Mundo · Geopolítica

Rússia acusa Ucrânia de atacar refinaria após Zelensky anunciar fim de trégua energética

Presidente ucraniano diz ter suspendido ataques à infraestrutura russa por três dias, mas retoma ofensiva após bombardeios de Moscou

Rússia acusa Ucrânia de atacar refinaria após Zelensky anunciar fim de trégua energética
BBC

Ler na fonte → BBC

A Rússia acusou a Ucrânia de atacar nesta quinta-feira uma refinaria de petróleo em seu território, horas depois de o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky declarar que os ataques a instalações energéticas russas — suspensos por iniciativa própria a pedido dos Estados Unidos — seriam retomados. A informação é da BBC, que cobriu em primeira mão a escalada diplomática e militar dos últimos dias.

Segundo a correspondente da BBC Sarah Rainsford, Zelensky afirmou ao Financial Times que havia restringido os ataques por três dias enquanto a Rússia seguia atingindo a infraestrutura energética ucraniana. Ao jornal, ele declarou: "We're done" (algo como "chega", em tradução livre), sinalizando o fim da trégua unilateral.

Acusações cruzadas sobre a refinaria

O presidente russo Vladimir Putin afirmou que Kiev também teria tentado atingir refinarias na quarta-feira, acusação negada pela Ucrânia, embora Putin tenha dito que não houve dano significativo. Já o Kremlin classificou o episódio desta quinta como uma tentativa de ataque em larga escala contra uma refinaria ao sul de Moscou.

De acordo com o ministério da Defesa russo, quatro mísseis e dezenas de drones foram interceptados, mas os destroços provocaram um incêndio na instalação localizada em Ryazan.

Zelensky acusa Washington de suspender inteligência

Zelensky acusou os Estados Unidos de terem retirado o compartilhamento de inteligência sobre ataques russos como forma de pressionar Kiev a encerrar suas próprias ofensivas. Ele disse ao Financial Times que autoridades ucranianas foram informadas por contrapartes americanas de que, caso os ataques não parassem, a inteligência seria bloqueada.

O Exército ucraniano depende de alertas antecipados dos Estados Unidos sobre ataques aéreos russos para montar sua defesa antiaérea, o que limita o sucesso dos bombardeios inimigos. Trump negou ter suspendido o compartilhamento de inteligência. A BBC procurou as autoridades americanas para comentar o caso.

Starlink e Starshield: funcionalidade parcialmente restaurada

Fontes de defesa ucranianas disseram à BBC que parte da funcionalidade dos serviços de satélite Starlink havia sido restaurada, especificamente a chamada "operation while on the move", integrante do serviço militar Starshield. Ainda não está claro, segundo essas fontes, se eventuais restrições à velocidade de voo de drones conectados ao Starlink foram totalmente removidas. Autoridades ucranianas seguiam apurando "as razões e circunstâncias" por trás da medida, segundo a reportagem.

Houve especulação de que um problema técnico teria causado as restrições repentinas ao Starlink na noite de terça-feira, mas o proprietário do serviço, Elon Musk, teria negado essa versão, sugerindo que a decisão partiu da administração Trump. Ao Financial Times, Zelensky afirmou: "It was not a technical problem, it was the will" — não foi um problema técnico, foi uma vontade. O Starshield, serviço irmão do Starlink, é fornecido à Ucrânia sob contrato com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos.

Reações europeias

Líderes europeus se manifestaram em apoio a Zelensky. O ministro da Defesa da Itália, Guido Crosetto, disse à BBC que seria "um erro completo" os Estados Unidos restringirem o compartilhamento de inteligência com Kiev, classificando essa cooperação como "uma forma fundamental de apoio" e afirmando que isso equivaleria a negar a um país qualquer chance de se defender.

Crosetto acrescentou que a paz só será alcançada quando Putin estiver convencido de que existe um impasse e que não pode mais avançar; mas, se perceber fraqueza no front ucraniano ou a retirada de recursos americanos, Putin considerará que pode vencer e manterá a guerra.

Zelensky se reuniu com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, no início de uma cúpula de dois dias de líderes europeus em Bruxelas nesta quinta-feira. Rutte afirmou que os dois discutiram a importância de implementar um cessar-fogo energético, além da continuidade do apoio da aliança à Ucrânia.

A trégua energética que não vingou

Zelensky já havia dito anteriormente que concordaria com a "trégua energética" anunciada pelo presidente americano Donald Trump no domingo, desde que Moscou também a respeitasse. Mas acusou a Rússia de ignorar a proposta poucas horas depois de seu anúncio, com ataques que deixaram centenas de milhares de ucranianos sem energia. O Kremlin, por sua vez, nunca afirmou ter aceitado formalmente o acordo.

