A vitória de candidatos democratas nas eleições de meio de mandato desta terça-feira, com destaque para o resultado surpreendente na disputa pelo governo do Texas, levou bancos de investimento a reavaliar o ritmo de expansão dos data centers voltados à inteligência artificial nos Estados Unidos, segundo reportagem da CoinDesk.
O banco Bernstein reduziu os preços-alvo de sete empresas mineradoras de bitcoin em até 54%, citando condições de financiamento mais apertadas e a incerteza sobre o desenvolvimento de data centers no Texas, estado que concentra cerca de 25% da capacidade de data centers planejada nos Estados Unidos.
Para mineradoras de bitcoin que vinham migrando parte de suas operações para hospedagem de infraestrutura de IA, a dúvida agora é se conseguirão garantir o acesso à eletricidade necessário para erguer novos data centers. Empresas que já têm conexões de energia aprovadas tendem a estar em posição mais confortável, segundo a CoinDesk.
Texas no centro da incerteza
A democrata Gina Hinojosa derrotou o republicano Greg Abbott, governador que era tido como favorito amplo na disputa. Hinojosa defende suspender novas aprovações de data centers até que o Texas estabeleça regras para proteger moradores de aumentos nas contas de eletricidade e água, de acordo com o material da CoinDesk.
O Goldman Sachs estima que estados propensos a endurecer regras sobre data centers respondem por cerca de 45% da capacidade planejada nos Estados Unidos, com o Texas isoladamente representando aproximadamente um quarto desse total. Já a consultoria SemiAnalysis calcula que o Texas responde por quase 30% da capacidade prevista para entrar em operação em 2028, com base em dados da Bloomberg citados pelo analista Neil Sethi.
Ações de tecnologia sofreram impacto inicial com o resultado eleitoral: os futuros do Nasdaq-100 recuaram cerca de 1,5% durante a noite, antes de se recuperarem na manhã de quarta-feira, segundo a reportagem.
Apesar disso, analistas não esperam uma paralisação total da construção de data centers. A preocupação maior, segundo a CoinDesk, é que os projetos levem mais tempo para ser aprovados e fiquem mais caros. Libby Cantrill, da PIMCO, descreveu o cenário como a inclusão de 'muito mais areia nas engrenagens', mesmo sem proibições estaduais amplas, de acordo com o resumo de reações de analistas compilado por Sethi.
Economistas do Goldman Sachs projetam que democratas no Texas, na Geórgia e em Michigan devem impor pausas temporárias à aprovação de novos data centers enquanto legisladores discutem regras mais rígidas sobre uso de eletricidade e água e sobre incentivos fiscais. O banco, porém, não espera que essas restrições durem muito tempo, argumentando que data centers não são prioridade para a maioria dos eleitores.
O que significa para os mineradores de bitcoin
Nos últimos dois anos, mineradoras de bitcoin tentaram transformar seu acesso a energia barata e grandes terrenos industriais em negócios de hospedagem de IA, e o Texas foi peça central dessa estratégia, segundo a CoinDesk.
O analista-sênior da Bernstein, Gautam Chhugani, afirmou que mais da metade da capacidade de energia detida ou planejada pelas mineradoras que migraram para IA cobertas pela casa está localizada no Texas.
Investidores esperavam que Abbott flexibilizasse as restrições a novos data centers após a eleição, desde que desenvolvedores cumprissem certas condições. A vitória de Hinojosa mudou essa expectativa. Em nota, Chhugani escreveu que a pausa sobre data centers deve continuar e que qualquer legislação potencial sobre o tema deve ficar travada.
Isso não significa que toda mineradora com operações no Texas esteja em dificuldade. Chhugani apontou que empresas que já garantiram energia podem até se beneficiar caso novas restrições dificultem a conexão de outros desenvolvedores à rede elétrica.
Entre as companhias cobertas pela Bernstein, IREN, Riot Platforms e Cipher Mining têm a maior exposição ao Texas, mas as três também possuem capacidade de energia aprovada medida em gigawatts, o que Chhugani descreveu como algo que 'pode ser considerado escasso e valioso'.
O Morgan Stanley fez distinção semelhante entre projetos já em andamento e aqueles que ainda aguardam aprovações. Em nota de quarta-feira, analistas liderados por Stephen Byrd apontaram Cipher Mining, MARA Holdings e Galaxy Digital como empresas que enfrentam maior incerteza no Texas. O banco afirmou que vai reavaliar as perspectivas do site Colchis, da Cipher, do projeto Helios II, da Galaxy, e dos planos de expansão da MARA.
Já TeraWulf, Hut 8 e Applied Digital foram citadas pelo Morgan Stanley como mais bem posicionadas diante do aperto na oferta de energia. A TeraWulf tem pouca exposição a mudanças regulatórias no Texas, enquanto a Hut 8 poderia se beneficiar caso desenvolvedores migrem projetos para a Louisiana.
