A Anthropic escolheu um momento particularmente delicado para divulgar o prospecto de sua oferta pública inicial, segundo reportagem da CNBC. Dias após a publicação do documento, parceiros centrais da companhia — Microsoft, Google e Amazon — apresentaram balanços trimestrais que intensificaram o nervosismo já existente em torno da expansão da infraestrutura de inteligência artificial.
Daniel Newman, CEO da Futurum Group, disse à CNBC que o setor segue "a todo vapor" em IA, mas que "tudo ao redor disso deu uma guinada interessante" na semana. Para ele, os resultados das chamadas hyperscalers "levantaram sobrancelhas" e criaram um novo obstáculo no mercado, ligado a "mais dúvida sobre a estrutura de capital" das empresas do setor.
Independentemente do humor do mercado, a Anthropic já teria de convencer uma base de investidores cética ao buscar uma oferta inicial potencialmente recorde nas próximas semanas. No prospecto divulgado na segunda-feira, a empresa de IA revelou prejuízo líquido de US$ 80 bilhões no primeiro semestre do ano, além de centenas de bilhões de dólares em compromissos de capacidade computacional e mais de 90 páginas dedicadas a fatores de risco. Os investidores ainda aguardam os números do terceiro trimestre da companhia.
Antes mesmo dessa semana, já crescia a preocupação com a saúde financeira de neoclouds como CoreWeave e Nebius, que enfrentam custo de captação em alta e escassez de credores diante de planos agressivos de expansão em IA. A Anthropic obtém grande parte de sua capacidade computacional junto a Amazon, Google e SpaceX, mas também depende de neoclouds para parte do processamento necessário em sua corrida por crescimento.
David Hsu, professor da Wharton School, da Universidade da Pensilvânia, resumiu a dúvida que paira sobre o setor: "É uma ótima tecnologia, parece fazer coisas que nunca imaginaríamos, mas como isso se traduz em um negócio viável?", questionou, segundo a CNBC.
O Nasdaq Composite registrou sua primeira sequência de três semanas consecutivas de queda desde março, após recuar 2,9% na sexta-feira. A Nvidia, cujas unidades de processamento gráfico sustentam o boom de IA, também caiu, acompanhando todo o setor de semicondutores, depois que a Intel divulgou projeção fraca e viu suas ações sofrerem a queda mais acentuada desde a década de 1970.
Capex abaixo do esperado acende alerta
Microsoft, Google e Amazon trouxeram, cada uma a seu modo, sinais de cautela em seus balanços. As três companhias vêm em ritmo intenso de investimento para atender à demanda por infraestrutura de IA, mas todas apresentaram números ou projeções de capex abaixo das estimativas de analistas. A Microsoft reduziu sua previsão anual de capex para US$ 170 bilhões, ante US$ 175 bilhões anteriores; a Alphabet manteve a orientação de até US$ 205 bilhões; e a Amazon reiterou projeção de cerca de US$ 220 bilhões.
Jonathan Krinsky, diretor administrativo da BTIG, descreveu a temporada de resultados de tecnologia como particularmente dura em nota divulgada na quinta-feira, chamando o episódio de "Techsas Chainsaw Massacre" e afirmando haver fraqueza demais no setor para o mercado ignorar.
O caixa das big techs também entrou no radar. A Amazon reportou fluxo de caixa livre negativo pelo segundo trimestre consecutivo, com saída de US$ 42,4 bilhões no período de 12 meses encerrado. O Google registrou fluxo de caixa livre negativo de US$ 9,1 bilhões, um dos fatores por trás da queda de quase 13% de suas ações na quinta-feira, o pior dia da história do papel. A Microsoft manteve fluxo de caixa livre positivo, de US$ 18,6 bilhões, mas em queda relevante pelo segundo trimestre seguido — e anunciou plano de captar US$ 25 bilhões em títulos de dívida para financiar sua expansão de infraestrutura.
