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Tarifas, combustível caro e juros em alta espremem empresas nos EUA

De pequenas fabricantes a montadoras, companhias americanas relatam custos disparados; Fed elevou juros e sinaliza nova alta neste ano

CNBC

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Empresas americanas de diferentes portes enfrentam uma combinação rara de pressões: tarifas impostas pelo governo de Donald Trump, custos de combustível inflados pela guerra no Irã e uma nova rodada de aumento de juros pelo Federal Reserve. Segundo reportagem da CNBC, o resultado é um aperto que já leva executivos a cortar operações, estocar insumos e, em alguns casos, buscar proteção judicial.

Um dos casos citados pela CNBC é o da Original Saw Co., fabricante de serras industriais para madeira e metal em Britt, no estado de Iowa, que emprega 25 pessoas. Seu proprietário, Allen Eden, de 56 anos, disse à reportagem que vem retendo estoque adicional diante da escalada de preços do aço, do alumínio e de peças essenciais para a produção.

Eden citou como exemplo um pequeno suporte usado nos motores de suas serras, cujo preço mais do que dobrou neste verão no hemisfério norte, saltando de US$ 42 para US$ 87. 'É terrível', afirmou o empresário à CNBC, acrescentando que está 'apenas tentando manter mais material por perto' porque não sabe se conseguirá repor os insumos no futuro.

A CNBC descreve a situação como um aperto em três frentes que atinge setores de manufatura, transporte e varejo: as tarifas elevam o custo de matérias-primas e produtos importados; os preços mais altos de combustível encarecem a produção e o transporte de mercadorias; e a alta de juros torna mais caro financiar estoques e equipamentos necessários para manter as operações rodando.

Fabricantes de porte médio estariam particularmente pressionados, segundo a reportagem: o encarecimento do aço e do combustível os força a repassar parte dos custos aos preços finais, alimentando a inflação persistente dos últimos anos. Para conter esse quadro, o Federal Reserve elevou os juros pela primeira vez em três anos e sinalizou a possibilidade de uma nova alta ainda neste ano — movimento que, segundo a CNBC, torna mais caro para as empresas financiar estoques e captar recursos para crescer justamente no momento em que os custos de insumos e os preços recordes do diesel usado no transporte rodoviário já pressionam as margens.

Eden vende suas serras tanto para grandes redes de varejo, como a Home Depot, quanto diretamente a fabricantes de pequeno e médio porte. Segundo ele, novos aumentos de preço parecem inevitáveis diante do cenário atual.

A CNBC destaca que o impacto não é uniforme entre as empresas. Companhias menores costumam depender de crédito de curto prazo, o que faz com que as altas de juros do Fed se transmitam de forma mais direta aos seus custos, segundo nota de 14 de setembro assinada por Dubravko Lakos-Bujas, chefe de estratégia global do JPMorgan Chase.

Ainda de acordo com Lakos-Bujas, independentemente do porte, setores intensivos em capital — como manufatura e fornecedores de equipamentos, empresas de logística, incluindo frotas de transporte rodoviário, e o mercado imobiliário comercial — também sofrem mais em um ambiente de juros crescentes.

'A combinação de juros mais altos e combustível mais caro coloca os setores com maior exposição a ambos na linha de frente', disse Gregory Daco, economista-chefe da EY-Parthenon, braço global de consultoria da Ernst & Young, à CNBC. Segundo ele, 'qualquer tipo de manufatura vai estar desproporcionalmente exposto a preços mais altos de combustível'.

A alta de custos de combustível e commodities também atinge fabricantes de materiais e os varejistas que compram deles. Mark Costa, CEO da gigante química industrial Eastman Chemical — que produz plásticos, aditivos e outros materiais usados em produtos que vão de dispositivos médicos a ração animal e para-brisas de veículos —, afirmou em maio, segundo a CNBC, que a combinação de juros e inflação estava encurralando o setor.

