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Texas, capital do petróleo nos EUA, vira líder em energia solar

Estado ultrapassou a Califórnia na geração solar e já supera o carvão em alguns meses, segundo reportagem da BBC

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O Texas, historicamente identificado como o maior produtor de petróleo dos Estados Unidos, tornou-se neste ano o estado líder em geração de eletricidade a partir de fazendas solares, superando a Califórnia, segundo reportagem da BBC. O movimento reconfigura a matriz energética de uma região conhecida pela cultura do petróleo e do gás.

Segundo a Administração de Informação sobre Energia dos EUA (EIA), citada pela BBC, em março do ano passado a energia solar gerou mais eletricidade no Texas do que o carvão pela primeira vez na história do estado. O dado marca uma inversão simbólica para uma economia regional fortemente associada a combustíveis fósseis.

O avanço do sol no estado do petróleo

De acordo com Mark Stover, diretor-executivo da Texas Solar and Storage Association, em tardes quentes, quando a demanda por energia atinge o pico, a geração solar já responde regularmente por cerca de um terço da eletricidade consumida no Texas, segundo a BBC.

Stover atribui o crescimento do setor a dois fatores principais: a facilidade e a rapidez para conectar novas fazendas solares à rede elétrica do Texas, que opera de forma independente do restante do país, e o apetite crescente do estado por eletricidade, impulsionado pelo aumento populacional.

A reportagem cita dados segundo os quais a população do Texas cresceu 15,8% entre 2015 e 2025, tornando o estado um dos que mais crescem no país. "Precisamos de muita energia no Texas, e precisamos dela rapidamente", afirmou Stover à BBC.

Os agricultores como peça central da expansão

A reportagem da BBC detalha a história de Steve Cargil, de 67 anos, cuja família cultiva terras na região de Uvalde, no sudoeste do Texas, desde 1953. Segundo o relato, uma tempestade de granizo violenta em 2018 destruiu da noite para o dia safras de repolho e cebola em que Cargil e seu filho Ryan haviam trabalhado por meses.

Diante da relutância de seus três filhos em assumir integralmente a fazenda e da ausência de uma aposentadoria tradicional para agricultores, Cargil via incerteza sobre o futuro da propriedade. Em 2001, ele firmou um contrato de arrendamento de 600 acres de sua terra — cerca de um quarto do total — com a empresa OCI Energy, que construiu uma extensa fazenda solar no local.

"Nunca, nem nos meus sonhos mais loucos, pensei que um projeto solar estaria na minha fazenda", disse Cargil à BBC, classificando o acordo hoje como uma bênção. O arrendamento, que lhe paga US$ 200 mil (£150 mil) por ano, permitiu que ele mantivesse a atividade agrícola mesmo durante uma seca severa, concentrando a cota de irrigação disponível nas áreas que ainda cultiva e aliviando a pressão de custos como diesel e fertilizantes. "Mudou minha vida", afirmou.

Stover afirmou à BBC que o setor vem distribuindo renda multigeracional a famílias de agricultores por meio de contratos que normalmente duram entre 25 e 30 anos e têm valor reajustado anualmente, permitindo a alguns se aposentar, constituir fundos familiares ou simplesmente manter a fazenda financeiramente viável. Ele argumenta ainda que o impacto territorial do setor é menor do que críticos supõem, afirmando que a indústria solar utiliza menos de 0,15% da área do Texas.

Preço e vantagem competitiva do sol

James Scott, vice-presidente de desenvolvimento de projetos da OCI, disse à BBC que anos de ganhos incrementais na manufatura de painéis solares reduziram os custos da tecnologia a ponto de torná-la hoje a forma mais barata de gerar eletricidade no estado. "Ninguém teria acreditado nisso há 20 anos", afirmou.

Segundo Scott, uma vez construído, um projeto solar pode ter o preço da eletricidade fixado por décadas, já que o combustível — a luz solar — é gratuito. Ele citou a possibilidade de contratos do tipo "cobraremos US$ 40 por megawatt-hora pelos próximos 25 anos", destacando que grandes compradores, como Amazon e Apple, valorizam a capacidade de travar um preço por esse período.

Em contraste, segundo a Administração de Informação sobre Energia citada pela reportagem, novas usinas a carvão nos Estados Unidos produzem energia a um custo próximo de US$ 90 por megawatt-hora.

Resistência local em Franklin County

Nem todos recebem a expansão solar com entusiasmo. No condado de Franklin, no nordeste do Texas, um pequeno grupo de moradores vem resistindo ao crescimento do setor há alguns anos, segundo a BBC.