"De repente, elas estão tipo: 'não conseguimos mais bancar isso só com fluxo de caixa livre'", disse Newman à CNBC. "A preocupação é que, basicamente, não há mais empresa capaz de fazer isso usando a própria capacidade de geração de caixa do negócio. Está ficando cada vez mais alarmante", acrescentou.
Crescimento de nuvem segue forte
Apesar das dúvidas sobre caixa, os parceiros de nuvem da Anthropic também figuram entre seus principais investidores, e as empresas dependem umas das outras para manter o ciclo de investimento girando — tema que deve dominar o roadshow da oferta. A Anthropic não respondeu de imediato a pedido de comentário da CNBC.
A demanda por IA segue como vento favorável relevante. Microsoft, Google e Amazon reportaram crescimento de nuvem acima das estimativas de analistas, com a receita da divisão de nuvem do Google mais que dobrando na comparação anual. A Oracle, uma das maiores investidoras em data centers de IA, disse em seu dia de investidores na quarta-feira que limitará novas captações nos próximos anos a US$ 20 bilhões e que passará a ter fluxo de caixa positivo na segunda metade do próximo ano fiscal.
Analistas da Citizens escreveram em relatório de quinta-feira que esse anúncio "afastou o maior receio dos investidores — de que financiar a imensa expansão de infraestrutura de IA exigiria aumento indefinido de emissão de dívida e ações", segundo a CNBC.
IPO congelado e corrida contra o relógio
O mercado de aberturas de capital segue praticamente paralisado desde a oferta recorde da SpaceX, em junho. A fabricante de anéis biométricos Oura, a operadora australiana de data centers de IA Firmus e a Solidigm, subsidiária americana da SK Hynix, adiaram ou abandonaram planos de IPO recentemente. A Nscale, uma neocloud que protocolou pedido de abertura de capital em setembro, não atualiza seu prospecto há semanas — assim como a SB Energy, do SoftBank.
Nesse contexto, Newman afirmou que o medo de ficar de fora — o chamado FOMO — de uma companhia potencialmente "geracional" é real, classificando o prospecto da Anthropic como "muito impressionante", com crescimento anual de vendas de 1.300%, retenção líquida de receita de 900% e margem bruta implícita de 85%.
"A Anthropic é o mercado de IPOs neste momento", disse Newman à CNBC. "Acho que outras empresas teriam de ser extremamente cautelosas, senão tolas, para realmente quererem abrir capital neste período", concluiu.
O que isso significa para o investidor
Para quem acompanha o mercado brasileiro com exposição a ativos globais de tecnologia, o episódio reforça que o apetite por IA e a disposição de pagar por ele são coisas distintas. O Nasdaq Composite fechou a 25.437,00 pontos, queda de 2,86% no dia, segundo dados da TradingView referentes a 1º de novembro de 2026, às 21h51 (horário de Brasília) — movimento que confirma o desconforto relatado pela CNBC em torno dos balanços das hyperscalers e da fraqueza no setor de semicondutores.
O caso da Anthropic ilustra um dilema que deve se repetir em futuras ofertas do setor: crescimento de receita e retenção de clientes extraordinários convivem com prejuízos bilionários e dependência de capital externo intenso. Para o investidor que avaliar participar da oferta, ou de fundos expostos a ela, vale acompanhar de perto os números do terceiro trimestre ainda não divulgados, a evolução do fluxo de caixa das hyperscalers que sustentam sua capacidade computacional e o comportamento dos custos de financiamento das neoclouds.
O movimento também tende a funcionar como termômetro para o apetite de risco geral do mercado de capitais de tecnologia: o congelamento recente de outras ofertas, de Oura a Nscale, sugere que investidores estão mais seletivos. Se a Anthropic avançar com sucesso em meio a esse cenário, isso pode reabrir a janela para outras companhias de IA; se tropeçar, o efeito inverso — maior cautela e exigência de disciplina de capital — deve se espalhar por todo o ecossistema ligado à infraestrutura de inteligência artificial.
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