A probabilidade de o Federal Reserve subir a taxa de juros na reunião da próxima semana saltou para 70% na manhã desta quinta-feira, segundo o indicador FedWatch do CME Group. A mudança nas apostas dos traders veio após a divulgação de dados de inflação no atacado acima do esperado em agosto e a escalada do petróleo americano acima da barreira de US$ 100 o barril.
As chances de um segundo aumento em dezembro também subiram, aproximando-se de 60%. A dinâmica inflacionária está se mostrando mais persistente do que o esperado, aumentando a pressão sobre o banco central para agir.
Inflação no atacado e petróleo pressionam
O índice de preços ao produtor (PPI) subiu 0,4% em agosto, em linha com as projeções. O dado de julho, porém, foi revisado para cima, de estabilidade para alta de 0,1%. Juntos, os números elevaram a taxa anual do PPI para 5,4%, ligeiramente acima das estimativas.
No mesmo dia, a intensificação das hostilidades no Oriente Médio assustou os mercados de commodities. O petróleo bruto americano avançou 4%, ultrapassando US$ 100 o barril pela primeira vez em meses.
O Banco Central Europeu anunciou alta de um quarto de ponto percentual e elevou sua projeção de inflação, citando preocupações de que a guerra com o Irã tenha impactos econômicos mais profundos e prolongados sobre os preços ao consumidor.
"À medida que o conflito com o Irã se arrasta por mais tempo do que muitos esperavam, as pressões inflacionárias estão se tornando cada vez mais enraizadas, deixando os investidores em busca de um catalisador forte o suficiente para mudar a narrativa da inflação", escreveu Jeffrey Roach, economista-chefe da LPL Financial. "Nesse ritmo, uma alta de juros na próxima semana parece provável."
David Russell, chefe global de estratégia de mercado da TradeStation, destacou que mais pressão está a caminho. "O petróleo bruto e os produtos refinados continuaram subindo desde que os dados de agosto foram coletados", disse. "O pico contínuo do petróleo, combinado com pedidos de seguro-desemprego baixos, torna difícil para o Fed não subir os juros na próxima semana."
Último dado antes da decisão
Os formuladores de política monetária do banco central terão sua última visão dos dados de inflação nesta sexta-feira, quando o Bureau of Labor Statistics divulgar o índice de preços ao consumidor (CPI).
O consenso Dow Jones aponta para uma leitura anual de 3,4% no índice cheio, enquanto o núcleo, que exclui alimentos e energia, deve ficar em 2,4%.
O Fed, no entanto, concentra sua atenção no índice de preços de despesas de consumo pessoal (PCE) do Departamento de Comércio, que mostrou núcleo em 3,3% em julho e índice cheio em 3,7%. O presidente do Fed, Kevin Warsh, reforçou recentemente que o índice de preços PCE é a régua oficial do banco central para inflação.
Stephen Juneau, economista sênior para os EUA do Bank of America, estimou que, levando em conta a leitura de agosto do PPI, o núcleo do PCE está rastreando uma taxa mensal de 0,26%, que seria arredondada para 0,3%.
"Isso pode mudar significativamente amanhã após o CPI, mas se estivermos corretos, deve dar luz verde para uma alta na reunião do Fed da próxima semana", disse Juneau em nota.
O BofA tem uma das projeções mais hawkish (favoráveis a juros altos) para o Fed em Wall Street, esperando três aumentos nas próximas reuniões. Embora isso esteja fora do consenso com a precificação atual dos futuros, os desenvolvimentos recentes apontam para um Fed mais agressivo no combate à inflação.
Pressão na cadeia de suprimentos
Peter Boockvar, diretor de investimentos da OnePoint BFG Wealth Partners, argumentou que mesmo uma leitura suave do CPI pode apenas indicar que as empresas estão tendo mais dificuldade em repassar preços mais altos aos consumidores.
"Aqueles que apenas olham para os preços ao consumidor para suas informações sobre inflação e previsões de taxa de juros não estão olhando para o quadro completo, e o PPI de hoje é evidência ainda de um problema de inflação em toda a cadeia de suprimentos", disse Boockvar.
O que isso significa para o investidor
A mudança abrupta nas expectativas de política monetária nos Estados Unidos tem implicações diretas para quem investe no Brasil. Juros mais altos no Fed tendem a fortalecer o dólar globalmente e podem pressionar o Banco Central brasileiro a manter sua própria taxa elevada por mais tempo, mesmo diante de sinais de desaceleração doméstica.
O petróleo acima de US$ 100 é um fator de risco duplo: eleva custos de importação para economias emergentes e reforça pressões inflacionárias que já vinham preocupando bancos centrais ao redor do mundo. Para carteiras com exposição a ações brasileiras, especialmente em setores sensíveis a combustíveis e transporte, o cenário pede atenção redobrada.
O dado de CPI desta sexta-feira será decisivo. Se vier acima das projeções, a alta na semana que vem deixa de ser provável para se tornar praticamente certa. Investidores devem acompanhar não apenas o número cheio, mas principalmente o núcleo do índice, que exclui itens voláteis e reflete melhor a tendência de fundo da inflação.
A postura mais agressiva do Fed também pode acelerar a rotação de portfólios globais, com saída de ativos de risco emergente em direção a títulos americanos de renda fixa. Quem opera renda variável no Brasil deve monitorar o fluxo estrangeiro e a curva de juros futuros local, que tende a reagir rapidamente a movimentos do Fed.
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