O preço do petróleo voltou a ultrapassar US$ 100 por barril nesta quarta-feira, atingindo o nível mais alto desde julho, em meio à intensificação dos combates no Oriente Médio e ao receio de interrupções duradouras no fornecimento global de energia. O Brent, referência internacional, subiu 2,8% e foi negociado a US$ 100 pela primeira vez em dois meses, enquanto o WTI americano avançou 2,9% para US$ 95,70, maior cotação desde junho.
A escalada ocorreu após uma sequência de eventos militares na terça-feira: os Estados Unidos atacaram petroleiros iranianos e, mais cedo no mesmo dia, rebeldes houthis apoiados pelo Irã lançaram ofensiva contra a Arábia Saudita. O movimento reacende preocupações sobre a capacidade de escoamento de petróleo pelo Estreito de Ormuz e amplia o risco de que a produção regional sofra danos mais extensos.
Ano de volatilidade extrema
Os preços do petróleo atravessam um ano de oscilações acentuadas, reagindo a cada novo episódio de confronto e ao monitoramento do tráfego de petroleiros pelo Estreito de Ormuz. No acumulado de 2024, tanto o Brent quanto o WTI acumulam alta superior a 60%, elevando o custo da energia em escala global e pressionando consumidores e bancos centrais.
O Brent havia fechado acima de US$ 100 pela primeira vez no ano em 12 de março, então o patamar mais alto desde 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia. Depois de subir em abril e maio, o barril chegou a recuar para US$ 72 em junho, após Estados Unidos e Irã anunciarem acordo para reabrir o Estreito de Ormuz. A trégua, porém, não se sustentou: o conflito persistiu, o Brent voltou a superar US$ 100 em julho, oscilou e retomou essa marca no fim da terça-feira.
Operadores acompanham de perto o volume de tráfego pelo estreito e tentam avaliar se o mercado enfrentará restrições ainda maiores de oferta. Washington busca garantir a passagem de petroleiros enquanto Teerã afirma manter controle sobre a via.
Ataques ampliam tensão regional
Na terça-feira, o Comando Central dos Estados Unidos informou ter atingido quatro petroleiros iranianos no Golfo de Omã e um próximo à Ilha de Kharg, em resposta a tentativas de ataque com mísseis balísticos contra navio de guerra americano. A Ilha de Kharg, localizada no Golfo Pérsico, é ponto crítico para as exportações de petróleo do Irã.
Os preços do petróleo saltaram inicialmente após os rebeldes houthis, baseados no Iêmen e apoiados pelo Irã, atacarem a Arábia Saudita, mirando infraestrutura petrolífera e outras instalações. Forças lideradas pelos sauditas prometeram responder, relatando dezenas de civis feridos. As cotações chegaram a arrefecer no meio do dia, mas retomaram a trajetória de alta à tarde.
Os ataques dos houthis à Arábia Saudita reforçam o temor de que a guerra com o Irã esteja se espalhando pela região, afetando mais produção de petróleo, continuando a desacelerar o fluxo global de óleo e pressionando a oferta. O retorno do Brent a US$ 100 simboliza a incerteza persistente sobre o escoamento de petróleo e as ameaças a refinarias no Oriente Médio.
Os combates recentes se estenderam ao Mar Vermelho e ao Estreito de Bab al-Mandab, complicando ainda mais as perspectivas para o mercado de petróleo. Os houthis têm como alvo o Bab al-Mandab, via marítima na costa do Iêmen que conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden. Os ataques à infraestrutura petrolífera saudita também contribuem para o nervosismo de que a região possa enfrentar interrupções ainda maiores na produção.
Gasolina e diesel disparam nos EUA
A alta do petróleo vem acompanhada de forte pressão sobre derivados, atingindo diretamente o bolso do consumidor. O preço médio da gasolina nos Estados Unidos subiu 7,3 centavos de dólar por galão na quarta-feira, o maior aumento diário desde 1º de maio, segundo dados da AAA. A média nacional chegou a US$ 4,22 por galão, nível mais alto desde 4 de junho.
Em comparação, a gasolina estava a US$ 3,19 no mesmo período do ano passado e a US$ 2,98 antes do início da guerra com o Irã. Normalmente, os preços da gasolina recuam após o feriado do Dia do Trabalho, que marca o fim da temporada de alta demanda por viagens de verão. Neste ano, porém, os preços no feriado foram os mais altos já registrados.