Segundo a reportagem, esse acordo fazia parte de um esforço mais amplo de Trump para reduzir os preços de combustíveis nos Estados Unidos antes das eleições de meio de mandato, depois de meses lidando com as consequências políticas da guerra do Irã, que elevou os custos de combustíveis. Ao Financial Times, Zelensky comentou: "The question will be: when will the next deal be? Maybe it will be gas. Definitely it will be gas" — questionando quando viria o próximo acordo, e apontando o gás como tema provável.

Tensão entre Zelensky e Trump

Questionado pelo apresentador Piers Morgan na quarta-feira à noite, Zelensky admitiu sentir-se traído pelos Estados Unidos depois que Washington pareceu retirar elementos-chave de seu apoio. Em tom mais firme do que o habitual recentemente, ele disse ao Financial Times que o presidente americano demonstra afinidade por líderes autocráticos como Putin.

Zelensky afirmou que não cabe a ele reparar a relação entre Estados Unidos e Ucrânia diante dos acontecimentos da última semana, dizendo: "We didn't destroy any relationship" — não destruímos relação alguma. As tensões entre os dois líderes já haviam se intensificado antes: após o retorno de Trump à Casa Branca no ano passado, os dois protagonizaram um encontro tenso no Salão Oval, no qual Trump sugeriu que Zelensky seria o principal obstáculo a um acordo de paz. Desde então, o presidente ucraniano tem adotado uma linha diplomática cautelosa, mostrando disposição para acordos mediados pelos Estados Unidos ao mesmo tempo em que insiste que os termos de qualquer paz precisam ser justos.

Zelensky afirmou que só voltaria a suspender ataques contra a infraestrutura petrolífera russa — que Kiev considera vital para cortar fontes de receita da máquina de guerra russa — caso os Estados Unidos fornecessem mais mísseis de defesa aérea Patriot. A Ucrânia enfrenta escassez desses equipamentos americanos desde que a guerra do Irã consumiu estoques.

Ataques russos e vítimas

Zelensky disse que dezenas de cidades ucranianas foram alvo de ataques russos no último dia. Autoridades locais relataram ao menos 13 mortos em toda a Ucrânia na quarta-feira, no que o presidente chamou de ataque russo "constante" e em larga escala, com mais de 850 drones lançados contra dezenas de cidades e comunidades.

A região central de Kirovohrad registrou ao menos três mortes e sofreu seu maior ataque desde o início da invasão em escala total em 2022, com quase 360 drones lançados ao longo de um bombardeio de dez horas, segundo autoridades locais. Mortes também foram relatadas em Donetsk, Kherson e Volyn. Em Sloviansk, na região de Donetsk, duas pessoas morreram após ataques noturnos que destruíram vários prédios residenciais.

Em publicação nas redes sociais, Zelensky afirmou que a Rússia escalou deliberadamente esses ataques, aproveitando o afrouxamento de sanções e buscando pressionar a Ucrânia.

O que isso significa para o investidor

O episódio reforça um padrão que o mercado já vinha precificando: qualquer sinalização de trégua entre Rússia e Ucrânia tende a ser frágil e reversível em questão de dias, o que mantém elevado o prêmio de risco geopolítico sobre ativos ligados à energia europeia e aos mercados emergentes do Leste Europeu. A suspensão e posterior retomada parcial do apoio de inteligência e de conectividade via Starlink mostram como decisões de política externa americana continuam capazes de alterar rapidamente o equilíbrio do conflito — e, por extensão, a percepção de risco em carteiras expostas a defesa, energia e câmbio na região.

Para o investidor brasileiro, o desdobramento mais relevante é indireto: a disputa em torno de refinarias e infraestrutura energética na Rússia e na Ucrânia tende a manter voláteis os preços internacionais de petróleo e gás, tema que já havia pressionado a agenda de Trump nos Estados Unidos às vésperas das eleições de meio de mandato, segundo o material da BBC. Qualquer novo choque de oferta energética pode se transmitir a commodities e, por tabela, a moedas de países exportadores, incluindo o real.

Vale acompanhar três frentes nos próximos dias: se os Estados Unidos de fato restauram por completo o compartilhamento de inteligência e a funcionalidade do Starlink para a Ucrânia; se a cúpula da Otan em Bruxelas produz algum compromisso mais firme de apoio militar europeu; e se a menção de Zelensky a um possível novo acordo envolvendo gás se transforma em negociação concreta. Esses pontos, somados à continuidade — ou não — dos ataques a refinarias, serão determinantes para o apetite por risco em ativos ligados ao Leste Europeu e para o comportamento de preços de energia que afetam diretamente o custo de vida e a inflação no Brasil.

Agregado por AAR News · fonte: BBC

Texto reescrito pela redação AAR com assistência de IA · confira a fonte · como produzimos