokenizados à vista — sinais que ajudarão a validar ou refutar a leitura cautelosa da TD Cowen.
Agregado por AAR News · fonte: CoinDesk
Texto reescrito pela redação AAR com assistência de IA · confira a fonte · como produzimos