Em entrevista à Fox Business citada pela reportagem, Costa disse que 'todo mundo estava com as costas contra a parede, sem espaço para absorver esses aumentos' e que 'todo mundo está aumentando os preços muito mais rápido do que eu já vi em 20 anos'.

No varejo, a pressão inesperada de custos de energia e matérias-primas deve 'compensar totalmente' o benefício de US$ 730 milhões em reembolsos de tarifas, segundo o diretor financeiro da Home Depot, Richard McPhail, em declarações do mês passado citadas pela CNBC. 'Há tanta incerteza agora... você pensa em inflação, juros, preços de combustível', disse McPhail em uma conferência na semana passada.

Buracos na cadeia de suprimentos

Entre os setores mais afetados está a cadeia de suprimentos automotiva doméstica dos Estados Unidos. A Lucerne International, fabricante privada de autopeças com sede nos subúrbios de Detroit, interrompeu operações de manufatura no país e cancelou, no ano passado, planos para uma fábrica de forjamento de alumínio de US$ 50 milhões em Michigan.

'O início das tarifas de Trump 2.0 realmente abriu buracos em nossas cadeias de suprimentos globais e aumentou significativamente os custos', disse a CEO da Lucerne, Mary Buchzeiger, à CNBC, citando o encarecimento de matérias-primas como o alumínio e também de peças acabadas.

Buchzeiger, cuja empresa continua fabricando no exterior, afirmou que redirecionou as operações americanas para armazenagem, distribuição e soluções de mitigação de tarifas para outras companhias, atividades que, segundo ela, oferecem margens 'muito melhores'.

'Não há dúvida de que há pressão sobre as margens dos fornecedores', disse Paul McCarthy, CEO da MEMA, associação comercial de fornecedores de veículos, à CNBC. 'Parte disso, tentamos absorver... e parte precisa ser repassada.'

Segundo dados da consultoria Berylls by AlixPartners citados pela reportagem, o crescimento medido pelo lucro antes de juros e impostos (EBIT) das cem maiores fornecedoras automotivas caiu no ano passado para 4,2%, ante mais de 6% em 2021. Entre as dez maiores montadoras, esse indicador é de 5,2%, comparado a quase 8% em 2022.

Nem todas as empresas do setor automotivo conseguiram administrar os custos adicionais. A Grupo Antolin, fabricante espanhola de autopeças que fornece componentes para montadoras como Ford, GM, Volkswagen e Stellantis, entrou com pedido de proteção sob o Capítulo 15 nos Estados Unidos em julho, citando tarifas, custos mais altos de matéria-prima e energia, além de disrupções na cadeia de suprimentos como motivos para a reestruturação.

Uma divisão na economia corporativa americana

A CNBC nota que companhias gigantes — como as de tecnologia e finanças que dominam o S&P 500 — estão em posição mais confortável, já que normalmente contam com reservas de caixa maiores e dívidas de longo prazo, o que as protege parcialmente do impacto de juros mais altos.

Segundo Lakos-Bujas, do JPMorgan, a maioria das grandes empresas consegue prosperar até que os custos de captação subam ainda mais: a dor real chegaria quando o rendimento do título do Tesouro de 10 anos atingisse 6%, ante os cerca de 5% atuais — patamar estimado a partir de 80 anos de dados analisados pelo banco.

Os custos de financiamento devem permanecer elevados por mais tempo. A inflação persistente, que levou o presidente do Fed, Kevin Warsh, a elevar a taxa básica de juros contra a vontade de Trump, somada ao volume elevado de endividamento do governo americano, mantém pressão de alta sobre os juros, segundo a reportagem.

Em toda a economia corporativa americana, as empresas lidam com esses choques de formas diferentes, e a divisão passa por uma pergunta central: quem tem poder de fixar preços. Alguns setores aprenderam a repassar rapidamente custos mais altos aos consumidores, enquanto outros enfrentam um dilema — se elevarem demais os preços, correm o risco de destruir a demanda.

