O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou nesta terça-feira uma multa superior a US$ 1,2 bilhão contra o Bank of America, segundo o qual a instituição descumpriu normas de combate à lavagem de dinheiro e de cumprimento de sanções internacionais.
De acordo com o órgão, o banco — segunda maior instituição financeira do país — não conseguiu mitigar nem reportar adequadamente riscos classificados como prioritários para a segurança nacional, incluindo redes chinesas de lavagem de dinheiro e fluxos financeiros ilícitos ligados à fronteira sudoeste dos EUA.
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, declarou que, quando um banco desse porte falha em cumprir suas obrigações de combate à lavagem de dinheiro e de sanções, as consequências ultrapassam os limites da própria instituição, expondo todo o sistema financeiro norte-americano a riscos relevantes de financiamento ilícito. Ele acrescentou que a ação de hoje envia uma mensagem clara: nem mesmo as maiores instituições financeiras estão acima da lei.
Em nota, o Bank of America informou que está trabalhando com os reguladores para chegar a uma resolução sobre as penalidades. Um porta-voz do banco afirmou que a instituição já investiu bilhões de dólares em tecnologia e destinou milhares de funcionários ao combate a crimes financeiros, e que sua equipe está em estágio avançado do trabalho necessário para resolver as questões levantadas pelos reguladores.
O mesmo porta-voz disse ainda que o banco continuará apoiando autoridades federais e locais em milhares de investigações, além de reportar centenas de milhares de relatórios de atividades suspeitas a cada ano.
Impacto nos resultados trimestrais
Segundo o porta-voz do Bank of America, a penalidade do Tesouro afetará os resultados do terceiro trimestre da companhia, que devem ser divulgados na quarta-feira. O executivo afirmou que os resultados trimestrais incluirão um encargo não dedutível de impostos de US$ 1,2 bilhão, com impacto de aproximadamente 17 centavos de dólar por ação no lucro líquido. Ele acrescentou que o banco já havia destinado pessoal e recursos substanciais aos esforços de correção em andamento, e que esses custos já constam da base de despesas atual.
Terceira maior multa da história do FinCEN
Conforme o material, a multa de US$ 1,2 bilhão é a terceira maior já aplicada pela Rede de Repressão a Crimes Financeiros do Tesouro (FinCEN), atrás apenas da multa recorde de US$ 3,4 bilhões contra a Binance em 2023 e da penalidade de US$ 1,3 bilhão contra o TD Bank em 2024. Nos dois casos anteriores, houve também ações do Departamento de Justiça — o que não ocorreu neste caso envolvendo o Bank of America.
A reportagem lembra que o segundo governo Trump tem adotado medidas contra grandes bancos relacionadas à prática de fechamento de contas por motivos considerados políticos, incluindo ordens executivas. Neste ano, o presidente Donald Trump também moveu uma ação pessoal de US$ 5 bilhões contra o JPMorgan Chase, alegando que o maior banco do país encerrou sua conta por razões políticas. Ainda assim, segundo o material, a multa contra o Bank of America é a maior penalidade por violação de normas antilavagem já imposta pelo Tesouro do governo Trump a um grande banco.
Do valor total da multa, US$ 750 milhões serão destinados ao Office of the Comptroller of the Currency (OCC) como penalidade civil — a maior já aplicada pelo órgão em sua história, segundo o Tesouro.
Falhas admitidas pelo banco
Como parte do acordo, o Bank of America admitiu que falhou deliberadamente em manter salvaguardas adequadas e em reportar atividades suspeitas, de acordo com o Departamento do Tesouro.
O órgão afirmou que o banco não respondeu de forma tempestiva e eficaz a sinais de alerta envolvendo clientes suspeitos, incluindo casos com ligações ao tráfico de entorpecentes, mesmo depois que equipes de compliance haviam escalado as preocupações internamente. Como resultado, a instituição — que processou mais de US$ 9 trilhões em transações no ano passado — deixou de reportar mais de US$ 5 bilhões em atividades suspeitas.
