O preço do petróleo atingiu US$ 105 por barril nesta quinta-feira, em meio a sinais de que o conflito no Oriente Médio não será resolvido rapidamente, alimentando temores de aceleração da inflação global. O Brent voltou a superar a marca de US$ 100 na quarta-feira e seguiu em alta, pressionado pelo agravamento das tensões entre Estados Unidos e Irã no Golfo Pérsico nos últimos dias.
A guerra levou ao fechamento efetivo do Estreito de Ormuz, impedindo que suprimentos de petróleo e gás do Golfo cheguem aos mercados globais. A interrupção da passagem marítima estratégica tem impulsionado tanto o preço do petróleo bruto quanto do gás natural nos mercados internacionais.
Os custos de endividamento de longo prazo dos Estados Unidos e do Reino Unido também dispararam para os níveis mais altos em décadas, refletindo a preocupação dos investidores com o impacto econômico da crise energética.
Trump prevê conflito até eleições de meio de mandato
Em discurso durante convenção do Partido Republicano no Texas na quarta-feira, o presidente Trump afirmou não acreditar que os combates terminarão antes das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, marcadas para novembro. A declaração reforçou a percepção de mercado de que a crise energética pode se prolongar.
Analistas apontam que a combinação de custos crescentes de energia e juros mais altos está adicionando pressão sobre os mercados financeiros. Chris Beauchamp, analista-chefe de mercado da plataforma de negociação IG, disse que os investidores estão cada vez mais preocupados com o impacto econômico dos preços elevados do petróleo.
"Parece que investidores no mundo todo estão agora despertando para a crise nos mercados de petróleo", afirmou Beauchamp, segundo a BBC. Ele alertou que a alta nos preços de energia pode pesar fortemente sobre a economia global caso continue.
O movimento pode elevar temores de novas interrupções no transporte marítimo, ampliando a pressão sobre as cadeias de suprimento globais.
Gás natural dispara na Europa
O preço do gás natural também disparou nos mercados atacadistas. No Reino Unido, o gás ultrapassou 200 pence por therm pela primeira vez desde o fim de 2022, refletindo a escassez de oferta e a necessidade de recompor estoques antes do inverno.
Os níveis de armazenamento na Europa estão muito abaixo do normal para a época do ano, e a necessidade de preencher reservas antes da temporada de aquecimento tem ajudado a empurrar os preços para cima.

Dados da BBC mostram que o Brent flutuou intensamente desde o ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã em 28 de fevereiro. O preço subiu rapidamente de cerca de US$ 66 em fevereiro para acima de US$ 80 no início de março, atingindo pico logo abaixo de US$ 120 no fim daquele mês. Depois caiu para mínima de aproximadamente US$ 72 em julho e voltou a subir ao longo de agosto e início de setembro. A cotação atual em 10 de setembro de 2026 é de US$ 104,76.
Consumidores britânicos estão protegidos de picos de curto prazo nos mercados atacadistas de gás pelo teto de preços da Ofgem, o regulador de energia do Reino Unido. Mas se os preços permanecerem elevados por período prolongado, as famílias ainda enfrentarão contas mais altas.
O teto já está programado para aumentar 3,6% no início de outubro, com a próxima mudança prevista para janeiro.
Juros longos atingem máximas históricas
O aumento nos custos de energia elevou por sua vez os temores de pico inflacionário, o que também pressionou os rendimentos dos títulos públicos ao redor do mundo. No Reino Unido, os yields dos títulos de 10 anos atingiram hoje o nível mais alto desde 2007, enquanto os de 20 e 30 anos alcançaram patamares não vistos desde 1998.
Isso implica custo mais alto de endividamento para o governo britânico, em momento em que as finanças públicas estão sob pressão. Mas também pode ter impacto direto sobre as famílias, já que afeta as taxas pagas pelos consumidores em alguns produtos financeiros, como hipotecas de taxa fixa.
A alta dos juros longos reflete a expectativa de que bancos centrais possam precisar manter política monetária mais restritiva por mais tempo para conter pressões inflacionárias decorrentes da crise energética.
O que isso significa para o investidor
A escalada simultânea de petróleo, gás e juros longos configura um cenário de estagflação — crescimento fraco com inflação alta — que historicamente penaliza tanto ações quanto títulos de renda fixa. Investidores brasileiros expostos a ativos globais devem monitorar a duração do conflito: se Trump estiver correto e os combates se estenderem até novembro, a pressão inflacionária pode forçar o Federal Reserve e o Banco da Inglaterra a reverter cortes de juros ou até retomar aperto, prolongando o ambiente de volatilidade.
Para quem investe em commodities, a interrupção do Estreito de Ormuz sustenta prêmio de risco elevado no petróleo enquanto a passagem permanecer fechada. Fundos de energia e ações de petrolíferas tendem a se beneficiar no curto prazo, mas o impacto negativo sobre o crescimento global pode limitar ganhos se a recessão se materializar.
No Brasil, a alta do petróleo favorece a Petrobras e a arrecadação de royalties, mas encarece combustíveis e pressiona o IPCA, reduzindo o espaço para corte de juros pelo Banco Central. A combinação de Selic elevada por mais tempo e desaceleração global é negativa para setores cíclicos e para o real, que tende a se desvalorizar em momentos de aversão ao risco.
Acompanhe a evolução dos estoques de gás na Europa nas próximas semanas e declarações de autoridades americanas sobre negociações de cessar-fogo. Qualquer sinal de reabertura do Estreito de Ormuz pode provocar correção acentuada nos preços de energia e alívio nos juros longos, abrindo janela de reposicionamento em ativos de risco.
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