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Varejo eleva aposta com dinheiro emprestado e dívida de margem bate recorde nos EUA

Robinhood vê book de margem saltar 127% em um ano; total do mercado chega a US$ 1,5 trilhão, segundo CNBC

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Uma noite de maio de 2021, em Houston, mudou a relação de Hy Luu, engenheiro consultor de 29 anos, com o mercado financeiro. Pesquisando formas de aumentar seu poder de compra em ações da Tesla, ele descobriu o chamado investimento com margem: pedir dinheiro emprestado à corretora para comprar ativos, usando a própria carteira como garantia, segundo reportagem da CNBC.

A operação parecia simples demais: mais capital para investir, pago depois com a valorização das ações. O risco principal seria uma chamada de margem — a exigência de depósito adicional caso o valor da carteira caísse. Luu discutiu a ideia naquela mesma noite com a mãe, Kim Nguyen, de 66 anos, ex-contadora aposentada, com quem divide uma casa de três quartos em Houston. Ela achou o mecanismo interessante, e foi o suficiente para ele começar a operar.

De curioso a investidor alavancado

Cerca de um ano depois de iniciar as operações alavancadas em Tesla, Luu já acumulava mais de US$ 100 mil em dívida de margem. Em entrevista à CNBC, ele descreveu o período como um momento de euforia: a ação subia, e ele sentia que não havia como perder dinheiro.

Passados cinco anos operando com margem — incluindo um momento de tensão em 2022, quando temeu ser forçado a vender posições por uma eventual chamada —, Luu segue tentando reduzir o que chama de seu maior saldo de margem já registrado. Em junho, ele exerceu US$ 165 mil em cinco opções de compra (calls) da Tesla e adquiriu 500 ações a US$ 330 cada. Descontado o caixa disponível na conta, a operação elevou sua dívida de margem a mais de US$ 156 mil. No mesmo mês, as ações da Tesla oscilaram de valores abaixo de US$ 370 para mais de US$ 430.

Somando os investimentos em Tesla, ações da própria empresa onde trabalha e o plano de previdência 401(k), e descontando a dívida de margem e outros compromissos como financiamento de carro e empréstimos estudantis, o patrimônio líquido de Luu teria saltado para mais de US$ 800 mil — ante um patrimônio negativo sete anos atrás, segundo relatou à reportagem. Ele afirmou estar perto de se tornar milionário, mas fez questão de alertar que sua estratégia é arriscada e que não a recomenda a ninguém.

O caso Robinhood: uma onda de alavancagem no varejo

O investidor de Houston não é um caso isolado. De acordo com a CNBC, o volume de margem na Robinhood atingiu um recorde de US$ 21,6 bilhões no segundo trimestre, alta de 127% em relação ao mesmo período do ano anterior e salto de 332% frente aos US$ 5 bilhões registrados no segundo trimestre de 2024. Na plataforma, usuários elegíveis precisam manter uma carteira de ao menos US$ 2 mil para operar com margem.

Devin Ryan, chefe de pesquisa em tecnologia financeira da Citizens, disse à CNBC que a Robinhood fez um esforço deliberado para atrair clientes que usam margem de forma ativa, justamente por serem os traders mais ativos da base. Segundo ele, as corretoras se beneficiam duplamente dessas operações: cobram juros sobre os empréstimos de margem e ainda capturam receita adicional vinda da negociação intensa desses clientes.

Ryan apontou que, nos últimos anos, as promoções de transferência de ativos da Robinhood vieram acompanhadas de taxas de margem baixas e rendimentos elevados sobre o caixa parado — um combo que, segundo ele, atrai especificamente o perfil de trader ativo. Ele também citou o acesso facilitado via smartphone como fator de peso no crescimento da modalidade, destacando a experiência de investir sem atrito e com tudo disponível na palma da mão como parte explicativa do fenômeno.

Procurada pela CNBC, a Robinhood rebateu a leitura de que suas promoções mirariam especificamente traders ativos que operam ou podem operar com margem. A empresa afirmou que seus produtos são desenhados para atender a diferentes perfis de clientes, que busca atender os usuários onde eles estão, e rejeitou qualquer insinuação de que estimularia negociações arriscadas.

A companhia destacou ainda que outras frentes do negócio também crescem, caso dos ativos de aposentadoria, que quase quadruplicaram nos últimos dois anos — um contraponto ao enquadramento de que o crescimento estaria concentrado em operações de risco.

Dívida de margem bate recorde em todo o mercado

O fenômeno não se restringe à Robinhood. Segundo dados da Financial Industry Regulatory Authority (Finra) citados pela CNBC, a dívida de margem total do mercado americano atingiu patamar recorde de cerca de US$ 1,5 trilhão em junho — número que combina investidores institucionais, como fundos de hedge, e investidores de varejo.

A reportagem pondera que nem toda essa dívida resulta de novas decisões de tomar empréstimo: parte do saldo pode refletir, por exemplo, a necessidade de cobrir posições vendidas (short) que foram reavaliadas a preço de mercado à medida que as ações sobem.

