A combinação entre preços descontados nas ações e a perspectiva de corte na taxa Selic configura, segundo o fundador da AlphaKey, Christian Keleti, um dos momentos mais favoráveis para o mercado acionário brasileiro em um quarto de século. A avaliação foi dada durante participação no podcast Stock Pickers, conforme reportou o InfoMoney.
Keleti argumenta que o cenário local reúne uma assimetria pouco comum para papéis domésticos, beneficiados pela melhora das contas públicas e por sinais de estabilização da economia. Para ele, o momento de inflexão política somado à revisão das projeções de juros reforça o apetite por renda variável.
Segundo o gestor, oportunidades como essa são escassas: ele situa o momento atual entre as duas ou três maiores janelas de entrada no mercado acionário brasileiro observadas nas últimas duas décadas e meia, dada a magnitude da discrepância ainda existente entre o valor das companhias domésticas e seu potencial de valorização.
Juros altos pressionaram balanços, e corte pode destravar valor
De acordo com Keleti, diversas empresas listadas na Bolsa alcançaram níveis preocupantes de endividamento em função do patamar elevado da Selic. O custo do crédito corporativo atrelado ao CDI comprometeu a rentabilidade das companhias, forçando-as a destinar parcela relevante da geração de caixa ao pagamento de dívidas em vez de investimento ou distribuição de resultados.
O gestor avalia que a trajetória de controle da dívida pública, combinada à desaceleração da atividade econômica, cria espaço para que o Banco Central leve a taxa básica para a faixa entre 11% e 11,50%. Na leitura de Keleti, esse movimento de corte altera diretamente os modelos usados para precificar empresas, ampliando de forma significativa o potencial de retorno para quem está posicionado em bolsa.
O gestor nota que o primeiro impulso do mercado tem se concentrado nos papéis mais líquidos, puxado pelo ingresso robusto de capital estrangeiro. Para ele, esse movimento inicial tende a se espalhar, abrindo caminho para que ativos fora do índice principal também sejam beneficiados por uma seleção mais criteriosa. Nas palavras de Keleti, tanto as ações de menor peso no índice quanto os papéis de small caps devem começar a reagir.
Dinheiro parado na renda fixa pode migrar para ações
Outro fator citado por Keleti como propulsor do mercado acionário é o volume substancial de recursos hoje concentrados em aplicações de renda fixa no país — montante que cresceu nos últimos anos em razão do próprio ciclo de juros elevados. Para o gestor, à medida que o retorno dos títulos pós-fixados perder atratividade, parte desse capital tende a buscar a bolsa como alternativa.
Keleti pondera que mesmo uma fração pequena desses recursos — algo da ordem de meio a um ponto percentual do total hoje alocado em renda fixa — teria capacidade de direcionar um volume elevado de capital para o mercado acionário. Na visão do gestor, a combinação entre esse movimento de investidores locais e o fluxo simultâneo de capital estrangeiro tende a pressionar os preços dos papéis para cima, dado o número limitado de ações disponíveis para negociação.
O gestor condiciona, no entanto, a sustentação dessa valorização ao andamento efetivo das reformas econômicas e à consolidação das propostas fiscais em discussão no país. Ele ilustra o potencial de impacto citando um cenário hipotético: caso R$ 150 bilhões — ou mesmo metade desse valor, R$ 70 bilhões — migrem da renda fixa para ações por parte de investidores locais, o capital estrangeiro tenderia a acompanhar com aporte semelhante, de outros R$ 70 bilhões.
O que isso significa para o investidor
A leitura de Keleti se soma a um conjunto de avaliações recentes sobre o potencial da bolsa brasileira diante do ciclo de afrouxamento monetário. A Ágora, por exemplo, já havia apontado o descompasso entre os juros brasileiros e os americanos como gatilho para a migração de recursos à renda variável, mesmo com o Federal Reserve mantendo postura mais dura nos Estados Unidos, segundo cobertura do AAR News de 26 de setembro de 2026.
Vale lembrar que o movimento de corte de juros no Brasil já havia sido registrado em contraste com os Estados Unidos: enquanto o Fed subia juros e sinalizava novas altas, o Banco Central reduzia a Selic a 13,75%, conforme reportagem do AAR News baseada em dados do InfoMoney, de 19 de setembro de 2026. A trajetória desde então reforça a tese de queda estrutural da taxa básica mencionada por Keleti.
Para o investidor, a tese de Keleti sugere atenção não apenas às blue chips mais líquidas, que já capturaram parte do fluxo estrangeiro, mas também a ativos fora do índice principal e small caps, que segundo o gestor tendem a reagir em um segundo momento. Papéis citados em análises recentes do setor, como Eneva (ENEV3, cotada a R$ 31,41, alta de 1,95% no dia, conforme scanner da TradingView de 10 de outubro de 2026 às 8h41 BRT) e Vale (VALE3, a R$ 67,90, com alta de 0,38% no mesmo horário), ilustram como ativos domésticos e exportadores reagem a esse pano de fundo de juros e fluxo de capital.
Por fim, o cenário desenhado por Keleti é condicional: depende da efetiva aprovação de reformas fiscais e da continuidade do ciclo de corte de juros pelo Banco Central. Investidores devem monitorar tanto a velocidade da queda da Selic quanto sinais de migração efetiva de capital da renda fixa para a bolsa, já que a magnitude desse fluxo, segundo o próprio gestor, é o que determinará a intensidade da valorização dos ativos domésticos.
Agregado por AAR News · fonte: InfoMoney
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