Uma cidade inteira construída ao redor de uma única fábrica de papel enfrenta o risco de esvaziamento depois que negociações comerciais entre Canadá e Estados Unidos fracassaram e o presidente Donald Trump ampliou as tarifas sobre produtos canadenses, segundo reportagem da BBC. Em Témiscaming, na província de Quebec, a planta que dá nome e sustento à localidade está parada desde outubro, e a maior parte dos 360 funcionários ficou sem trabalho, mantida por enquanto com pagamento parcial via programas de alívio tarifário do governo.
A cidade, erguida há mais de um século às margens do rio Ottawa, nasceu em torno da fábrica e das florestas de pinheiro, bétula, abeto e pinheiro-silvestre da região, conta a BBC. Para moradores como Nadine Suley, o fechamento não representa apenas a perda de um emprego, mas de um modo de vida inteiro. Ela se descreve como alguém que não é de cidade grande e, como boa parte da comunidade, se prepara para a temporada de caça ao alce, brincando que todos vão precisar da carne gratuita dos animais neste ano.
Uma economia erguida em torno de uma fábrica
Suley disse à BBC que o emprego na fábrica "não é só um trabalho, é a nossa casa", e descreveu as tarifas americanas sobre a cidade como "um ataque pessoal". No início de outubro, a proprietária americana RYAM efetivou o que chamou de fechamento econômico da planta por um período indefinido. Os valores dos imóveis em Témiscaming caíram quase da noite para o dia, e placas de venda passaram a pontuar os quintais das casas modestas de classe média que compõem a maior parte do município, segundo a reportagem.
Há temor de que até trabalhadores de serviços essenciais — de atendentes de mercado a médicos do pequeno hospital local — também acabem deixando a cidade. Ronnie Raymond, que como muitos ali vem de uma família de trabalhadores da fábrica, disse à BBC que, se a planta não voltar a funcionar, a cidade "vai virar uma cidade-fantasma", sem nenhum trabalho restante para ninguém. Segundo ele, a situação é assustadora.
Um país com estatísticas estáveis, mas bolsões de dor aguda
Em nível nacional, a economia canadense tem resistido à guerra comercial com os Estados Unidos, seu maior cliente, com taxa de desemprego relativamente estável em torno de 6,5% desde a implementação das tarifas de Trump, combinada a um crescimento econômico modesto, porém consistente, segundo a BBC. Mas um olhar mais de perto revela bolsões de sofrimento concentrado em setores diretamente atingidos por tarifas de até 50%, como aço, alumínio, automóveis e, no caso de Témiscaming, madeira, celulose e papel. Isso levanta questionamentos sobre se o governo de Mark Carney está fazendo o suficiente para amparar quem sofre enquanto um acordo comercial segue fora de alcance.
Stéphane Lefebvre, funcionário e líder sindical cujo pai e avô também trabalharam na fábrica, afirmou à BBC que, se houvesse uma perda de emprego equivalente em Toronto, Montreal, Quebec City ou Vancouver, o assunto estaria em todos os noticiários e haveria muito mais pressão sobre os governos para agir. Segundo ele, essa dor econômica pode se espalhar por toda a cadeia florestal da região, incluindo serrarias e transportadoras. Um empreiteiro local relatou à BBC que já precisou demitir 13 pessoas em razão do impacto.
A tentativa de repetir a história de 1973
A última vez que a cidade enfrentou uma ameaça existencial dessa magnitude foi em 1973, quando o então proprietário americano da fábrica ameaçou fechá-la, levando trabalhadores e gestores locais a se unirem para comprá-la. Essa mobilização deu origem à Tembec, companhia de capital quebequense com operações em vários pontos da América do Norte e na França, segundo a BBC. Agora, os trabalhadores esperam repetir o feito, organizando uma coalizão de moradores interessados em recomprar a planta da RYAM, que a adquiriu em 2017.
"Estamos esperando que o raio caia duas vezes", disse Lefebvre à BBC, no salão sindical da cidade. Ele argumenta, porém, que essa recompra não é viável sem apoio relevante do primeiro-ministro Mark Carney e do governo de Quebec, seja na forma de alívio tarifário, seja em suporte financeiro direto. Suley destacou à reportagem que Carney tem enfatizado o discurso de "comprar local" e apoiar trabalhadores canadenses desde que foi eleito, e que apoiar a recompra da fábrica pela comunidade seria uma forma concreta de cumprir essa promessa. Em mensagem à BBC, a RYAM informou que não comentaria sobre uma eventual venda da planta nem sobre possíveis compradores.

"Pistolas de água" contra tarifas de 50%
O prefeito Alain Gauthier disse à BBC que não culpa a RYAM pela decisão, classificando as tarifas americanas como uma espécie de bomba lançada contra a manufatura canadense. Ele defende que Ottawa retalie com tarifas próprias sobre produtos de madeira importados dos Estados Unidos, atualmente isentos de taxação. Segundo o prefeito, embora políticos falem em guerra econômica com os EUA, na prática não há evidência nenhuma de medidas de guerra sendo adotadas — ele resumiu a situação à BBC dizendo que o Canadá entrou nesse confronto com "pistolas de água de criança" para revidar.
