O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, construiu boa parte de sua identidade política em torno do uso agressivo de tarifas comerciais, a ponto de se autodenominar 'Tariff Man' ainda no primeiro mandato, segundo relato da CNN. No segundo mandato, essa postura se intensificou: o republicano aplicou tarifas contra aliados e rivais, citando objetivos que vão da reindustrialização americana ao combate ao tráfico de drogas, passando até por um protesto contra o que classificou como uma 'caça às bruxas' contra um aliado no Brasil, de acordo com a reportagem.
No entanto, quando o alvo passou a ser a Rússia, o comportamento de Trump mudou. Na sexta-feira, ele assinou uma ordem executiva que suspende novas sanções e tarifas contra o país — penalidades que estavam previstas para entrar em vigor dois dias depois. A medida provocou reação bipartidária imediata no Congresso americano, conforme descreve a CNN.
A lei suspensa e seu alcance
As sanções e tarifas em questão faziam parte de uma lei assinada por Trump em setembro, batizada em homenagem ao falecido senador republicano Lindsey Graham, da Carolina do Sul. Pela ordem executiva, ficam suspensas tarifas de até 500% sobre importações americanas vindas da Rússia e de 100% sobre os cinco maiores importadores de petróleo e gás natural russos.
Na prática, segundo a CNN, o Congresso havia criado uma nova arma econômica contra a máquina de guerra russa, mas Trump optou por não utilizá-la, ao menos por ora.
Ed Mills, analista de política em Washington da firma financeira Raymond James, classificou a decisão como um esvaziamento do mecanismo de fiscalização previsto na lei. Segundo ele, a medida segue um 'padrão' do presidente, que já havia deixado a Rússia de fora da lista de países atingidos pelas tarifas globais anunciadas em abril de 2025.
Mills também chamou atenção para o momento da divulgação, feita numa sexta-feira — prática frequentemente usada, segundo o analista, para ações que o governo prefere não ver comentadas, especialmente às vésperas das eleições de meio de mandato.
Reação no mercado de petróleo
A pausa nas sanções aliviou parte da pressão no mercado de energia, mas de forma limitada. Os futuros de petróleo recuaram na manhã de segunda-feira, com investidores apostando que a redução de sanções à Rússia resultaria em mais oferta de energia no mercado global, segundo a CNN.
Ainda assim, no início da tarde de segunda-feira, o Brent, referência internacional, chegou a se aproximar de máximas de cinco meses, em torno de 110 dólares o barril.
Andy Lipow, presidente da Lipow Oil Associates, ponderou que a Rússia já vende petróleo bruto para China, Índia, Turquia e outros destinos, enquanto vem limitando as exportações de combustíveis refinados. Para ele, a isenção pode facilitar a venda a uma gama mais ampla de clientes, mas ainda não está claro se isso se traduzirá, de fato, em mais oferta chegando ao mercado.
A decisão também foi comemorada do lado russo: Kirill Dmitriev, chefe do fundo soberano do país, classificou a ordem executiva como um momento 'importante e verdadeiramente histórico', em publicação na rede social X, segundo a reportagem.
Racha entre republicanos
A medida gerou divisão imediata dentro do próprio Partido Republicano. A senadora Darline Graham, da Carolina do Sul, que ocupa a cadeira deixada pelo irmão e disputa um mandato pleno, discordou publicamente do presidente. Segundo ela, manteria a pressão sobre a Rússia para encerrar a guerra e reduzir os preços de gás, afirmando não confiar no presidente russo Vladimir Putin nem no país.
O senador republicano Thom Tillis, que não disputará reeleição, classificou a decisão como 'extremamente irresponsável' e acusou Trump de ceder a um 'ditador russo' responsável por uma invasão ilegal da Ucrânia e por violência contra civis, segundo a CNN.
A defesa do governo
Integrantes do governo Trump saíram em defesa da decisão. O secretário de Estado Marco Rubio disse a jornalistas, no fim de semana, que a ordem executiva dá ao presidente tempo para 'estudar' o impacto econômico global das sanções.
Segundo Rubio, o problema é que as sanções não afetavam apenas a Rússia: incluíam tarifas sobre outros países, como a Índia. Ele afirmou que Trump quer usar um período de 60 dias para analisar o que a imposição conjunta de sanções e tarifas significaria para a economia global e também para a economia americana.
Um recuo que surpreendeu analistas
Para parte dos analistas ouvidos pela CNN, a decisão foi inesperada dado o histórico de Trump com tarifas — no ano passado, ele havia elevado as tarifas americanas sobre importações ao maior patamar desde a década de 1930, segundo John Iselin, diretor associado de análise econômica do Budget Lab, da Universidade Yale. Mills afirmou que muitos esperavam, no máximo, uma fiscalização mais branda das sanções previstas na lei Graham — não uma suspensão explícita das tarifas.
Embora as tarifas americanas tenham recuado desde então, em razão de uma série de pausas negociadas com a China, de uma decisão da Suprema Corte contrária às tarifas globais de Trump e de outros desdobramentos, elas permanecem em patamar mais alto do que em qualquer momento entre a década de 1940 e 2024, segundo os dados citados na reportagem.
O que isso significa para o investidor
Para quem acompanha mercados globais, o episódio reforça um ponto estrutural: a política comercial e de sanções de Trump segue sendo altamente discricionária e sujeita a reversões abruptas, mesmo quando há legislação aprovada pelo Congresso. Isso eleva a incerteza para setores expostos a energia, logística e comércio internacional, que precisam monitorar não apenas anúncios formais, mas também o timing político por trás deles — como a divulgação em uma sexta-feira, às vésperas de eleições de meio de mandato nos EUA.
No mercado de petróleo, a movimentação do Brent em direção a máximas de cinco meses, mencionada na reportagem, ilustra como decisões de política externa seguem influenciando diretamente o preço da commodity — com efeitos potenciais sobre inflação, custos de transporte e margens de setores dependentes de energia no Brasil e em outros mercados emergentes.
A divisão dentro do próprio Partido Republicano, com críticas públicas de senadores como Darline Graham e Thom Tillis, é outro ponto a observar: sinaliza que o espaço político de Trump para sustentar essa pausa nas sanções pode ser mais estreito do que parece, especialmente se o preço do petróleo continuar subindo às vésperas das eleições. Investidores expostos a ativos de energia, câmbio e renda fixa internacional devem acompanhar o desenrolar do período de 60 dias citado por Rubio, que pode definir se a suspensão se torna permanente ou é revertida sob pressão política interna.
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