O mercado acionário americano vive um descompasso raro entre o desempenho do índice principal e o da maioria das ações que o compõem. Enquanto o S&P 500 flutua perto de uma máxima histórica, a ação mediana dentro do índice acumula uma queda de 16% em relação ao seu pico — um hiato que se tornou o assunto central das rodas de conversa em Wall Street, segundo análise publicada pela CNBC.
A leitura que ganha força entre analistas é a de que a recuperação tímida registrada na semana passada pela maioria das ações deve, finalmente, resgatar os investidores que não apostaram tudo nas gigantes de tecnologia. Setores inteiros capengam: os semicondutores operam 17% abaixo do topo e os grandes bancos, 13% abaixo, números que, em outro momento do ciclo, soariam como alerta sério sobre a sustentação de uma alta que já completou quatro anos.
Um mercado dividido ao meio
Lee Coppersmith, co-chefe de vendas de derivativos de ações do Goldman Sachs, descreveu a situação de forma direta: pela métrica preferida do banco, a amplitude de mercado caiu ao nível mais fraco desde a bolha das ponto-com. Segundo ele, o índice cabeçalho disfarça o quanto o mercado está difícil por baixo da superfície, mas sua leitura é a de que essa estreiteza não representa, por ora, um sinal de alerta para o mercado mais amplo — e ele segue favorável a uma alta do S&P 500 no horizonte de um a três meses.
Já o estrategista de ações do Morgan Stanley, Mike Wilson, que vinha defendendo a tese de uma ampliação do desempenho entre as ações apoiada no crescimento mais disseminado dos lucros, reconhece que a alta dos juros dos Treasuries bagunçou esse roteiro. Mesmo assim, ele argumenta que boa parte do risco já foi retirada do preço da maioria das ações antes da temporada de resultados: os juros mais altos atingiram sobretudo a ação média, mas essa reprecificação já correu à frente de qualquer piora efetiva nos lucros — o que, segundo ele, deixa espaço para uma recuperação caso os juros se estabilizem e as revisões de lucro se sustentem.
Tecnologia sob pressão, mas com ressalva
O Deutsche Bank rebaixou o setor de tecnologia na segunda-feira, citando posicionamento de investidores excessivamente concentrado, uma barra alta para os resultados agradarem o mercado e a performance extraordinária recente do setor, que vinha carregando o S&P 500 sozinho. Ainda assim, mesmo nessa nota mais cautelosa sobre o motor indiscutível do rali, os estrategistas do banco apontam um lado positivo: segundo eles, a concentração do setor costuma gerar justamente esse tipo de preocupação com a amplitude do mercado, e a rotação para outros setores e para as small caps deve aliviar essas tensões.
Por que é tão difícil bater o índice
Não é por acaso que gestores profissionais torcem para que o pêndulo se afaste das poucas ações de maior peso no índice e beneficie a maioria dos papéis: o S&P 500 tem sido brutalmente difícil de superar. Um gráfico da Trivariate Research mostra que apenas 34% das ações de grande capitalização bateram o desempenho do S&P 500 nos últimos 12 meses, perto do piso histórico dessa métrica. Vale o registro de que, na maior parte das vezes em que o índice foi mais fácil de superar, o mercado como um todo estava sob pressão.
O texto da CNBC pondera que, por mais que seja tentador descartar a aposta popular de uma reversão à média em direção a um mercado mais distribuído como um consenso preguiçoso e pouco provável, o mercado vem executando rotações quase impecáveis ao longo do último ano. O chamado 'dispersion trade' — mecanismo que compensa perdas em algumas ações com ganhos em outras dentro do mesmo índice — tem sustentado o S&P 500 e reprimido a volatilidade no nível do índice.
A própria segunda-feira ilustrou isso: os dois maiores pesos negativos do dia no S&P 500 foram Nvidia e Micron, mas as quedas foram compensadas quase à risca pelos ganhos de Apple e Meta, o que levou o índice a fechar praticamente inalterado.
Sinais técnicos no limite
A visão expressa na análise é a de que não há nada de errado, em si, com uma alta liderada por poucas ações — bull markets costumam ter um tema dominante que leva os índices adiante sem entregar totalmente a liderança por muito tempo. O problema surge quando a maioria das ações passa a cair de forma consistente e quando as divergências vêm acompanhadas de sinais de estresse macroeconômico e aperto nas condições financeiras.
Segundo a reportagem, o mercado estaria próximo de um ponto crítico para evitar esse segundo cenário. Os spreads de crédito se alargaram, mas ainda não de forma crítica. O S&P 500 em versão equal-weight mal conseguiu se afastar de uma nova mínima relativa frente à versão ponderada por valor de mercado, perto do nível em que começou um movimento de recuperação anterior, em maio. O Russell 2000 está exatamente em cima de sua média móvel de 200 dias. Já o ETF XMAG, composto pelas 493 ações do S&P 500 que não pertencem ao grupo das Magnificent 7, sinalizaria uma potencial ruptura técnica caso recue mais alguns pontos percentuais.
