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Trump esbarra no mesmo dilema econômico que derrubou Biden nas urnas

Indicadores sólidos não convencem eleitores sobre custo de vida; especialistas apontam tarifas e conflito com o Irã como fatores de pressão

Trump esbarra no mesmo dilema econômico que derrubou Biden nas urnas
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A Casa Branca enfrenta um problema que já foi do antecessor: números macroeconômicos consistentes não se traduzem em percepção positiva do eleitorado sobre a economia. A situação, segundo reportagem da BBC, é muito parecida com a que atormentou Joe Biden em 2024, quando dados favoráveis não convenceram boa parte dos eleitores de que a economia estava funcionando para eles.

Agora é Donald Trump quem lida com uma versão do mesmo impasse. Durante a campanha de 2024, ele prometeu aos eleitores alívio rápido para os preços em alta, afirmando que, ao vencer, traria os preços para baixo imediatamente. Cumprir essa promessa, segundo a BBC, tem se mostrado mais difícil do que previsto.

O crescimento econômico segue firme, o desemprego permanece baixo e o mercado de ações está perto de máximas recordes. Ainda assim, o último relatório de inflação divulgado antes das eleições de meio de mandato confirma o que os eleitores já sentem no dia a dia: os preços continuam altos.

As causas, no entanto, são distintas das enfrentadas por Biden, que lidava com as sequelas da pandemia de Covid. Trump enfrenta preços de energia mais altos, ligados ao conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, além de consequências de suas próprias políticas comerciais e de imigração. A realidade política, porém, é semelhante: eleitores não avaliam a economia pelo PIB ou por recordes na bolsa, mas pelo que pagam no supermercado, no posto de gasolina e pela capacidade de honrar as contas.

Números contam só parte da história

Um crescimento econômico de 2,2% nos Estados Unidos seria respeitável para os padrões de muitas economias ricas — a Alemanha, por exemplo, tem enfrentado dificuldade para gerar ritmo comparável, segundo a reportagem. Uma taxa de desemprego estável em 4,2% tampouco sugere uma economia em colapso.

Trump argumenta que herdou uma bagunça econômica de Biden e aponta crescimento forte, investimentos e desempenho da bolsa como evidência de que suas políticas funcionam. Após o mais recente relatório de inflação, o porta-voz da Casa Branca, Matthew Middleton, afirmou que a agenda econômica 'agressiva e pró-crescimento' da administração havia amortecido o que chamou de 'crise inflacionária de Biden'.

Larry Kudlow, aliado de Trump e comentarista econômico, descreveu a expansão atual como 'a maior história nunca contada', argumentando que 'ninguém está sendo demitido'. Mas os eleitores parecem enxergar uma narrativa diferente — a de que Trump venceu a eleição prometendo enfrentar o custo de vida, e os preços seguiram subindo.

Parte do problema está no descompasso entre salários e preços: os rendimentos médios por hora subiram 3% no último ano, enquanto os preços ao consumidor avançaram 3,7%, segundo os dados citados pela BBC. Isso ajuda a explicar por que as pesquisas continuam dando a Trump notas ruins na condução da economia.

Mesma linguagem, significados diferentes

Para os democratas, a dinâmica soa familiar. Celinda Lake, pesquisadora veterana do partido, diz que o problema começa na forma como economistas e eleitores usam as mesmas palavras com sentidos distintos. 'Quando economistas dizem que a inflação caiu, eles querem dizer que a taxa de aumento caiu', afirma. 'Quando eleitores dizem que a inflação caiu, eles querem dizer que o preço voltou ao que era antes. Bem, claro, isso nunca volta ao que era.'

A administração Biden passou boa parte de 2024 destacando baixo desemprego, crescimento sólido e inflação em queda. Ainda assim, muitos eleitores permaneceram concentrados nos preços mais altos que enfrentavam no cotidiano. Lake, que assessorou a campanha de Biden em 2020 mas não esteve envolvida na corrida de 2024, afirma que os eleitores julgam a economia pela experiência pessoal, não pelos indicadores. 'Você não consegue discutir com as pessoas sobre a realidade vivida por elas', diz.

