Durante anos, trocar de emprego nos Estados Unidos funcionou como uma das principais defesas dos trabalhadores contra a perda de poder de compra. Esse mecanismo está perdendo força, de acordo com reportagem da CNN que reúne dados da processadora de folhas de pagamento ADP, da Bureau of Labor Statistics (BLS) e relatos de trabalhadores americanos.
O caso de Shannon Ratcliff ilustra a mudança. Em experiências anteriores, trocar de emprego costumava vir acompanhado de um aumento salarial. Neste ano, porém, sua nova posição significou um corte de US$ 20 mil em relação ao que ela recebia antes. Segundo a CNN, Ratcliff descreve a nova função como uma boa oportunidade e espera recuperar o espaço perdido com o avanço na carreira, mas a queda de renda pesa para sua família de cinco pessoas em um momento de preços em alta.
“Tudo está ficando mais caro, mas o dinheiro que trazemos para casa é cada vez menor”, disse ela à CNN.
O prêmio por trocar de emprego encolheu
Segundo dados da ADP citados pela reportagem, em setembro o aumento mediano no salário-base de quem trocou de emprego foi de 4,8%, contra 3% para quem permaneceu no mesmo posto. Essa diferença entre os dois grupos não ultrapassa 2 pontos percentuais há quase dois anos.
Para efeito de comparação, a reportagem lembra que esse gap chegou a superar 7 pontos percentuais durante o boom de contratações do pós-pandemia e ficava acima de 3,5 pontos percentuais no período pré-pandemia. Ou seja, o espaço extra que a troca de emprego costumava garantir em relação a quem ficava parado encolheu de forma significativa.
“Trocar de emprego dá um impulso pontual, mas ainda não é suficiente para acompanhar a inflação no ritmo em que a estamos vendo agora”, afirmou à CNN Nela Richardson, economista-chefe da ADP.
A reportagem destaca que os preços no país continuam subindo de forma mais acelerada do que o normal, o que reduz a margem de manobra de quem muda de emprego: mesmo com ganho salarial, esses trabalhadores não contam mais com a folga que tinham antes. Segundo a matéria, no período pré-pandemia essa diferença entre o ganho dos que trocavam de emprego e a inflação chegava a cerca de 5 pontos percentuais.
Um mercado de trabalho mais parado
A dinamismo do mercado de trabalho — a capacidade de trabalhadores encontrarem as melhores oportunidades e de empregadores encontrarem os melhores candidatos — é um ingrediente importante tanto para o mercado de trabalho quanto para a economia como um todo, segundo Richardson, já que impulsiona inovação, produtividade e crescimento.
No entanto, segundo dados de rotatividade da BLS citados na reportagem, o mercado de trabalho americano tem vivido um período de relativa estagnação. A taxa de contratações (hiring como proporção do total de emprego), um indicador de demanda por trabalho, está em níveis mínimos da década, descontado o período de pandemia. Já a taxa de pedidos de demissão (quits rate), que reflete a confiança dos trabalhadores em encontrar uma nova posição, está perto da mínima em seis anos.
O crescimento de empregos no ano passado foi um dos mais fracos já registrados. Neste ano os ganhos de emprego melhoraram, com a economia adicionando em média 68 mil postos por mês, ante menos de 10 mil por mês em 2025. Ainda assim, segundo dados da BLS citados pela CNN, o ritmo permanece bem abaixo das médias históricas.
A reportagem atribui a contratação enfraquecida a uma combinação de fatores: incerteza generalizada, redução da oferta de mão de obra, preços do petróleo mais altos, incerteza geopolítica, inflação persistente, custos de empréstimo mais elevados e a rápida adoção de tecnologias de inteligência artificial.
Esse cenário deixou os trabalhadores mais inseguros quanto à estabilidade no emprego. Segundo a CNN, em setembro o Employee Confidence Index da Glassdoor caiu para uma nova mínima histórica — a terceira mínima do tipo registrada em 2026 para esse índice, que existe há dez anos.
Daniel Zhao, economista-chefe da Glassdoor, disse à época da divulgação do relatório, no fim de setembro, que esse sentimento no fundo do poço também reflete o acúmulo de seis anos de crises enfrentadas pelos trabalhadores, incluindo a pandemia global.
O custo (não só financeiro) de trocar de emprego
Richardson pondera que o processo de buscar uma nova posição nunca foi isento de custos. “Você tem que atualizar seu currículo, precisa se cadastrar em site de vagas, fazer múltiplas entrevistas, o que pode significar tirar dias de folga do trabalho atual”, disse à CNN. “Mas, particularmente em um mercado de trabalho com poucas contratações e poucas demissões, o processo demora mais, porque os empregadores estão sendo mais seletivos.”