Lefebvre também sente que o setor florestal ficou em segundo plano na defesa de indústrias tarifadas em comparação com aço e automóveis. Neste mês, a ministra da Indústria, Mélanie Joly, ameaçou a Stelco — uma das maiores siderúrgicas do país — com penalidades financeiras ou venda forçada de ativos caso a empresa siga adiante com planos de demitir cerca de 500 trabalhadores em razão da pressão tarifária sobre o aço. A Stelco, com operações em Hamilton, perto de Toronto, pertence à americana Cleveland-Cliffs, que havia se comprometido a manter empregos no Canadá ao comprar a companhia em 2024.
Ajuda bilionária para Ontário, incerteza para Quebec
Na semana anterior à publicação da reportagem, Carney e o premiê de Ontário, Doug Ford, anunciaram quase C$9 bilhões (US$ 6,4 bilhões; £4,8 bilhões) para apoiar os setores de aço e automóveis da província, recursos destinados a modernizar as indústrias, fortalecer a demanda doméstica e abrir novos mercados no exterior, segundo os próprios anúncios citados pela BBC. Sébastien Lemire, deputado federal por Témiscaming pelo Bloco Québécois, disse à reportagem estar "muito preocupado" com o que classifica como inação do governo Carney em apoiar a cidade e a indústria florestal de Quebec de forma mais ampla.
Um porta-voz da ministra Joly afirmou à BBC que o governo disponibilizou $400 milhões para apoiar o setor florestal em áreas rurais e remotas, além de ter lançado um programa para ajudar empresas afetadas pelas tarifas a terem acesso a fluxo de caixa enquanto buscam se afastar da dependência do mercado americano. Sobre a situação específica da fábrica de Témiscaming, o porta-voz disse que o governo está trabalhando ativamente com todas as partes envolvidas para encontrar uma solução viável, administrando de forma responsável o dinheiro público. Moradores da cidade já realizaram um ato organizado pelo sindicato em apoio aos trabalhadores da fábrica e para chamar atenção ao sofrimento da indústria madeireira.
A origem imediata da crise remonta a agosto, quando, após o colapso das negociações comerciais, os Estados Unidos impuseram tarifas de 50% sobre cerca de C$28 bilhões em produtos canadenses, incluindo madeira e itens de papel como celulose, papelaria e caixas, segundo a BBC.
O que isso significa para o investidor
Para quem acompanha ativos ligados ao Canadá, o caso de Témiscaming ilustra como tarifas setoriais de até 50% concentram dano em cadeias específicas — madeira, celulose e papel — mesmo quando indicadores nacionais, como o desemprego estável perto de 6,5% citado pela BBC, não captam o estresse localizado. Investidores expostos a siderurgia, alumínio, automóveis e papel e celulose canadenses fazem bem em monitorar não apenas médias macro, mas a evolução caso a caso de empresas e municípios diretamente tarifados, já que o padrão de resposta do governo Carney parece seguir critérios de visibilidade política, como sugere a comparação feita pelo sindicalista Stéphane Lefebvre entre o tratamento dado a grandes centros urbanos e a cidades pequenas como Témiscaming.
O pacote de quase C$9 bilhões anunciado para o setor de aço e automóveis em Ontário, somado à ameaça regulatória da ministra Mélanie Joly contra a Stelco, mostra que o governo federal está disposto a intervir com força quando o impacto político e eleitoral é mais visível — um padrão que investidores em ativos industriais canadenses devem considerar ao avaliar onde o apoio estatal provavelmente chegará primeiro. Já o caso da indústria florestal de Quebec, com apenas $400 milhões anunciados para áreas rurais e remotas segundo o governo, sugere um ritmo de resposta mais lento para setores fora dos grandes centros, o que pode significar risco adicional de consolidação ou fechamento de ativos menores no segmento de papel e celulose.
A reportagem também expõe uma dinâmica política mais ampla sobre como tarifas comerciais são negociadas, concedidas ou mantidas conforme pressão de diferentes grupos — tema que ecoa denúncias recentes nos próprios Estados Unidos. Em outubro de 2026, a AAR News noticiou que o deputado democrata Jamie Raskin cobrou do governo Trump documentos sobre isenções tarifárias concedidas a setores como carne brasileira, diamantes e smartphones, associando o tema a doações recebidas pelo presidente. Para o investidor internacional, o episódio de Témiscaming reforça que decisões tarifárias nos EUA seguem sendo um fator de risco político tão relevante quanto econômico, capaz de redesenhar de forma abrupta a viabilidade de operações inteiras — e de gerar, do outro lado da fronteira, pressão crescente por medidas de retaliação ou resgate que ainda não têm desfecho definido.
Agregado por AAR News · fonte: BBC
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