BF Hicks, advogado local cuja família possui terras no condado desde o século 19, relatou à BBC ter visto vizinhos assinarem contratos de arrendamento de 30 anos com empresas solares e tratores destruírem carvalhos centenários perto de sua propriedade. Ele descreveu um verão em que a fumaça da queima de terrenos limpos pairou sobre a cidade por semanas, e disse que a situação "ficou pessoal" quando uma fazenda solar foi construída ao lado do cemitério de sua família, onde parentes estão sepultados há cerca de dois séculos.

David Truesdale, agente federal aposentado que se mudou para o condado em busca de uma vida afastada da cidade, contou à BBC ter se engajado na causa após descobrir que um projeto solar vizinho seria instalado perto de sua casa sem exigência de avaliação ambiental, conforme a legislação texana. "Estamos destruindo o mundo enquanto tentamos salvá-lo", disse, referindo-se à limpeza de terrenos que presenciou. Ele também mencionou as grandes unidades de baterias de íon-lítio instaladas ao lado de muitas fazendas solares, comparando o risco a incêndios que já atingiram baterias semelhantes em bicicletas elétricas. "Se uma delas pega fogo, elas explodem em série, cada uma provocando a próxima", afirmou.

Segundo a reportagem, tanto Hicks quanto Truesdale afirmam que suas objeções não têm motivação política — Franklin County é um reduto conservador, mas seus moradores ajudaram a aprovar uma das primeiras moratórias municipais contra novas construções solares no estado, posteriormente revogada sob pressão legal de desenvolvedores. As queixas, segundo a BBC, refletem um desconforto mais amplo que acompanha a expansão solar em áreas rurais do Texas, envolvendo impacto visual, escoamento de água após desmatamento de terrenos e preocupações com unidades de armazenamento de baterias.

Política e apoio bipartidário

O presidente Donald Trump classificou a energia solar e eólica como "destruidoras de agricultores" e tomou medidas para desmontar créditos fiscais destinados a projetos renováveis, segundo a reportagem. Ainda assim, uma pesquisa da Fabrizio Lee and Associates, empresa usada pelo próprio Trump, encontrada em fevereiro, mostrou que 68% dos eleitores republicanos acreditam que o país precisa de "todas as formas de geração de eletricidade, incluindo energia solar em escala" para manter os custos sob controle.

Stover afirmou à BBC ter encontrado amplo apoio na legislatura estadual do Texas, controlada pelos republicanos. "Há uma aceitação de que essas tecnologias trazem benefícios de confiabilidade para a rede", disse.

De volta a Uvalde, Steve Cargil disse à BBC não ter planos de se aposentar tão cedo, mas se mostra mais otimista de que a fazenda possa chegar a uma quinta geração, agora que a fazenda solar deu uma base financeira mais sólida ao negócio. "É melhor ter sorte do que ser esperto", disse, repetindo uma frase do pai. "E este foi um dos casos em que eu simplesmente tive sorte."

O que isso significa para o investidor

A reportagem da BBC ilustra um ponto relevante para quem acompanha o setor de energia nos Estados Unidos: a transição solar no Texas não decorre de incentivo ideológico, mas de competitividade de custo e de velocidade de conexão à rede elétrica própria do estado, fatores que tendem a pesar mais do que o discurso político contra renováveis vindo da administração federal.

Para investidores expostos a empresas de energia solar, desenvolvedores de projetos ou fundos de infraestrutura energética, o caso texano sugere que contratos de longo prazo com preço travado — como os citados pela OCI Energy, de US$ 40 por megawatt-hora por 25 anos — seguem atraindo grandes compradores corporativos, o que pode sustentar a previsibilidade de receita do setor mesmo em ambiente de incerteza regulatória federal.

Ao mesmo tempo, a resistência local relatada em Franklin County — incluindo moratórias municipais, preocupações ambientais e riscos associados a baterias de armazenamento — é um sinal de que o avanço do setor não é linear e pode enfrentar atritos regulatórios em nível de condado, mesmo em estados favoráveis ao negócio como o Texas. Investidores devem monitorar como tensões entre comunidades rurais e desenvolvedores evoluem, já que elas podem afetar prazos de licenciamento e custos de projetos futuros.

Por fim, a divergência entre a retórica do governo federal contra energia renovável e o apoio mostrado por eleitores republicanos e pela legislatura estadual texana, segundo os dados citados pela BBC, indica que o mercado de energia solar nos EUA pode continuar crescendo por razões econômicas locais, independentemente de mudanças em créditos fiscais federais — um fator a observar para quem avalia risco político no setor de energia americano.

Agregado por AAR News · fonte: BBC

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