O diesel também disparou. A média nacional nos Estados Unidos atingiu recorde de US$ 5,94 por galão na quarta-feira, conforme a AAA. A escalada do diesel significa custos de combustível mais altos para empresas de transporte rodoviário e marítimo, o que pode se traduzir em preços mais elevados ao longo de toda a cadeia de suprimentos.
O fechamento do Estreito de Ormuz também prejudicou o fornecimento global de gás natural liquefeito, somando-se aos preços mais altos de energia em todo o mundo. Ole Hansen, chefe de estratégia de commodities do Saxo Bank, observou em nota que a combinação de diesel, combustível de aviação, bunker e gás natural caros é particularmente desconfortável para consumidores ao redor do mundo, que veem sua renda disponível encolher.
Demanda chinesa no radar
Enquanto as interrupções de oferta estão no centro das atenções, analistas também monitoram a demanda. A China, maior importadora de petróleo do mundo, tem ajudado a conter os preços ao reduzir suas importações nos últimos meses, segundo analistas. Caso as importações chinesas voltem a subir, os preços do petróleo podem avançar ainda mais.
Dennis Kissler, vice-presidente sênior de negociação do BOK Financial, afirmou em nota que os operadores permanecerão focados em como os volumes de transporte estão saindo do Oriente Médio, já que agora parece que os volumes podem mudar muito rapidamente.
Bolsas recuam e juros sobem
A escalada de tensões no Oriente Médio abalou o mercado acionário: o S&P 500 caiu 0,3% na quarta-feira, após recuo de 0,6% na terça. O índice acumula queda de cerca de 2% desde que atingiu recorde em meados de agosto. As ações continuam sendo negociadas próximas a máximas históricas, mas o mercado deu um passo para trás no último mês, à medida que a alta do petróleo recolocou em foco o nervosismo sobre inflação e juros mais altos.
Bancos centrais em todo o mundo devem manter as taxas estáveis ou até elevá-las em resposta à alta dos preços de energia provocada pelo fechamento do Estreito de Ormuz. Os rendimentos de títulos públicos subiram nas últimas semanas, enquanto operadores se preparam para possíveis aumentos de juros e avaliam o impacto inflacionário de preços mais altos do petróleo. O rendimento dos títulos de dez anos dos Estados Unidos foi negociado a 4,8% na quarta-feira, próximo ao nível mais alto desde 2023.
O mercado acionário entra em um período crítico, no qual a combinação de combates no Oriente Médio e uma série de decisões de bancos centrais testará a disposição dos investidores.
O que isso significa para o investidor
O retorno do petróleo a US$ 100 reacende o debate sobre estagflação — crescimento fraco com inflação persistente — e coloca os bancos centrais em posição delicada. Para quem investe no Brasil, a alta da energia global pressiona o IPCA por meio de combustíveis e tarifas de energia, podendo adiar cortes de juros pelo Banco Central ou até forçar nova alta da Selic caso a inflação desancore expectativas. Setores intensivos em diesel, como transporte e logística, tendem a sofrer compressão de margens.
No contexto externo, a queda de 0,36% do S&P 500 para 7.646,10 pontos em 9 de setembro — dado do scanner TradingView às 16h02 (horário de Brasília) — sinaliza que o apetite por risco está em xeque. Investidores brasileiros com exposição a bolsas americanas ou fundos globais devem monitorar a evolução dos rendimentos dos Treasuries: o patamar de 4,8% nos títulos de dez anos torna renda fixa americana mais atrativa e pode drenar fluxo de mercados emergentes, pressionando o real e ativos locais de risco.
A volatilidade do petróleo também abre oportunidades táticas. Fundos de commodities e ações de petrolíferas tendem a se beneficiar no curto prazo, mas a sustentabilidade da alta depende da duração do conflito e da resposta da demanda chinesa. Se Pequim retomar importações em ritmo acelerado, o Brent pode buscar novos patamares; se a China mantiver compras contidas, a oferta global pode encontrar algum alívio, mesmo com restrições no Oriente Médio.
Por fim, o cenário reforça a importância de diversificação e hedge cambial. Carteiras com exposição a ativos reais — como fundos imobiliários e inflação implícita — podem oferecer proteção parcial contra o choque de energia. O investidor deve acompanhar de perto os próximos comunicados do Federal Reserve e do Banco Central Europeu, previstos para as próximas semanas, que darão pistas sobre a tolerância das autoridades monetárias a juros restritivos por mais tempo. A combinação de petróleo caro, juros altos e crescimento incerto exige cautela e posicionamento defensivo até que haja sinais claros de desescalada no conflito ou de alívio na oferta global de energia.
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