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Getty Images US President Joe Biden at a campaign event at Renaissance High School on July 12, 2024 in Detroit, Michigan. He wears a blue s… · Foto: BBC

Essa dinâmica ajuda a explicar por que o desafio de Trump se parece tanto com o de Biden.

O efeito Trump

Os críticos de Biden o responsabilizaram pela inflação, mas ele podia apontar para forças em grande parte fora de seu controle, como a pandemia e os choques nas cadeias de suprimento. Trump tem menos espaço para esse tipo de defesa.

Alguns economistas argumentam que os preços mais altos de hoje resultam, ao menos em parte, das próprias políticas do presidente, incluindo as tarifas, além do impacto econômico da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. Peter Morici, economista da Universidade de Maryland alinhado aos republicanos, afirma: 'A inflação é claramente rastreável a Donald Trump. São as tarifas dele e a guerra. As pessoas sabem disso. Elas veem isso.'

As tarifas do chamado 'Liberation Day', anunciadas em abril de 2025, adicionaram custos para os consumidores. Um estudo do Federal Reserve Bank de Nova York apontou que as tarifas elevaram os preços de bens de consumo em cerca de 2,9%.

O impacto poderia ter sido maior se Trump não tivesse, depois, pausado algumas tarifas, fechado novos acordos comerciais e sido impedido pela Suprema Corte de usar poderes de emergência para impor várias outras. Em seguida veio outro choque: o conflito com o Irã pressionou os preços do petróleo para cima, elevando o custo da gasolina e adicionando pressão sobre os orçamentos domésticos.

A Casa Branca aponta cortes de impostos, criação de empregos e queda nos preços de medicamentos sob prescrição como evidências de que a administração está entregando resultados para as famílias americanas. E vem adotando, cada vez mais, políticas voltadas a aliviar essas pressões — um reflexo de uma realidade política conhecida por ambos os partidos: quando os eleitores estão ansiosos com os preços, argumentos sobre crescimento sólido e baixo desemprego raramente bastam.

Biden nunca encontrou forma de superar o descompasso entre desempenho econômico e percepção pública. A pergunta, às vésperas das eleições de meio de mandato, é se Trump conseguirá.

O que isso significa para o investidor

Para quem acompanha ativos americanos, o episódio reforça um ponto recorrente: dados macro favoráveis — crescimento de 2,2%, desemprego em 4,2% e bolsa perto de recordes — não eliminam o risco político quando a percepção popular sobre inflação permanece negativa. Esse descolamento entre indicadores e sentimento pode se traduzir em maior volatilidade política em torno das eleições de meio de mandato, com potenciais reflexos sobre a agenda comercial e tarifária dos Estados Unidos.

O fato de analistas como Peter Morici associarem a pressão inflacionária às tarifas do 'Liberation Day' e ao conflito no Oriente Médio é um sinal a monitorar: qualquer sinalização de recrudescimento tarifário ou escalada no conflito com o Irã tende a repercutir em preços de energia e, por consequência, em expectativas de inflação nos EUA — variável relevante para quem opera renda fixa, câmbio e ativos atrelados ao dólar.

Vale acompanhar também os próximos relatórios de inflação e emprego americanos, assim como o desfecho político das eleições de meio de mandato, como termômetros para a continuidade ou ajuste da política tarifária e fiscal da administração Trump. Para o investidor brasileiro, o episódio é um lembrete de que a leitura de mercado sobre os EUA não pode se apoiar apenas em indicadores agregados, mas precisa considerar o risco de reação política a um descontentamento popular persistente com o custo de vida.

Agregado por AAR News · fonte: BBC

Texto reescrito pela redação AAR com assistência de IA · confira a fonte · como produzimos