O preço do petróleo no mercado internacional voltou a superar a marca de US$ 100 por barril nesta quarta-feira, impulsionado pela intensificação dos combates no Oriente Médio e pelo receio de interrupções duradouras no fornecimento global da commodity. O Brent, referência para o mercado mundial, subiu 3,36% e encerrou o pregão cotado a US$ 101,21 por barril — primeira vez acima de US$ 100 desde julho e maior fechamento desde 22 de maio.
O petróleo americano (WTI) avançou 3,25% e terminou o dia a US$ 96,05 por barril, também no patamar mais alto de fechamento desde 22 de maio. A alta ocorreu após uma sequência de eventos bélicos na terça-feira: os Estados Unidos atacaram petroleiros iranianos e, mais cedo no mesmo dia, rebeldes houthis apoiados pelo Irã lançaram ofensiva contra a Arábia Saudita.
As cotações do petróleo têm oscilado intensamente ao longo do ano, reagindo a episódios de confronto armado e ao monitoramento do tráfego de navios-tanque pelo Estreito de Ormuz. No acumulado de 2026, tanto o Brent quanto o WTI acumulam alta superior a 65%, elevando o custo da energia em escala global e pressionando consumidores e bancos centrais.
Ataques dos EUA e ofensiva houthi agravam tensão
O Comando Central dos Estados Unidos informou na terça-feira que forças americanas atingiram quatro petroleiros iranianos no Golfo de Omã e um quinto próximo à Ilha de Kharg, em resposta a tentativas de ataques com mísseis balísticos contra um navio de guerra da Marinha dos EUA. A Ilha de Kharg, localizada no Golfo Pérsico, é ponto crítico para as exportações de petróleo do Irã.
Antes do anúncio americano, os preços do petróleo já haviam saltado após os houthis, grupo rebelde sediado no Iêmen e alinhado ao Irã, atacarem infraestrutura petrolífera e outros alvos na Arábia Saudita. Forças lideradas pelos sauditas prometeram retaliar, afirmando que dezenas de civis ficaram feridos nos ataques.
A ofensiva houthi amplia o temor de que o conflito envolvendo o Irã esteja se espalhando pela região, ameaçando mais instalações produtoras de petróleo, retardando o fluxo global da commodity e apertando a oferta disponível no mercado.
Estreito de Ormuz e incerteza sobre fornecimento
A superação da marca de US$ 100 pelo Brent simboliza a incerteza persistente em torno do fluxo de petróleo e das ameaças a refinarias no Oriente Médio. Também sinaliza que os preços elevados de energia podem se manter por mais tempo.
As tensões sobre o Estreito de Ormuz alimentam a preocupação de que petroleiros continuem enfrentando obstáculos para transitar pela via estratégica. O preço do petróleo tem se movido conforme operadores acompanham o tráfego pelo estreito e tentam avaliar se o mercado enfrentará problemas maiores de oferta. Os Estados Unidos buscam auxiliar a passagem de navios-tanque, enquanto Teerã afirma manter controle sobre a região.
Dennis Kissler, vice-presidente sênior de negociação no BOK Financial, observou que os operadores permanecerão atentos a como os volumes de transporte estão saindo do Oriente Médio, já que os volumes podem mudar muito rapidamente.
Nos últimos meses, os combates se espalharam para o Mar Vermelho e o Estreito de Bab al-Mandab, complicando as perspectivas para o mercado de petróleo. Os houthis têm como alvo o Estreito de Bab al-Mandab, via marítima na costa do Iêmen que conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden. Os ataques do grupo à infraestrutura petrolífera saudita também contribuem para o nervosismo de que a região possa enfrentar interrupções ainda maiores na produção.
Gasolina e diesel disparam nos EUA
A escalada do petróleo neste ano veio acompanhada de alta nos preços de gasolina e diesel, aumentando a pressão sobre consumidores. O preço médio da gasolina nos Estados Unidos subiu 7,3 centavos de dólar por galão na quarta-feira, o maior aumento diário desde 1º de maio, segundo dados da AAA.
A gasolina americana agora está em média de US$ 4,22 por galão — nível mais alto desde 4 de junho. Em comparação, o preço estava em US$ 3,19 por galão no mesmo período do ano passado e em US$ 2,98 antes do início da guerra com o Irã.
Normalmente, os preços da gasolina recuam no outono, já que o fim de semana do Dia do Trabalho marca o encerramento da temporada de alta demanda por viagens de verão. Porém, neste ano os preços no feriado bateram recorde.
O diesel também disparou. O preço médio nacional do diesel nos EUA atingiu recorde de US$ 5,94 por galão na quarta-feira, conforme dados da AAA. A alta do diesel significa custos de combustível mais elevados para empresas de transporte rodoviário e marítimo, o que pode se traduzir em custos maiores ao longo de toda a cadeia de suprimentos.
O fechamento do Estreito de Ormuz também prejudicou o fornecimento global de gás natural liquefeito, somando-se aos preços mais altos de energia ao redor do mundo. Ole Hansen, chefe de estratégia de commodities no Saxo Bank, comentou que a combinação de diesel, combustível de aviação, bunker e gás natural caros é particularmente desconfortável para consumidores em todo o mundo, que veem sua renda disponível encolher.