Psicologia de mercado: do entusiasmo à ganância

Para Sam Huszczo, diretor de investimentos da SGH Wealth Management, o ciclo de alta do mercado — marcado por sucessivos recordes neste ano — está alimentando uma mudança no comportamento dos investidores, da qual o aumento da dívida de margem é um sintoma. Ele descreveu o movimento como ganância, ponderando que não está disseminado por todo o mercado, mas que vem se infiltrando em bolsões específicos.

Huszczo foi além ao comentar que a margem é apenas a ponta visível de um fenômeno maior, associando o medo de ficar de fora (FOMO) a uma espécie de inveja materializada numa conta de corretagem. Ainda assim, ele avalia que o mercado está, no fundo, mais saudável do que a percepção geral sugere — embora reconheça que o crescimento da dívida de margem e a popularização de ETFs alavancados injetam fragilidade adicional ao sistema.

Segundo o gestor, o desafio para o investidor é diferenciar um investimento legítimo de crescimento com momentum de uma perseguição imprudente de retorno. Ele também reforça uma visão compartilhada por boa parte dos consultores financeiros: carteiras não deveriam ficar excessivamente concentradas em uma única ação ou setor.

A trajetória de Luu com a Tesla

Apesar do consenso entre consultores sobre diversificação, Luu manteve o foco na Tesla desde que comprou sua primeira ação, no fim de 2019. Ele havia começado o emprego atual no início daquele ano, período em que, por sua própria descrição, não sabia nada sobre investimentos. Foi um colega de trabalho quem sugeriu que ele baixasse o aplicativo da Robinhood meses depois.

Luu contou à CNBC que, ao começar a ganhar dinheiro, passou a buscar onde aplicá-lo — primeiro em fundos de índice e até em criptomoedas. Ao calcular os retornos, porém, concluiu que o ritmo era lento demais para alcançar a independência financeira antes dos 65 anos.

A virada veio de uma decisão pessoal: escolher entre um Honda Civic e um Tesla Model 3. Um amigo agendou um test-drive do Model 3 apenas para experimentar, sem intenção de compra, segundo relatou. Ainda assim, Luu fez a reserva no mesmo dia do test-drive e recebeu o carro cerca de duas semanas depois.

A experiência com o veículo o convenceu de um futuro em que carros elétricos e autônomos seriam comuns — crença que, segundo ele, torna a Tesla o investimento mais fácil que já fez. Ao longo de sete anos investindo na empresa, ele manteve suas posições na maior parte do tempo.

2022: o ano em que a aposta quase desmoronou

A estratégia de Luu enfrentou seu momento mais crítico em 2022, quando as ações da Tesla começaram a cair, colocando-o em posição vulnerável a uma chamada de margem. Foi o pior ano da história da Tesla na bolsa: o papel fechou 2022 cotado a US$ 123,18, após um recuo de cerca de 65%.

Em busca de capital adicional, Luu tomou uma decisão financeira relevante, com aval da mãe: refinanciou a casa onde moram para obter US$ 30 mil extras, usados para reduzir a dívida de margem e evitar a venda forçada das ações.

O próprio investidor resume sua abordagem como uma espécie de aposta com ressalva, reconhecendo o nível de risco embutido em operar com margem durante praticamente todo o período em que investiu na Tesla. Até agora, a estratégia tem compensado: nos últimos cinco anos, as ações da Tesla subiram mais de 43%, para US$ 375 — embora o papel, conhecido pela volatilidade, esteja cerca de 25% abaixo da máxima histórica, próxima de US$ 499.

O que isso significa para o investidor

O caso retratado pela CNBC ilustra um fenômeno que vai além de uma história individual: o apetite crescente do investidor de varejo por alavancagem num mercado que já acumula recordes sucessivos em 2026, como mostrou cobertura recente do AAR News sobre o desempenho do Dow Jones, do S&P 500 e do Nasdaq. Quando a dívida de margem sobe junto com os índices, o ganho potencial em cenários de alta convive com uma exposição maior a reversões bruscas — especialmente em posições concentradas num único ativo, como fez Luu com a Tesla.

Para o investidor brasileiro que acompanha ou replica estratégias de mercado americano, o episódio reforça um ponto prático: margem amplia tanto ganhos quanto perdas, e o histórico de 2022 da própria Tesla — queda de cerca de 65% no ano — mostra como rapidamente uma posição alavancada pode se tornar insustentável, a ponto de exigir soluções extremas como o refinanciamento de um imóvel.

Vale observar também o ambiente mais amplo: com a dívida de margem do mercado americano em patamar recorde, segundo a Finra, e corretoras como a Robinhood ampliando produtos voltados a traders ativos, a atenção deve recair sobre indicadores de alavancagem agregada como termômetro de apetite ao risco — não apenas sobre o desempenho das ações em si. Momentos de forte valorização, como o observado nos pregões recentes de Wall Street noticiados pelo AAR News, tendem a coincidir com aumento do uso de crédito para investir, o que pode amplificar correções futuras.

Por fim, o episódio serve de lembrete sobre concentração de carteira: a opinião compartilhada por consultores ouvidos pela CNBC, de que posições não deveriam se concentrar excessivamente em um único ativo, é um princípio básico de gestão de risco que ganha peso justamente quando esse ativo está sendo comprado com dinheiro emprestado.

Agregado por AAR News · fonte: CNBC

Texto reescrito pela redação AAR com assistência de IA · confira a fonte · como produzimos