As companhias aéreas, por exemplo, comemoraram tarifas mais altas na semana passada, já que os clientes continuam reservando viagens, especialmente para o exterior, o que permite repassar os custos crescentes de combustível. As empresas do setor reduziram planos de expansão, cortando voos menos rentáveis mesmo após o colapso da Spirit Airlines neste ano.

Kevin Warsh, presidente do Federal Reserve, discursou em conferência de imprensa na sede do banco central em Washington em 16 de setembro de 2026, tratando da decisão de elevar os juros pela primeira vez desde 2023.

Menos voos podem significar passagens mais caras: as tarifas aéreas subiram mais de 23% em agosto em relação ao ano anterior, segundo a última leitura de inflação citada pela CNBC. Ainda assim, mesmo uma demanda forte tem limites.

'O consumidor tem sido incrivelmente, incrivelmente resiliente', disse o diretor financeiro da United Airlines, Mike Leskinen, na quarta-feira, durante uma conferência do Morgan Stanley em Laguna Beach, na Califórnia, segundo a reportagem.

'Mas há algumas rotas marginais que não fazem sentido em um ambiente de combustível mais caro. Então nós as cortamos', afirmou Leskinen. 'Vocês devem esperar que continuemos a agir assim.'

Apesar dos custos mais altos de combustível e financiamento, boa parte da economia corporativa americana permanece resiliente, segundo a CNBC. As margens de lucro das grandes empresas estão próximas de máximas históricas, impulsionadas por ganhos de produtividade, custos de mão de obra sob controle e o avanço dos investimentos em inteligência artificial, que sustenta o crescimento.

O que isso significa para o investidor

O quadro descrito pela CNBC reforça um ponto que já vem pautando o mercado americano: a resiliência agregada dos índices esconde uma divisão profunda entre empresas com poder de repasse de preços e aquelas espremidas entre custos crescentes e demanda sensível a preço. O S&P 500 operava em 7.772,15 pontos, alta de 1,59% no dia, conforme dados do scanner da TradingView referentes a 21 de setembro de 2026, às 16h59 no horário de Brasília — número que reflete o desempenho agregado das grandes companhias mencionadas na reportagem, historicamente mais protegidas por caixa robusto e dívida de longo prazo.

Para o investidor brasileiro exposto a ações ou fundos com posição em bolsa americana, o episódio é um convite a olhar para dentro dos índices em vez de apenas acompanhar o número consolidado. Setores intensivos em capital — manufatura, autopeças, logística e imóveis comerciais — aparecem como os mais vulneráveis à combinação de juros altos e combustível caro, segundo as fontes ouvidas pela CNBC, enquanto tecnologia, finanças e companhias com forte poder de precificação, como as aéreas citadas na reportagem, tendem a absorver o choque com menos dano imediato às margens.

Vale acompanhar de perto o nível do rendimento do Treasury de 10 anos citado na reportagem: a referência de 6%, hoje distante do patamar de cerca de 5%, foi apontada pelo JPMorgan como o ponto em que a dor se espalharia até para as grandes empresas. Também merece atenção o desenrolar de casos como o da Grupo Antolin, que já resultou em pedido de recuperação judicial nos EUA, e como a cadeia automotiva — citada com números concretos de queda de EBIT — evolui nos próximos balanços trimestrais.

Por fim, o episódio ilustra o risco de concentração setorial em carteiras expostas aos EUA: a manutenção de margens agregadas em máximas históricas, mencionada pela CNBC, convive com sinais localizados de estresse que podem se ampliar caso o Fed avance com nova alta de juros já sinalizada. Investidores que buscam exposição ao mercado americano por meio de ETFs ou BDRs devem monitorar a granularidade setorial, não apenas o desempenho do índice como um todo.

Metodologia e fontes

As informações desta matéria têm como base reportagem publicada pela CNBC, que ouviu executivos de companhias como Original Saw Co., Lucerne International, Eastman Chemical, Home Depot e United Airlines, além de representantes do JPMorgan Chase, da EY-Parthenon e da associação MEMA. Dados sobre desempenho de fornecedores automotivos foram atribuídos pela CNBC à consultoria Berylls by AlixPartners.

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