Termômetro de mercado
Um indicador desenvolvido por John Kolovos, da Macro Risk Advisors, combina o que investidores dizem e o que efetivamente fazem para medir a temperatura do mercado. Na leitura mais recente, Kolovos afirmou que a temporada de resultados dificilmente poderia chegar em momento mais oportuno para reparar os danos por baixo da superfície do mercado. Em suas palavras, se o índice seguir forte por mais algumas semanas sem melhora relevante na amplitude, a evidência histórica sugere que quanto mais tempo essa desconexão persistir, mais difícil fica o caminho adiante — o que poderia derrubar todo o mercado, tecnologia incluída.
Pelo noticiário de Wall Street
A coluna da CNBC também traz notas paralelas do circuito de Wall Street. Uma delas é sobre a pré-estreia de 'You Can See Everything', documentário dos cineastas Nathan Fielder e Lance Oppenheim sobre Elizabeth Holmes, fundadora decaída da Theranos, que estreia nesta sexta-feira. Além de um retrato intenso de Holmes e sua família nos dias que antecederam o início de sua pena de prisão, o filme capta a mentalidade das startups do Vale do Silício que transita entre determinação e delírio — Holmes e seu marido, Billy Evans, trabalham para tentar reerguer uma versão da Theranos com um misto de persistência e desespero. O texto relaciona esse perfil de fundador disposto a 'apostar a empresa' ao modelo de negócio que vem sustentando o boom de investimentos em inteligência artificial, com grandes plataformas de tecnologia lucrativas mas maduras, lideradas por executivos imbuídos do culto ao fundador.
A análise também cita um longo fio na rede social X, publicado dias atrás, detalhando possíveis obstáculos ao boom de investimentos em IA, além de uma edição do podcast 'Money Stuff' com Jeremy Maletz, chefe de mercados de previsão da Susquehanna International, sobre como esses mercados emergentes são avaliados por uma das casas de trading mais sofisticadas do setor financeiro.
Juros, prêmio de risco e os lucros do complexo de IA
Se os juros dos Treasuries de fato encontraram um topo de curto prazo, com o rendimento do título de 10 anos tendo recentemente alcançado acima de 5,3%, o mercado ganharia algum alívio. A análise da CNBC pondera, porém, que o chamado 'prêmio de risco das ações' — que subtrai o rendimento do Treasury de 10 anos do yield de lucros futuros do S&P 500 — não tem valor preditivo inerente, já que seu sinal depende sobretudo do nível absoluto dos juros e de qual ameaça predomina, se inflação ou estagnação do crescimento. Ainda assim, essa métrica indicaria, no momento, menos colchão de valuation relativo para as ações.
Mais relevante, segundo a reportagem, será a reação do mercado a mais um trimestre de crescimento provavelmente estelar de lucros do complexo de IA. A cadeia de hardware ligada à inteligência artificial, incluindo chips de memória e industriais relacionados, não tem sustentado seu valuation apesar das expectativas robustas de lucro — um sinal de que investidores podem estar coletivamente preocupados com um possível 'excesso de lucro' no curto prazo e com a durabilidade das vantagens competitivas no longo prazo. O Bank of America projeta que o crescimento de lucros da empresa mediana fora dos setores de tecnologia, das Mag 7 e de energia deve desacelerar para 7% no terceiro trimestre, ante 12% no segundo.
O que isso significa para o investidor
Para quem investe no Brasil com exposição a ativos americanos, o quadro descrito pela CNBC reforça um ponto que o AAR já vinha sinalizando: a temporada de resultados nos Estados Unidos chega com fasquia elevada, já que os bancos abriram a rodada do terceiro trimestre com projeção de alta de quase 30% no lucro — e, como alertado anteriormente, superar as estimativas pode não ser suficiente para sustentar novos ganhos nas ações. A divergência entre o S&P 500 e a ação mediana só amplia essa exigência: o mercado precisa não apenas de lucros fortes no núcleo de tecnologia e IA, mas de sinais de que o restante das empresas consegue acompanhar.
O pano de fundo recente ajuda a contextualizar o momento: a sessão de sexta-feira trouxe o Dow Jones subindo 423 pontos em dia de otimismo ligado a um acordo entre Trump e Putin sobre diesel, mesmo com o setor de telecomunicações pressionado pela disputa de espectro envolvendo a SpaceX e a tecnologia ligada à IA seguindo sob pressão — um retrato que combina com a leitura de um mercado que avança no índice geral mas segue combalido por baixo da superfície. Pelo scanner da TradingView, o S&P 500 era cotado em 7.803,86 pontos às 13h58 (horário de Brasília) de 13 de outubro, com variação de −0,04% no dia, um nível consistente com a descrição de um índice estacionado perto de máximas enquanto a amplitude interna definha.
Para o investidor brasileiro, os pontos a monitorar nas próximas semanas são claros: a reação dos resultados do complexo de IA e de hardware ligado a semicondutores, a trajetória dos juros de 10 anos dos Treasuries e eventuais sinais de alargamento mais acentuado nos spreads de crédito. Uma estabilização dos juros, como aposta Mike Wilson, favoreceria justamente a recuperação das ações fora do grupo líder — cenário que ajudaria fundos e ETFs com exposição mais diversificada ao mercado americano. Já uma piora na amplitude sem melhora nos resultados, como alerta Kolovos, poderia derrubar inclusive as próprias líderes de tecnologia que hoje sustentam o índice.
Agregado por AAR News · fonte: CNBC
Texto reescrito pela redação AAR com assistência de IA · confira a fonte · como produzimos
