O governo britânico anunciou a criação de um fundo de riqueza energética, batizado de Energy Wealth Fund, abrigado dentro do National Wealth Fund. O anúncio foi feito pelo chanceler John Healey durante o evento de aprovação da plataforma de gás Jackdaw, segundo reportagem da BBC.
A iniciativa reacende uma discussão antiga na política econômica do Reino Unido: por que o país nunca construiu um fundo soberano robusto a partir das receitas de petróleo e gás do Mar do Norte, ao contrário de países exportadores de energia, sobretudo no Golfo, e também da Noruega, que ao longo de décadas acumularam reservas nacionais expressivas com recursos da mesma fonte, segundo a BBC.
A fala do chanceler
Segundo a BBC, Healey afirmou que os recursos provenientes do petróleo e do gás que agora chegam ao país podem ser investidos em benefício das próximas gerações. Ele foi além e declarou: "se tivéssemos feito isso quando o petróleo do Mar do Norte foi descoberto, nos anos 1980, teríamos hoje um Fundo Soberano britânico que valeria provavelmente um trilhão de libras", de acordo com a reportagem.
O exercício do Tesouro
Pela primeira vez, segundo a BBC, funcionários do Tesouro britânico fizeram um exercício de modelagem interna para estimar o tamanho que esse fundo hipotético poderia ter alcançado. A conta parte da premissa de que as receitas históricas do Mar do Norte, de £200 bilhões, tivessem sido integralmente investidas, sem retiradas, e crescido a uma taxa comparável à obtida pela Noruega com seu próprio fundo.
Uma fonte do governo ouvida pela BBC disse que a Noruega "demonstra o poder do investimento de longo prazo" e que o governo britânico quer "aprender com esse princípio, em vez de copiar o modelo integralmente". A mesma fonte classificou a ausência histórica de um fundo britânico como uma "oportunidade perdida", afirmando que, caso as receitas tivessem sido sistematicamente investidas, o país "poderia ter construído um grande ativo nacional para as gerações futuras".
O debate sobre os anos 1980
A reportagem da BBC lembra que esse é um questionamento recorrente entre economistas críticos da era Margaret Thatcher. Na visão desses críticos, o pico das receitas do petróleo britânico teria sido consumido em cortes de impostos às vésperas de eleições, cujo efeito prático, segundo a BBC, teria sido financiar gastos de consumo da época, como reformas residenciais dos anos 1980.
Outros apontam que as receitas também teriam sido dissipadas em gastos públicos considerados pouco eficientes sob governos posteriores. A BBC destaca ainda que o fundo soberano norueguês só passou a operar de forma consistente a partir de 1996, o que relativiza comparações diretas entre as trajetórias dos dois países.
A ideia de um fundo petrolífero perdido também apareceu, segundo a reportagem, em argumentos usados por defensores da independência escocesa, além de ter sido sugerida por assessores governamentais já nos anos 1970.
Como funciona o modelo norueguês
A BBC relata que o jornalista responsável pela reportagem já visitou funcionários que administram o fundo soberano da Noruega, descritos como alvo frequente de críticas de cidadãos comuns nos trens de Oslo, que podem acompanhar em tempo real o valor do fundo nacional.
Segundo a reportagem, 3% do valor do fundo norueguês são sacados anualmente para financiar entre um quinto e um quarto do orçamento do governo do país, e essa reserva foi usada de forma mais intensa durante a pandemia de Covid-19. A função do fundo, segundo a BBC, é sustentar a economia e a sociedade norueguesas em uma fase pós-petróleo, papel semelhante ao de fundos equivalentes em países do Golfo.
Diferenças em relação ao modelo britânico
O novo fundo britânico, segundo a BBC, funcionará de maneira distinta do modelo norueguês. Enquanto a Noruega é obrigada a investir seus recursos no exterior — crescimento que se apoiou fortemente em participações em grandes empresas de tecnologia americanas —, o plano britânico prevê investimentos domésticos voltados à energia verde, o que, segundo a reportagem, pode limitar o desempenho futuro do fundo em comparação ao modelo norueguês.
A BBC observa ainda que as receitas tributárias ligadas à energia no Reino Unido devem diminuir à medida que a produção no Mar do Norte perde fôlego, embora esse ritmo de desaceleração possa se suavizar com a aprovação de Jackdaw e extensões de campos já existentes. Um ponto crítico citado pela reportagem é que o Estado norueguês mantém controle sobre suas empresas de petróleo, o que lhe garante participação direta nos lucros — estrutura que não tem equivalente direto no Reino Unido.
A reportagem também menciona que o investimento inicial do fundo norueguês, feito há três décadas, correspondia a dois bilhões de coroas norueguesas, valor hoje multiplicado em mais de mil vezes, segundo a BBC. Ninguém espera, segundo a reportagem, que o Energy Wealth Fund britânico, com seu aporte inicial de £2 bilhões, alcance uma trajetória de crescimento equivalente até 2056. A questão que fica, conclui a BBC, é o que poderia ter sido construído caso uma ideia semelhante tivesse sido adotada no Reino Unido décadas atrás.
O que isso significa para o investidor
Para quem acompanha ativos britânicos, o anúncio sinaliza uma mudança de postura fiscal: o governo reconhece publicamente que historicamente não capturou de forma estruturada as receitas de recursos naturais para formar poupança soberana, e tenta reverter isso com um veículo de investimento doméstico focado em energia verde. Isso pode abrir espaço para fluxo de capital público em projetos de transição energética no Reino Unido nos próximos anos, algo relevante para investidores expostos a infraestrutura e energia renovável britânica.
Ao mesmo tempo, a comparação com a Noruega, feita pela própria reportagem, expõe uma diferença estrutural importante: o fundo britânico não terá a obrigação de investir no exterior nem o controle estatal sobre as petrolíferas que sustenta o modelo norueguês. Isso sugere que o Energy Wealth Fund deve ter escala e dinâmica de retorno muito distintas das de fundos soberanos consolidados, o que recomenda cautela em qualquer expectativa de que ele se torne, no curto ou médio prazo, um ativo comparável aos grandes fundos internacionais citados na reportagem.
Vale também observar o pano de fundo fiscal: a BBC menciona que a produção de petróleo e gás do Mar do Norte tende a perder força ao longo do tempo, ainda que a aprovação do projeto Jackdaw possa atenuar esse declínio. Investidores com exposição a ativos de energia britânicos devem monitorar como o governo equilibrará a criação desse novo fundo com a trajetória declinante das receitas fiscais ligadas ao setor, já que isso afeta diretamente a capacidade de capitalização futura do veículo anunciado.
Agregado por AAR News · fonte: BBC
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