Um levantamento encomendado pelo banco de Singapura DBS à consultoria EY constatou que a grande maioria das grandes empresas já colocou em prática, em algum grau, o uso de dinheiro tokenizado para gestão de caixa e pagamentos internacionais. Segundo o banco, 88% dos entrevistados relataram uso ao vivo ou projetos-piloto da tecnologia.
O resultado chama atenção porque indica que a tokenização de ativos financeiros deixou de ser experimento isolado e passou a compor, de fato, a infraestrutura de tesouraria de companhias com faturamento elevado em diferentes regiões do mundo.
Como foi o levantamento
A pesquisa ouviu 422 líderes de negócios e finanças em 11 mercados, incluindo Estados Unidos, China, Alemanha e Reino Unido. Todas as organizações participantes têm faturamento anual superior a US$ 500 milhões, segundo o estudo conduzido pela EY a pedido do DBS.
Do total de respondentes, 24% afirmaram ter implantado a tecnologia em escala, enquanto 43% relataram uso ao vivo limitado em mercados selecionados. Outros 21% estão em fase de pilotos ou provas de conceito, e 12% ainda exploram o tema ou não utilizam a tecnologia.
Stablecoins na liderança da adoção
Entre os instrumentos em uso ou planejados, as stablecoins aparecem na frente, citadas por 63% dos entrevistados. Em seguida vêm os depósitos tokenizados, com 53%, e os fundos do mercado monetário tokenizados, com 52%, de acordo com o levantamento.
Benefícios esperados e obstáculos
Pagamentos mais rápidos figuram entre os ganhos citados pelos participantes. Cerca de 71% dos entrevistados disseram já notar melhorias em pagamentos transfronteiriços em tempo real ou esperam percebê-las dentro de dois anos, enquanto 65% relataram expectativa semelhante para a gestão de liquidez de tesouraria. Além disso, 72% enxergam ou esperam melhor rastreabilidade nas transações no mesmo horizonte de dois anos.
Apesar do otimismo, incertezas regulatórias, riscos de segurança e dificuldades de integração continuam sendo entraves apontados pelas empresas. Quase dois terços dos respondentes, 64%, afirmaram querer que os bancos ofereçam um ponto único de acesso ao ecossistema de dinheiro tokenizado, enquanto 63% disseram buscar apoio para pilotos e integração tecnológica.
Lim Soon Chong, chefe global de serviços de transação do DBS, comentou o cenário de fragmentação enfrentado pelas empresas. "Para as empresas, a fragmentação pode adicionar complexidades e obrigações de conformidade", disse o executivo, acrescentando que o futuro será definido por novas formas de dinheiro e tecnologia, além de moldado por agentes de confiança capazes de orquestrar a movimentação de valor entre múltiplas redes.
O papel do próprio DBS e de outros bancos
O DBS não é apenas autor da pesquisa, mas também fornecedor da infraestrutura que ela avalia. O banco lançou em 2024 o DBS Token Services, serviço que conecta sua blockchain permissionada aos sistemas de pagamento para viabilizar liquidação e pagamentos ininterruptos, governados por condições pré-estabelecidas.
Outras instituições também relatam uso corporativo em produção. O Citi informou, em seu dia de investidores de maio, que centenas de clientes movimentavam perto de US$ 1 bilhão diariamente por meio do Citi Token Services, principalmente para gestão de liquidez e capital de giro.
Em setembro, DBS e Citi concluíram uma transação de fim de semana em dólares entre Singapura e Nova York usando depósitos tokenizados por meio do Swift Digital Ledger. Segundo o DBS, a operação foi liquidada em minutos, permitindo a movimentação de recursos fora do horário bancário tradicional.
O que isso significa para o investidor
Para quem acompanha o mercado financeiro a partir do Brasil, os dados do DBS reforçam uma tendência relevante: a tokenização de dinheiro está migrando do campo experimental para a operação corrente de grandes tesourarias corporativas globais. Isso tende a ampliar o interesse de bancos e fintechs locais em soluções de liquidação instantânea e gestão de liquidez baseadas em blockchain, especialmente para empresas com operações internacionais.
A liderança das stablecoins entre os instrumentos citados pelo estudo é um ponto a observar com atenção. À medida que mais corporações globais tratam stablecoins como ferramenta de tesouraria, cresce a pressão regulatória e competitiva sobre emissores, bancos e intermediários — um movimento que pode, com o tempo, influenciar discussões regulatórias também no Brasil sobre ativos digitais ligados a moeda fiduciária.
Já o apetite das empresas por um ponto único de acesso ao ecossistema tokenizado, mencionado por boa parte dos entrevistados, sinaliza oportunidade para bancos que conseguirem se posicionar como intermediários de confiança entre diferentes redes e protocolos — um papel que o próprio DBS já busca ocupar com seus serviços de token. Investidores em bancos e empresas de infraestrutura financeira devem acompanhar como essa disputa por intermediação evolui, já que ela pode redefinir margens e modelos de receita no setor de pagamentos corporativos nos próximos anos.
Agregado por AAR News · fonte: CoinDesk
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