Mercados · Reino Unido

Preços de energia pressionam economia britânica, alerta órgão fiscal

Office for Budget Responsibility reduz projeção de crescimento e eleva previsão de inflação citando efeitos do conflito no Oriente Médio

UK GDP growth forecasts for calendar years between 2026 and 2031. 2026 is forecast at 1.2% before dropping to 1% in 2027, a steep drop on t…
BBC

Ler na fonte → BBC

O Reino Unido não está diretamente envolvido na guerra entre Estados Unidos e Irã, mas já sente os efeitos econômicos do conflito. A disparada dos preços de energia deve reduzir o ritmo de expansão da atividade no curto prazo, pressionar a inflação e deteriorar o padrão de vida da população, segundo nova avaliação do Office for Budget Responsibility (OBR), órgão independente que fiscaliza as contas públicas britânicas.

O relatório também projeta alta nas taxas de juros, o que encarece o crédito e eleva o custo do serviço da dívida pública.

O chanceler John Healey reconheceu que o país enfrenta dificuldades à frente e anunciou medidas que, segundo ele, dariam um alívio temporário às famílias nos próximos meses. Em suas palavras, o Reino Unido atravessa tempestades econômicas globais que não podem ser ignoradas, e é preciso escolher o caminho para enfrentá-las.

Crescimento revisado para baixo

Na primeira análise feita pelo OBR desde o início do conflito no Oriente Médio, a alta dos preços de energia foi apontada como o principal risco para a economia britânica no curto prazo. O órgão elevou a projeção de crescimento para o ano corrente, mas cortou de forma expressiva a estimativa para o ano seguinte, de 1,6% para 1%. A expansão deve se recuperar nos anos posteriores, segundo as novas projeções.

Quando a economia cresce, empresas tendem a investir mais, abrir vagas e conceder reajustes salariais, o que em média melhora a percepção de bem-estar da população — ainda que o processo seja gradual e nem todos sejam beneficiados igualmente. Companhias mais lucrativas também recolhem mais impostos, o que amplia a capacidade de gasto do governo em serviços públicos. Em cenários de crescimento fraco ou contração, o efeito tende a ser o oposto.

Inflação mais persistente

A inflação pode corroer o crescimento, e o OBR prevê que os preços subam em ritmo mais acelerado à medida que as contas de energia mais altas se espalham pelas cadeias de suprimento até chegar ao consumidor final — efeito que deve se intensificar em 2027. Os preços elevados do petróleo no mercado global já afetam os motoristas britânicos: a gasolina está próxima de £1,73 por litro em média, e o diesel, perto de £1,99.

Preços de petróleo elevados por períodos prolongados costumam se refletir em alta generalizada de bens, incluindo alimentos, já que empresas repassam custos mais altos aos consumidores. Como mercadorias costumam ser transportadas por caminhões e vans, o encarecimento do combustível tem impacto disseminado pela economia.

O OBR agora estima que a inflação permanecerá em patamar elevado por mais tempo do que previsto anteriormente, com pico de 3,8% em 2027. Economistas da Pantheon Macroeconomics avaliaram que o pacote de apoio ao custo de vida anunciado pelo governo é modesto diante da alta de preços esperada para o inverno no hemisfério norte.

Padrão de vida sob pressão

A inflação elevada compõe um quadro desfavorável para o padrão de vida da população. O OBR prevê queda na renda disponível das famílias no próximo ano, à medida que as contas de energia consomem mais do orçamento doméstico. Famílias de renda mais baixa tendem a ser mais afetadas, já que os gastos com energia representam fatia maior de seu orçamento mensal e de sua renda disponível.

A renda disponível real das famílias, medida usada como indicador de padrão de vida, deve voltar a crescer a partir de 2027, mas em ritmo inferior ao projetado anteriormente. David Miles, do OBR, descreveu o cenário como bastante difícil, afirmando que praticamente não houve crescimento da renda individual desde antes da pandemia de Covid-19 e classificando o período como um dos mais fracos da história econômica britânica recente.

A expectativa é que a inflação tenha média de 3,4% no próximo ano, recuando depois até a meta de 2% estabelecida pelo Banco da Inglaterra perto do fim da década.

Juros e endividamento público em alta

O Banco da Inglaterra deve elevar os juros na semana seguinte à divulgação do relatório, em resposta à inflação mais alta registrada nos últimos meses. A taxa básica está atualmente em 3,75%, mas o OBR projeta que pode chegar a até 4,5% nos próximos anos — revisão que contrasta com a previsão anterior, que incluía dois cortes de juros ainda neste ano.

Juros mais altos encarecem o crédito, mas tendem a melhorar o retorno de aplicações em poupança. A inflação também eleva o custo da dívida pública, com gastos em juros projetados para crescer. Esses pagamentos adicionais devem contribuir para que o endividamento total do governo aumente mais a cada ano do que o OBR havia previsto anteriormente.

O aumento de gastos com benefícios sociais e pensões, também influenciado pela inflação, deve pressionar ainda mais o endividamento, embora o OBR projete que essa dívida caia como proporção da economia ao longo dos próximos cinco anos.

Incerteza no horizonte

O próprio OBR reconhece que suas projeções são estimativas sujeitas a revisão, e que a evolução do conflito no Oriente Médio pode alterar significativamente as expectativas de inflação adiante. O presidente americano, Donald Trump, sugeriu que a guerra pode terminar após as eleições de meio de mandato no mês seguinte. Ainda assim, o órgão fiscal britânico admitiu haver incerteza relevante em suas previsões diante do cenário geopolítico em transformação.

O que isso significa para o investidor

Para quem acompanha ativos britânicos, o relatório do OBR reforça um quadro de pressão simultânea sobre crescimento, inflação e custo da dívida — combinação que tende a manter o Banco da Inglaterra em postura mais rígida com os juros por mais tempo do que se esperava anteriormente. Isso tem implicações diretas para títulos públicos britânicos, cujo custo de rolagem deve subir, e para setores sensíveis a crédito caro, como construção civil e varejo discricionário.

A combinação de inflação mais persistente com renda disponível estagnada sugere cautela para empresas expostas ao consumo doméstico no Reino Unido, já que o poder de compra das famílias — especialmente as de renda mais baixa — deve seguir pressionado nos próximos anos. Investidores com exposição a ativos em libra esterlina devem monitorar de perto as decisões do Banco da Inglaterra nas próximas reuniões, dado que o próprio órgão já sinaliza divergência em relação às projeções anteriores de cortes de juros.

Por fim, vale observar que todo esse cenário carrega incerteza elevada, reconhecida pelo próprio OBR, atrelada à evolução do conflito no Oriente Médio e seu impacto sobre os preços de petróleo. Qualquer mudança nessa frente geopolítica — para melhor ou para pior — pode alterar rapidamente as premissas de inflação e juros que hoje sustentam essas projeções, o que recomenda acompanhamento constante por parte de quem tem exposição a ativos ligados à economia britânica.

Agregado por AAR News · fonte: BBC

Texto reescrito pela redação AAR com assistência de IA · confira a fonte · como produzimos