A estrutura regulatória criada pela SEC (Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos) para negociação de ações tokenizadas parecia, há cerca de um mês, um caminho rápido para levar papéis americanos para trilhos de blockchain. O primeiro teste prático, no entanto, não tem sido tão animador quanto se esperava, segundo reportagem do CoinDesk.
Um número crescente de companhias abertas tem se recusado a permitir que suas ações sejam negociadas na plataforma de valores mobiliários tokenizados em construção pela OKX em parceria com a Intercontinental Exchange (ICE), controladora da bolsa de Nova York (NYSE).
Segundo o CoinDesk, a leva de objeções desta semana incluiu nomes de peso: Microsoft, Alphabet, Goldman Sachs, McDonald's e outras três empresas na segunda-feira, seguidas por Wells Fargo, Cisco e mais quatro companhias na sexta-feira. Com essas adesões, o total divulgado de emissores que rejeitaram a listagem na plataforma OKX-ICE chegou a 22.
Ver gigantes globais dizendo não à iniciativa não é exatamente a largada que os defensores da tokenização gostariam de ver. Ainda assim, a reportagem do CoinDesk pondera que isso não representa necessariamente um golpe fatal no experimento conduzido pela SEC.
Por que a regra favorece a cautela
Pelo desenho regulatório, antes de iniciar a negociação das ações de uma empresa, a plataforma precisa notificar o emissor e conceder um prazo de 30 dias para que ele se manifeste contra. Se a companhia permanecer em silêncio, a negociação pode começar automaticamente.
Essa mecânica dá às empresas abertas um poder de veto sobre a tokenização de seus papéis por terceiros não afiliados, mas, ao mesmo tempo, empurra as decisões para o lado mais conservador. O escritório de advocacia global Latham & Watkins alertou emissores de que o silêncio se torna, na prática, uma decisão irrevogável: a ordem da SEC não prevê mecanismo para objetar depois do prazo de 30 dias nem para retirar uma não objeção anterior depois que a negociação já tiver começado.
Diante disso, quando uma equipe jurídica ou de relações com investidores recebe a notificação sobre uma estrutura de mercado ainda pouco conhecida, dizer não enquanto avalia os detalhes pode ser a escolha mais racional.
Dave Hendricks, CEO e fundador da empresa de tokenização Vertalo, disse ao CoinDesk que a maioria dessas companhias sequer sabia que um terceiro havia tokenizado suas ações até o aviso da OKX-ICE ser publicado. Segundo ele, uma vez cientes, as perguntas surgem rapidamente: quem custodia as ações por trás do token, como dividendos e votos chegam aos detentores finais, e o que o agente de transferências consegue enxergar no processo.
Hendricks afirmou que, se essas questões não puderem ser respondidas dentro dos 30 dias do prazo, objetar passa a fazer sentido do ponto de vista da empresa.
Olivia Vande Woude, responsável pela área de tokenização da Ava Labs, também pediu cautela na leitura da lista crescente de objeções, reforçando ao CoinDesk que não deve ser interpretada como um veredito contra a OKX-ICE especificamente. Segundo ela, trata-se da primeira plataforma a enviar notificações sob a isenção de inovação da SEC, e por isso é a primeira a colher esse tipo de resposta.
Como objetar não tem custo algum e o silêncio conta como consentimento, Vande Woude afirmou esperar que a lista continue crescendo. Em suas palavras ao CoinDesk, dada a facilidade do opt-out, é provável que o número de objetores continue aumentando, e a próxima plataforma a enviar notificações deve esperar resistência semelhante.

Para ela, isso pode significar menos que o experimento esteja fracassando e mais que esteja revelando algo relevante sobre o mercado. Vande Woude descreveu a isenção como um exercício de coleta de dados, que estaria mostrando que as companhias abertas querem ter voz sobre como suas ações migram para o universo on-chain.
O que vem a seguir
O caso da própria Nasdaq ilustra bem os limites do que essas objeções realmente significam. A operadora de bolsa tem sido defensora pública da tokenização e persegue seu próprio modelo para valores mobiliários tokenizados. Ainda assim, segundo o CoinDesk, a Nasdaq Inc., cujas ações são negociadas sob o código NDAQ, afirmou que pretende objetar à tokenização de seus próprios papéis nas plataformas de valores tokenizados sob a isenção vigente.
