A economia americana criou 165 mil postos de trabalho em outubro, número acima do esperado por analistas, segundo dados divulgados nesta sexta-feira pelo Bureau of Labor Statistics (BLS) e reportados pela CNN. A taxa de desemprego recuou para 4,1%, ante 4,2% no mês anterior.
O relatório também trouxe revisões para cima nos dois meses anteriores: agosto teve a criação de vagas revisada para 186 mil, alta de 53 mil em relação ao número inicial, e setembro passou de 29 mil para 60 mil postos. Juntas, as revisões somam 84 mil empregos adicionais não contabilizados anteriormente.
O consenso de mercado, segundo estimativas da FactSet, previa criação de 65 mil vagas em outubro e taxa de desemprego de 4,2%. O resultado divulgado superou amplamente essas projeções.
Para Seema Shah, estrategista-chefe global da Principal Asset Management, o relatório de empregos de outubro funciona como uma resposta direta a temores de desaceleração mais acentuada da economia, segundo a CNN.
Ritmo de contratações em diferentes janelas de tempo
Considerando o acumulado até outubro, a criação de vagas está em média de 86.100 por mês. O número representa melhora em relação aos ganhos mensais abaixo de 10 mil registrados no ano passado, mas ainda fica abaixo da média de cerca de 120 mil postos por mês observada em 2024 e no período pré-pandemia.
Já na leitura de curto prazo, o cenário aparece mais robusto: sem considerar revisões futuras, a média móvel de três meses para criação de empregos nos EUA está em 137 mil vagas, segundo dados do BLS. A taxa de desemprego permanece em 4,5% ou abaixo por 60 meses consecutivos — com a ressalva de que o BLS não divulgou taxa de desemprego para outubro de 2025 por causa da paralisação do governo (shutdown).
Ganhos distribuídos entre setores
Além do número agregado melhor que o esperado, o relatório mostrou criação de empregos em uma base mais ampla de setores. A maior parte dos ganhos de outubro veio do setor de serviços profissionais e empresariais, que adicionou 70 mil vagas. O setor de saúde e assistência social, que tem sustentado o mercado de trabalho nos últimos anos, somou 55.100 postos no mês.
Outros avanços relevantes ocorreram na manufatura de bens duráveis (+25 mil), setor impulsionado em parte por investimentos ligados a inteligência artificial; em transporte e armazenamento (+24.500), área que se prepara para a temporada de compras de fim de ano; e em serviços de ajuda temporária (+18.600), segmento descrito como indicador antecedente, já que empregadores costumam testar o terreno antes de efetivar contratações permanentes.
Tyler Schipper, professor associado de economia da St. Thomas University, em Saint Paul, Minnesota, ponderou que algumas dessas categorias têm se mostrado voláteis nos últimos meses, segundo a CNN.
Ressalvas por trás do otimismo
Apesar do resultado acima do esperado, Schipper recomendou cautela. Segundo ele, a média móvel de três meses de criação de empregos está em nível parecido ao observado no início do ano, antes de recuar de forma acentuada ao longo do verão e início do outono no hemisfério norte.
Para o professor, ainda não é possível afirmar se o movimento recente marca o início de uma tendência mais consistente de fortalecimento do mercado de trabalho ou se reproduz o padrão já visto em 2025, de melhora seguida por novo enfraquecimento.
Ele destacou que os ganhos dos últimos meses, somados ao primeiro avanço anual em quatro anos nas vagas publicadas pelo Indeed em setembro, são sinais positivos, mas não mudam de forma definitiva a trajetória de um mercado de trabalho de ritmo lento, descrito como um ambiente de 'baixa contratação, baixa demissão' há anos.
Esse cenário tem beneficiado alguns grupos, mas não todos — especialmente trabalhadores mais jovens e desempregados que tentam retornar ao mercado. Em outubro, a duração média do desemprego subiu ao maior nível desde dezembro de 2021, segundo Schipper.
Mesmo entre quem mantém o emprego, o cenário não é totalmente favorável: segundo o professor, o crescimento salarial tem sido moderado, especialmente em comparação à inflação.
Salários, inflação e custo de vida
Em outubro, o crescimento salarial na comparação anual desacelerou para 3,1%, ante 3,2% em uma revisão para cima do mês anterior. Os ganhos de renda dos americanos estão próximos dos níveis pré-pandemia, mas a inflação não acompanha o mesmo padrão: os preços têm subido mais rapidamente nos últimos meses, pressionados por um choque de energia ligado à guerra.
O custo de vida segue como preocupação central das famílias, enquanto empregadores lidam simultaneamente com mudanças demográficas, adoção acelerada de inteligência artificial, inflação persistentemente elevada e a guerra com o Irã. Um mercado de trabalho que parece saudável nos números nem sempre é percebido assim pelos próprios trabalhadores.
A reportagem da CNN também observa que o resultado de contratação melhor que o esperado chega em um momento de transição política nos Estados Unidos, após a vitória dos democratas nas eleições de meio de mandato (midterms).
O que isso significa para o investidor
Para quem acompanha ativos americanos e globais a partir do Brasil, o dado de emprego funciona como termômetro da resiliência da maior economia do mundo em um momento de incertezas geopolíticas e inflacionárias. Um mercado de trabalho mais forte que o esperado tende a reduzir, no curto prazo, a pressão por cortes agressivos de juros por parte do Federal Reserve, já que reduz o argumento de desaceleração abrupta da atividade.
Ao mesmo tempo, as próprias ressalvas levantadas no relatório — média de três meses ainda instável, desaceleração do crescimento salarial e inflação pressionada por choque de energia — sugerem que a leitura do mercado não deve ser unidirecional. Investidores expostos a renda fixa e câmbio devem monitorar se os próximos relatórios confirmam a aceleração observada em outubro ou reproduzem o padrão de melhora seguida de recuo citado pelo economista Tyler Schipper.
Vale acompanhar também os desdobramentos da guerra com o Irã e seus efeitos sobre preços de energia, fator citado como driver da inflação mais alta nos EUA. Esse componente, somado ao novo cenário político pós-eleições de meio de mandato, pode influenciar a trajetória de política monetária americana e, por consequência, o apetite por risco em mercados emergentes, incluindo o Brasil.
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