John Williams, presidente do Federal Reserve Bank de Nova York, afirmou nesta terça-feira que não enxerga necessidade de novas altas de juros em 2027 depois de um aumento adicional ainda neste ano. A declaração, dada em entrevista à Bloomberg News e repercutida pela CNBC, coloca o dirigente em rota de divergência com parte do mercado e de seus colegas de diretoria.
"Eu não mudei minha visão de que pode ser apropriado ter mais um aumento de juros", disse Williams. "Não acho que, neste momento, eu tenha razão para acreditar que precisaríamos fazer mais."
Segundo a CNBC, os dados da CME FedWatch mostravam nesta terça-feira que os traders de contratos futuros de fed funds apostam majoritariamente em pelo menos uma alta de juros em 2027. O mercado atribuía cerca de 90% de probabilidade de que a taxa básica do Fed termine 2027 ao menos meio ponto percentual acima do nível atual.
A posição de Williams também diverge da maioria das projeções divulgadas por integrantes do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC). Dos 18 membros que apresentaram previsão para 2027, oito esperam mais um aumento após a alta prevista para este ano — ou seja, Williams está alinhado à maioria, mas não ao consenso mais hawkish do colegiado. Ele é membro permanente com direito a voto no FOMC, o colegiado que define os rumos da política monetária em cada reunião.
O Fed promoveu em setembro sua primeira alta de juros desde 2023. Segundo a ata da reunião, os dirigentes sinalizaram planos para um novo aumento, mas sem especificar quando isso ocorreria. O banco central americano tem reunião marcada para o fim deste mês e outra em dezembro.
Mesmo assim, Williams ponderou à Bloomberg que "teremos que esperar para ver" como a economia se comportará ao longo do próximo ano. "Esta economia está sendo afetada por muitas influências diferentes, e nós só temos que continuar observando os dados", afirmou.
Tendências 'desinflacionárias'
Williams defendeu que o Fed deve olhar para as "tendências subjacentes" da inflação em meio a choques de preços ligados à energia e à inteligência artificial. O ex-presidente do Fed de São Francisco ponderou que os preços de energia continuam pressionando a inflação geral para cima, mas disse que podem oferecer alívio em bases anuais no futuro. Ele também afirmou que os efeitos das tarifas sobre o crescimento de preços já foram, em grande parte, observados.
Segundo Williams, a inflação geral de 2027 deve ficar "próxima" da meta de 2% do Fed em termos anuais. O índice de preços de gastos com consumo pessoal (PCE), indicador de inflação preferido do banco central americano, mostrou em agosto um avanço de 3,4% em 12 meses, ou de 3% ao excluir alimentos e energia.
"Eu ainda acredito que há forças desinflacionárias em jogo. Essas eu não acho que tenham mudado fundamentalmente", disse Williams. "Na verdade, minha previsão de inflação para o próximo ano é que ela caia bastante."
A reportagem da CNBC teve contribuição de Matt Peterson.
O que isso significa para o investidor
A fala de Williams reforça um quadro de dissenso dentro do próprio Fed sobre o ritmo de ajuste monetário daqui para frente, o que tende a manter a volatilidade nas curvas de juros americanas. Para investidores brasileiros com exposição a ativos dolarizados, renda fixa internacional ou fundos cambiais, esse tipo de divergência entre dirigentes e mercado costuma se traduzir em reprecificação de expectativas a cada novo discurso ou dado de inflação divulgado nos EUA.
Vale notar que a divergência não é unânime nem mesmo dentro do colegiado: como mostrou cobertura anterior do AAR News, Beth Hammack, do Fed de Cleveland, defendeu que ajustes pequenos e frequentes nos juros são preferíveis a uma correção abrupta mais adiante — um argumento que, na prática, sustentaria o lado do FOMC mais inclinado a manter a porta aberta para novas altas, na contramão do otimismo de Williams.
Para quem acompanha o mercado americano, o ponto a monitorar nas próximas semanas é a reunião do Fed marcada para o fim deste mês e o encontro de dezembro, além da leitura do PCE, que Williams citou como referência central para calibrar se a inflação de fato perderá força em 2027. Qualquer sinal de que o índice não convirja para perto da meta de 2% deve reacender as apostas do mercado em um ciclo de aperto mais longo do que o antecipado pelo presidente do Fed de Nova York.
Agregado por AAR News · fonte: CNBC
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