Essa postura reflete, segundo a reportagem, uma divergência sobre estrutura de mercado, e não uma rejeição à tokenização em si. A Nasdaq alertou que plataformas de valores tokenizados operando fora do Sistema Nacional de Mercado (NMS, na sigla em inglês) poderiam fragmentar a liquidez, enfraquecer a formação de preços e carecer de salvaguardas como exibição de melhor preço em tempo real e relatórios de fita consolidada. O modelo próprio da companhia mantém os valores tokenizados dentro da estrutura já existente das bolsas.
Há também uma questão mais direta para os emissores: qual é o benefício concreto para eles. Reid Noch, vice-presidente de estrutura de mercado de ações americanas da TD Securities, disse ao CoinDesk que o maior entrave é que o ganho para os emissores ainda é difícil de quantificar. Segundo ele, a tokenização poderia gerar demanda adicional por ações americanas, particularmente de investidores estrangeiros, mas a estrutura da SEC pode não gerar demanda nova suficiente para compensar os riscos de uma negociação rarefeita e contínua, 24 horas por dia, fora da estrutura de mercado tradicional.
Nem todo mundo está dizendo não, no entanto. A Securitize, especializada em valores mobiliários tokenizados, informou ao CoinDesk que não pretende objetar à sua inclusão na plataforma OKX-ICE. Um representante da custodiante de ativos digitais BitGo também afirmou, por e-mail, que a empresa não vai se opor à listagem.
Ambas têm interesse evidente em ajudar o mercado de ativos tokenizados a crescer, mas a resposta da Securitize também aponta para o que pode ser necessário para que companhias mais tradicionais se sintam confortáveis com o modelo. O CEO da Securitize, Carlos Domingo, disse haver um importante processo educativo em curso. Segundo a reportagem, a empresa tem se aproximado de emissores que já estão ou podem vir a se envolver com suas próprias ações tokenizadas, inclusive por meio de webinars que explicam os diferentes modelos de negociação, os direitos dos acionistas e as possíveis contrapartidas.
Esse parece ser o retrato mais claro do que vem a seguir: educação e tempo. A SEC pode ter removido uma barreira regulatória para a negociação de ações tokenizadas, mas deixar as companhias abertas confortáveis o suficiente para usar essa estrutura pode levar bem mais tempo.
O que isso significa para o investidor
Para quem acompanha o mercado de ativos digitais e a evolução da infraestrutura de capitais nos Estados Unidos, o episódio mostra que a tokenização de ações listadas avança, mas em ritmo ditado pelos próprios emissores, não pelos operadores de plataforma. A recusa de nomes como Microsoft, Alphabet e Goldman Sachs não encerra o debate, mas indica que grandes companhias preferem esperar clareza sobre custódia, direitos de voto e distribuição de dividendos antes de aceitar réplicas tokenizadas de seus papéis circulando fora do arcabouço tradicional.
O posicionamento da própria Nasdaq, que apoia a tokenização mas rejeita a versão de sua ação sob o modelo atual da SEC, reforça que o risco percebido está mais ligado à fragmentação de liquidez e à ausência de salvaguardas do Sistema Nacional de Mercado do que à tecnologia em si. Isso sugere que o investidor interessado nesse nicho deve acompanhar não apenas o número de objeções, mas também o desenho de modelos alternativos, como o que a própria Nasdaq está desenvolvendo dentro da estrutura de bolsa já existente.
Vale observar que, enquanto esse debate regulatório avança, o índice Nasdaq fechou em 25.955,34 pontos, com queda de 0,21% no dia, segundo dados do TradingView referentes a 24 de outubro de 2026, às 20h22 (horário de Brasília) — um lembrete de que o apetite do mercado acionário tradicional segue sendo o pano de fundo sobre o qual essas discussões de infraestrutura tokenizada se desenrolam.
Para investidores expostos a empresas como Securitize e BitGo, que sinalizaram apoio à iniciativa, o episódio reforça a tese de que o valor dessas companhias está atrelado à velocidade com que o mercado tradicional aceitar esse tipo de produto — um processo que, pelas falas colhidas pelo CoinDesk, deve ser medido em educação de mercado e tempo, não em adesão imediata.
Agregado por AAR News · fonte: CoinDesk
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