O preço médio do diesel nos Estados Unidos atingiu US$ 6,06 por galão na sexta-feira, segundo dados da AAA, marcando o primeiro registro acima de US$ 6 na história do país. O avanço representa alta de cerca de 63% em relação ao mesmo período do ano anterior, pressionando custos de transporte, agricultura e toda a cadeia de distribuição da maior economia do mundo.
Na Califórnia, principal estado agrícola americano, o diesel já está cotado a US$ 7,98 por galão. A escalada reflete interrupções no fornecimento global de combustíveis provocadas pelos conflitos na Ucrânia e no Orã, que tiraram de operação refinarias com capacidade combinada de cerca de 5 milhões de barris por dia, de acordo com Gary Simmons, diretor de operações da Valero, em teleconferência de resultados realizada em 30 de julho.
O petróleo bruto negociado nos EUA ultrapassou US$ 100 por barril na quinta-feira, pela primeira vez desde maio, acumulando ganho de aproximadamente 20% em setembro. A disparada ocorre em meio à intensificação dos confrontos entre Estados Unidos e Irã neste mês, que agravaram o quadro de oferta já apertado desde a invasão russa da Ucrânia.
Impacto em toda a economia
Embora consumidores acompanhem mais de perto os preços da gasolina, o diesel é o verdadeiro motor da economia, afirmou Bob McNally, presidente da Rapidan Energy, em entrevista à CNBC na terça-feira. O combustível move caminhões, trens e navios que levam mercadorias ao mercado, alimenta maquinário agrícola usado no plantio e na colheita e, em alguns casos, aquece residências e gera eletricidade.
"É o combustível mais insidioso, mais caro e de maior impacto", disse McNally. "À medida que subimos mais, isso se torna uma preocupação real." Patrick De Haan, chefe de análise de petróleo da GasBuddy, classificou o diesel nesses patamares como um "assassino silencioso" para a economia, em entrevista também à CNBC na terça-feira.
Os americanos estão gastando cerca de US$ 700 milhões a mais por dia em gasolina e diesel do que gastavam há um ano, segundo De Haan. A gasolina atingiu recorde para o feriado do Dia do Trabalho no início desta semana, a US$ 4,15 por galão — nunca os preços estiveram tão altos tão tarde no ano, observou o analista. "Há um choque de preço para os consumidores", afirmou.
Refinarias fora de operação
A crise de oferta tem origem direta nos dois conflitos. A Ucrânia bombardeou refinarias russas, forçando Moscou a proibir exportações de diesel. O Irã e seus aliados houthis no Iêmen atacaram refinarias de países do Golfo aliados dos Estados Unidos. Exportações de combustível pelo Estreito de Hormuz estão limitadas devido aos ataques iranianos a navios-tanque.
O mundo perdeu quase 8% de sua oferta de diesel, com pouca capacidade de refino sobressalente disponível para compensar o déficit, escreveu Andy Lipow, presidente da Lipow Oil Associates, em nota divulgada na quarta-feira. Refinarias americanas operam a 98% da capacidade de utilização — simplesmente não há capacidade ociosa, disse Helima Croft, chefe de estratégia global de commodities do RBC Capital Markets, em entrevista à CNBC em 4 de setembro.
O que isso significa para o investidor
A escalada do diesel representa um desafio duplo: pressiona a inflação de alimentos e bens de consumo nos EUA enquanto reduz margens de empresas dependentes de logística e transporte. Companhias de transporte rodoviário, ferroviário e marítimo enfrentam compressão de rentabilidade caso não consigam repassar integralmente os custos — o que pode afetar resultados trimestrais a partir de agora.
Para quem investe em commodities, o cenário reforça a tese de aperto estrutural no mercado de energia. Com refinarias globais operando no limite e sem perspectiva de resolução rápida dos conflitos na Ucrânia e no Orã, a oferta deve permanecer restrita. Petróleo acima de US$ 100 por barril tende a sustentar preços elevados de diesel e derivados, beneficiando produtores integrados e penalizando setores intensivos em transporte.
O quadro também eleva o risco inflacionário nos EUA, o que pode influenciar a trajetória de juros do Federal Reserve. Diesel caro encarece toda a cadeia — do campo ao supermercado —, dificultando a convergência da inflação para a meta. Investidores devem acompanhar dados semanais de estoques de destilados publicados pela Energy Information Administration e declarações de autoridades sobre eventuais liberações de reservas estratégicas.
Setorialmente, vale monitorar empresas de refino americanas, que operam com margens elevadas mas capacidade esgotada, e companhias de logística e varejo, mais vulneráveis ao repasse incompleto de custos. A combinação de diesel caro, gasolina em recorde sazonal e petróleo acima de US$ 100 configura um dos ambientes mais desafiadores para a economia real desde 2008 — com implicações diretas para lucros corporativos e poder de compra do consumidor.
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