Histórico de volatilidade em 2026
O Brent fechou pela primeira vez acima de US$ 100 por barril neste ano em 12 de março, então seu nível mais alto desde 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia. Após subir ainda mais em abril e maio, o Brent despencou e caiu até US$ 72 por barril em junho, depois que Estados Unidos e Irã anunciaram ter chegado a um acordo para reabrir o Estreito de Ormuz.
Mas o Brent voltou a subir conforme o conflito persistiu, ultrapassando US$ 100 por barril novamente em julho, oscilando em seguida e atingindo essa marca mais uma vez nesta quarta-feira.
Enquanto as interrupções no fornecimento de petróleo estão em foco, analistas também observam a demanda. A China, maior importadora de petróleo do mundo, tem ajudado a conter os preços ao reduzir suas importações nos últimos meses, segundo analistas. Se as importações chinesas voltarem a crescer, os preços do petróleo podem subir ainda mais.
Projeções oficiais dos EUA são revisadas para cima
Autoridades americanas elevaram suas previsões de preços de energia na quarta-feira. O Brent deve agora ter média de US$ 91 por barril neste ano e US$ 74 no próximo, de acordo com a Administração de Informação de Energia dos EUA (EIA), braço de projeções do Departamento de Energia. Isso representa alta em relação à previsão de um mês atrás, de US$ 87 e US$ 69, respectivamente.
A EIA também elevou sua projeção para o preço da gasolina, estimando média de US$ 3,84 por galão neste ano e US$ 3,35 no próximo. A diferença central está no fato de que as autoridades postergaram sua previsão de quando a oferta de petróleo do Oriente Médio se recuperará da guerra.
Embora a EIA tenha observado fluxos de energia gradualmente crescentes saindo do Estreito de Ormuz e o uso de rotas alternativas, a nova perspectiva alerta que algumas restrições persistirão até o fim do ano. Isso significa que a produção de petróleo bruto do Oriente Médio ficará abaixo das médias pré-conflito até o segundo trimestre do próximo ano, segundo a EIA.
Em contraste, há um mês a EIA afirmava que sua previsão assumia que os limites ao fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz persistiriam até agosto.
Bolsas recuam e juros sobem com tensão geopolítica
A escalada das tensões no Oriente Médio abalou o mercado acionário: o S&P 500 caiu 0,5% na quarta-feira, após recuo de 0,6% na terça-feira. O índice acumula queda de pouco mais de 2% desde que atingiu recorde em meados de agosto. As ações continuam sendo negociadas próximas a máximas históricas, mas o mercado deu um passo para trás no último mês, à medida que a alta do petróleo recolocou em foco o nervosismo sobre inflação e juros mais altos.
Bancos centrais ao redor do mundo devem manter as taxas de juros estáveis ou até elevá-las em resposta à alta dos preços de energia provocada pelo fechamento do Estreito de Ormuz. Os rendimentos de títulos públicos em escala global dispararam nas últimas semanas, conforme operadores se preparam para possíveis altas de juros e avaliam o impacto inflacionário de preços mais altos do petróleo. O rendimento dos títulos do Tesouro americano de dez anos foi negociado a 4,84% na quarta-feira, seu nível mais alto desde 2023.
O mercado acionário entra em um período crítico, no qual a combinação de combates no Oriente Médio e uma série de decisões de bancos centrais testará a disposição dos investidores.
O que isso significa para o investidor
A volta do petróleo acima de US$ 100 por barril reacende o debate sobre inflação persistente e a possibilidade de juros globais permanecerem elevados por mais tempo do que o mercado vinha precificando. Para quem investe no Brasil, o cenário externo mais tenso tende a pressionar o câmbio e encarecer combustíveis e insumos importados, ampliando o risco de repique inflacionário doméstico e reduzindo o espaço para cortes adicionais da Sela na taxa básica de juros.
Setores ligados a transporte, logística e aviação devem sentir o impacto direto da alta do diesel e do querosene de aviação, com margens comprimidas e eventual repasse de custos ao consumidor final. Por outro lado, empresas brasileiras exportadoras de petróleo e produtoras de etanol podem se beneficiar da valorização da commodity e da competitividade relativa dos biocombustíveis.
No curto prazo, a volatilidade deve continuar elevada. O monitoramento do tráfego pelo Estreito de Ormuz, a evolução dos combates no Oriente Médio e eventuais acordos diplomáticos serão os principais vetores de preço. Conforme dados da TradingView em 09/09/2026 às 20h35 BRT, o S&P 500 operava em 7.636,36 pontos, com queda de 0,48% no dia — reflexo direto da aversão ao risco provocada pela escalada geopolítica.
Investidores devem acompanhar de perto as próximas reuniões de bancos centrais, especialmente do Federal Reserve e do Banco Central Europeu, para avaliar se a alta da energia será tratada como choque temporário ou como ameaça estrutural à estabilidade de preços. A postura das autoridades monetárias definirá o tom para renda fixa e ações nas próximas semanas. Em um ambiente de juros potencialmente mais altos por mais tempo, ativos de risco tendem a perder atratividade relativa, favorecendo posições defensivas e exposição a setores menos sensíveis ao ciclo econômico.
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