Isso é especialmente verdadeiro quando o mercado está mais instável. “Um aumento de 2% vale a pena por tudo o que você precisa fazer para entrar em uma nova empresa? E 3%?”, questionou Richardson. “Você certamente pode dizer que 16% vale a pena, mas tem que existir um mínimo abaixo do qual a pessoa prefere ficar onde está nessa economia um pouco volátil, sem saber o que vai acontecer. Ficar com o mesmo empregador parece ser o que as pessoas, de modo geral, estão fazendo.”
Relatos de quem está buscando emprego
A busca de Shannon Ratcliff durou seis meses e seis dias — praticamente a média nacional, segundo dados da BLS citados pela reportagem — depois de ser demitida no início de dezembro do ano passado. Sem sucesso em conseguir entrevistas para vagas de finanças e contabilidade, ela migrou para a área de recursos humanos e obteve certificações no processo, o que a ajudou a conquistar a posição que ocupa hoje.
Já Jorena Collins, redatora técnica sênior no Colorado, descreveu à CNN uma busca de nove meses, que classificou como “brutal”, encerrada com uma posição por contrato que paga cerca de metade do que ela recebia dois anos atrás.
“Já construí uma carreira do zero duas vezes, mas o mercado não é mais o que era; e tem sido muito desanimador”, escreveu Collins à CNN, em resposta a uma consulta do veículo sobre trocas de emprego.
Collins contou que, em sua primeira carreira, trabalhou durante a faculdade para se formar em física, o que lhe abriu oportunidades como engenheira. Depois de se afastar do mercado de trabalho para criar os filhos, essa lacuna limitou suas chances na engenharia, levando-a a reconstruir a carreira como redatora técnica.
“Subi de posição em algumas das maiores empresas de tecnologia e acabei ganhando mais do que jamais ganhei como engenheira”, escreveu ela. “Isso foi há alguns anos. Agora, com a IA assumindo mais tarefas de redação técnica, tem sido difícil encontrar trabalho.”
Em entrevista por telefone posterior, Collins falou sobre o desgaste do período. “Os últimos nove meses foram simplesmente angustiantes”, disse, com a voz carregada de emoção, segundo a CNN. Durante esse tempo, contas médicas se acumularam, e ela hoje está em uma situação em que ganha demais para o Medicaid, mas não o suficiente para pagar um plano de saúde particular.
Ela disse se sentir grata pela posição que conseguiu, especialmente porque sua área — e muitas outras — está sendo remodelada pela adoção de inteligência artificial, mais uma força com a qual quem busca emprego precisa lidar. Collins, que usa IA tanto na vida pessoal quanto no trabalho, afirmou enxergar grande potencial na tecnologia, mas defendeu mais governança e salvaguardas para proteger contra riscos e lidar com os efeitos da perda de empregos.
“Acho que o mundo inteiro vai estar na mesma posição. Acho que estou sendo afetada primeiro. Acho que vamos ficar melhores em trocar de emprego à medida que o mundo muda — e em nos adaptar”, disse ela à CNN. “Mas agora é difícil tentar adivinhar que emprego pode durar alguns anos antes que a IA assuma.”
O que isso significa para o investidor
Para quem acompanha os Estados Unidos a partir do Brasil, os números da ADP e da BLS reunidos pela CNN apontam para um mercado de trabalho mais travado, com menos rotatividade voluntária e salários de quem muda de emprego perdendo parte da vantagem histórica sobre quem permanece no cargo. Esse tipo de sinal costuma ser acompanhado de perto por quem monitora política monetária americana, já que o comportamento de salários e contratações integra o conjunto de dados observado nas decisões do Federal Reserve.
A combinação descrita na reportagem — taxas de contratação em mínimas da década (fora o período de pandemia), taxa de pedidos de demissão perto da mínima em seis anos e confiança dos trabalhadores em mínima histórica segundo a Glassdoor — sugere um mercado de trabalho mais cauteloso, em que tanto empresas quanto trabalhadores adotam postura defensiva. Para o investidor, esse tipo de dado funciona como termômetro do ritmo de atividade econômica nos EUA, com reflexo potencial sobre consumo e, por consequência, sobre ativos globais.
Vale observar também o fator mencionado repetidamente pelos entrevistados da CNN: a adoção acelerada de inteligência artificial como elemento que reconfigura funções inteiras, caso da área de redação técnica citada por Jorena Collins. Esse é um tema que já vem pautando a avaliação de empresas de tecnologia e de setores expostos à automação, e tende a continuar no radar de quem investe em ações americanas ligadas a IA e produtividade.
Por ora, a reportagem não traz dados específicos sobre o impacto desses números no mercado financeiro, mas o enfraquecimento do prêmio salarial por troca de emprego e a maior rigidez na contratação são variáveis que vale acompanhar nos próximos indicadores de emprego dos EUA, que seguem entre os principais referenciais para o apetite a risco global.
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