A CNN apurou que o sistema de triagem de sanções do Bank of America tinha uma falha de design que impedia a priorização adequada de determinadas transações potencialmente proibidas. Especificamente, quando uma transação correspondia ao nome e à data de nascimento de um indivíduo constante na lista de sanções do Tesouro dos EUA, o sistema do banco não sinalizava a operação como de alta prioridade. O Tesouro mantém uma lista com milhares de indivíduos e entidades — incluindo terroristas, traficantes de narcóticos e empresas sob sanções — cujos ativos podem ser bloqueados e que, em geral, estão proibidos de realizar transações com pessoas ou entidades dos EUA.
Segundo a reportagem, essas falhas podem causar danos a programas de sanções dos EUA, incluindo os voltados ao Irã e ao combate ao narcotráfico — o que, segundo a CNN apurou, foi o caso do Bank of America.
Críticas e reação do mercado
Dennis Kelleher, CEO da Better Markets, organização que defende regulação mais rígida para bancos, afirmou em comunicado que a multa de US$ 1,2 bilhão é pequena em comparação à receita do Bank of America. Segundo ele, bancos não descumprem leis — pessoas o fazem — e, enquanto essas pessoas, incluindo executivos e supervisores, não forem punidas de forma pessoal e significativa, com demissões, processos, multas e banimento do setor, esses crimes não serão interrompidos.
As ações do Bank of America (BAC) caíram mais de 2,5% no after-hours após o anúncio da multa.
Aaron Klein, ex-subsecretário assistente de política econômica do Departamento do Tesouro no governo de Barack Obama, afirmou que a OCC e o FinCEN estão enviando uma mensagem ao Bank of America e a todos os bancos: se o problema não for corrigido rapidamente, a multa será grande. Segundo Klein, os dois órgãos dispõem de diversas penalidades além das financeiras, podendo inclusive afastar profissionais não só do Bank of America, mas de todo o setor bancário.
Klein acrescentou que tudo o que a OCC está exigindo do Bank of America para fortalecer seu programa de compliance antilavagem tem custo financeiro, reduzindo a lucratividade do banco.
O que isso significa para o investidor
Para quem acompanha ativos financeiros globais, o episódio reforça um padrão observado em casos recentes de penalidades regulatórias contra grandes bancos: o custo imediato tende a ser absorvido nos resultados trimestrais, como já sinalizado pelo próprio Bank of America ao mencionar o impacto de 17 centavos de dólar por ação no lucro líquido do terceiro trimestre. Investidores expostos ao papel BAC devem monitorar de perto a divulgação de resultados prevista para a quarta-feira, já que o mercado já reagiu negativamente no after-hours, com queda superior a 2,5%.
Além do impacto pontual no balanço, a multa levanta questões sobre custos recorrentes de compliance. Como observado por Aaron Klein, fortalecer os controles exigidos pela OCC tem custo financeiro contínuo, o que pode pressionar margens de lucratividade do banco nos próximos trimestres — um fator relevante para quem avalia a tese de investimento de longo prazo na instituição.
O caso também sinaliza que o ambiente regulatório para instituições financeiras nos EUA segue rigoroso, mesmo sob um governo que tem adotado postura crítica a práticas bancárias como o chamado debanking. A ausência de ação conjunta do Departamento de Justiça neste caso específico, diferentemente dos precedentes da Binance e do TD Bank, pode ser um ponto a observar quanto ao desdobramento jurídico da questão.
Para investidores brasileiros com exposição a ativos financeiros globais ou a ETFs do setor bancário americano, o episódio reforça a importância de acompanhar não apenas os resultados trimestrais de grandes bancos, mas também o noticiário regulatório, que pode gerar volatilidade pontual e custos adicionais não recorrentes nos balanços dessas instituições.
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