O caso da Riot foi descrito como mais difícil de avaliar: suas conexões de rede já existentes em Corsicana e Rockdale podem se tornar mais valiosas, segundo o Morgan Stanley, mas os planos de ampliar a capacidade de data centers nesses mesmos sites ainda podem enfrentar obstáculos.
Cortes de preço-alvo da Bernstein
O Bernstein não esperou para ver como as novas regras vão se desenrolar. O banco cortou os preços-alvo de sete mineradoras de bitcoin, citando mercados de financiamento mais apertados e a incerteza sobre os próximos passos no Texas.
Segundo a nota do banco citada pela CoinDesk, a casa passou a avaliar o negócio de colocation de IA a 12 vezes o EV sobre o EBITDA projetado para um ano à frente, com base no EBITDA estimado para o ano fiscal de 2030 — ou seja, uma avaliação mais conservadora dos ganhos que as mineradoras devem gerar ao alugar espaço de data center e energia para clientes de IA.
O preço-alvo da Cipher Mining caiu de US$ 23 para US$ 15, e o da IREN, de US$ 100 para US$ 55. A TeraWulf teve seu alvo reduzido de US$ 36 para US$ 20, enquanto a Core Scientific foi cortada de US$ 32 para US$ 19.
O Bernstein também reduziu o alvo da Riot de US$ 35 para US$ 18, o da MARA de US$ 17 para US$ 10, e o da CleanSpark de US$ 24 para US$ 11. Os cortes variam de aproximadamente 35% a 54%, segundo o levantamento do banco.
Nem todo mundo vê como negativo
Nem todos os analistas de Wall Street enxergam uma desaceleração na construção como má notícia para o investimento em IA. O estrategista do Goldman Sachs Rich Privorotsky observou que as ações do setor já haviam sido fortemente vendidas antes da eleição e avalia que algumas empresas podem antecipar gastos para 2027, de modo a colocar projetos em andamento antes que novas regras entrem em vigor.
Ele também pondera que, se menos data centers forem construídos, aqueles já em operação podem se tornar mais valiosos.
A gestora Pershing Square, em carta aos acionistas datada de 2 de novembro, também defendeu a continuidade do investimento em IA. A carta citou que Microsoft, Meta, Amazon e Google devem gastar cerca de US$ 740 bilhões em projetos de capital neste ano, ante aproximadamente US$ 140 bilhões em 2023 — e que esse número pode superar US$ 1 trilhão em 2027.
Para as mineradoras de bitcoin, a questão central é quanto desse volume de investimento elas conseguirão capturar. Segundo a CoinDesk, empresas com sites já operacionais, energia aprovada e contratos de hospedagem de IA assinados podem levar vantagem, enquanto aquelas que dependem de futuras conexões à rede podem enfrentar anos de atraso.
O que isso significa para o investidor
O episódio reforça que a narrativa de expansão linear dos data centers de IA — amplamente precificada pelo mercado nos últimos trimestres — passa a depender também do risco político e regulatório estadual nos Estados Unidos, algo que até agora pesava pouco nas avaliações de mineradoras convertidas em operadoras de infraestrutura de IA.
Para quem acompanha o investidor brasileiro exposto a bitcoin e a ações ligadas à tecnologia, o episódio é um lembrete de que a correlação entre o preço da criptomoeda e o desempenho de mineradoras pode se distanciar quando entram em jogo fatores regulatórios específicos de cada mercado, como energia e licenciamento. Às 18h18 (BRT) desta quarta-feira, o bitcoin era negociado a US$ 80.120,44, alta de 3,61% no dia, segundo scanner da TradingView — movimento que contrasta com os cortes de preço-alvo aplicados pela Bernstein às ações de mineradoras, evidenciando que o ativo digital e as empresas que o mineram podem reagir de forma distinta a um mesmo evento.
Vale observar também o contraste com o desempenho recente de outras companhias ligadas a data centers: a AMD, por exemplo, disparou cerca de 8% após reportar alta de 45% na receita de data centers no terceiro trimestre, conforme cobertura anterior do AAR News. Isso sugere que o mercado segue distinguindo entre fornecedores de hardware para IA — menos expostos a risco regulatório estadual direto — e operadores de infraestrutura física, como as mineradoras de bitcoin, mais vulneráveis a decisões políticas locais sobre energia e uso do solo.
Nos próximos meses, o investidor deve acompanhar o desdobramento de eventuais pausas regulatórias no Texas, na Geórgia e em Michigan, assim como a evolução de projetos específicos citados pelos bancos — como o site Colchis da Cipher Mining e o Helios II da Galaxy Digital — para avaliar se a tese de 'escassez de capacidade aprovada' favorecendo empresas como IREN, Riot e Cipher realmente se confirma, ou se o impasse político Simplesmente adia, sem eliminar, o crescimento do setor.
Agregado por AAR News · fonte: CoinDesk
Texto reescrito pela redação AAR com assistência de IA · confira a fonte · como produzimos