O Brasil voltou ao topo do ranking de maior juro real do mundo, com taxa de 8,45%, segundo levantamento da MoneYou e Lev Intelligence coordenado pelo economista-chefe Jason Vieira. O cálculo considera a taxa básica de juros e desconta a inflação projetada para os próximos 12 meses.
A posição brasileira se manteria inalterada mesmo com diferentes cenários para a Selic, já que a inflação alterou a dinâmica dos juros reais e ampliou a distância para o segundo colocado, explica Vieira. O ranking coloca Rússia em segundo lugar, seguida por Colômbia em terceiro e Turquia em quarto.
"As perspectivas inflacionárias para os próximos 12 meses foram majoritariamente revisadas para cima nos países do ranking, criando uma série significativa de juros reais mais baixos e negativos, em meio ao cenário adverso e ainda em aberto com o conflito no Oriente Médio", afirma Vieira em relatório.
A metodologia do levantamento subtrai da taxa nominal de juros a expectativa de inflação para o período de um ano à frente, resultando no juro real — a remuneração efetiva após descontada a perda de poder de compra da moeda.
Ranking nominal coloca Brasil em quarto lugar
Quando se considera apenas a taxa nominal de juros, sem descontar a inflação, o Brasil aparece na quarta posição do ranking. A Turquia lidera com taxa de 37% ao ano, seguida por Argentina com 29% e Rússia com 14%.
Após o Brasil, aparecem Colômbia com 12%, África do Sul com 7% e México com 6,5%. A diferença entre as posições nos dois rankings reflete o comportamento da inflação em cada economia: países com inflação mais alta tendem a ter juros reais menores mesmo quando mantêm taxas nominais elevadas.
Entre os 164 países analisados no levantamento, 72,56% mantiveram os juros inalterados, 21,34% elevaram as taxas e 6,10% promoveram cortes. No recorte dos 40 países que compõem o ranking principal, 55% mantiveram as taxas, enquanto 35% elevaram e 10% cortaram.
A predominância de manutenção das taxas reflete o momento de cautela dos bancos centrais globais diante de perspectivas inflacionárias ainda incertas e cenário geopolítico adverso.
O que isso significa para o investidor
O juro real elevado no Brasil reforça a atratividade da renda fixa doméstica em termos comparativos globais, especialmente para investidores que buscam retorno acima da inflação. Títulos públicos e privados brasileiros oferecem prêmio significativo sobre alternativas em mercados desenvolvidos e mesmo em outros emergentes.
A liderança no ranking de juro real, porém, também sinaliza desafios estruturais: a combinação de taxa básica elevada e expectativas de inflação persistentes limita o espaço para crescimento econômico e pressiona o custo de financiamento de empresas e do governo. Para quem investe em ações, o cenário mantém a competição entre bolsa e renda fixa desfavorável ao mercado acionário.
O contexto internacional adiciona camada de complexidade: com o Federal Reserve elevando juros pela primeira vez em três anos nos Estados Unidos, conforme noticiado pelo AAR News em 16 de setembro, o diferencial de juros entre Brasil e economias desenvolvidas pode se estreitar caso o ciclo de aperto monetário americano ganhe tração. Isso reduziria parte da vantagem relativa dos ativos brasileiros.
Investidores devem acompanhar a evolução das expectativas de inflação no Focus e as sinalizações do Copom sobre a trajetória futura da Selic. Qualquer mudança significativa nas projeções inflacionárias pode alterar rapidamente o juro real efetivo e, com isso, a atratividade relativa dos ativos domésticos frente a alternativas no exterior.
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