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Por trás do 'presente' de petróleo da Venezuela aos EUA, há um desconto condicionado

Governo Trump anunciou doação de 1 milhão de barris, mas acordo prevê compensação futura por meio de preços mais altos em remessas seguintes, segundo a CNN

Por trás do 'presente' de petróleo da Venezuela aos EUA, há um desconto condicionado
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O presidente Donald Trump anunciou nesta semana que a Venezuela havia doado aos Estados Unidos 1 milhão de barris de petróleo, sem custo algum para o contribuinte americano. A declaração, feita a caminho de um comício em Corpus Christi, no Texas, rapidamente se tornou peça central de um discurso sobre vitória geopolítica e econômica — mas a mecânica por trás do anúncio é mais complexa do que a palavra "presente" sugere, segundo reportagem da CNN.

A North American Blue Energy Partners (NABEP), parceira do governo americano em um grande investimento petrolífero na Venezuela, inicialmente informou que os Estados Unidos haviam comprado o 1 milhão de barris a um preço bastante reduzido. Depois que Trump classificou o carregamento como gratuito, a empresa alterou seu comunicado para repetir a formulação do presidente, afirmando que o petróleo chegaria a um porto texano sem custo para o contribuinte dos EUA.

O discurso em Corpus Christi

Em Corpus Christi, onde exibiria os navios-tanque atracando com os primeiros resultados da parceria da NABEP na Venezuela, Trump disse aos repórteres que o país havia sido "tomado com sucesso" e que, como presente, havia enviado um carregamento de 1 milhão de barris de petróleo, que ele estaria repassando aos Estados Unidos. Mais tarde, em publicação na Truth Social, reforçou que o petróleo estava sendo fornecido ao país sem nenhum custo para o contribuinte americano, graças ao que descreveu como uma relação renovada e excelente com a Venezuela.

Durante um comício na mesma noite, Trump classificou a operação militar americana de janeiro na Venezuela — que resultou na deposição do presidente Nicolás Maduro — como "a maior vitória petrolífera da história". Apontando para uma embarcação, afirmou que ali estava 1 milhão de barris de petróleo vindos da Venezuela e declarou, segundo a CNN: "ao vencedor pertencem os despojos".

Um acordo de agosto com o Pentágono como pano de fundo

O episódio tem origem em um acordo firmado em agosto, descrito pela Casa Branca como o maior negócio de petróleo da história mundial. Pelo acerto, o Pentágono adquiriu participação acionária na empresa controladora da NABEP, a segunda maior produtora privada de petróleo da Venezuela. A controladora da NABEP é ligada à família de Alejandro Betancourt López, empresário internacional controverso baseado no Reino Unido.

Como parte desse acordo, o Departamento de Estado americano tem o direito de comprar os primeiros 20% da produção de petróleo da NABEP a 30 dólares o barril — valor correspondente ao custo de produção e significativamente abaixo do que o petróleo poderia alcançar no mercado aberto. A NABEP informou na terça-feira que os primeiros resultados dessa parceria com o governo dos Estados Unidos chegariam em dois navios-tanque a Corpus Christi.

Em comunicado inicial, a empresa descreveu o carregamento como parte do direito do governo americano de comprar 20% da produção da NABEP pelo custo, sem margem adicional, conforme previsto no acordo de agosto firmado com os Departamentos de Estado e de Guerra dos Estados Unidos. Horas depois, a companhia atualizou a nota para destacar o caráter histórico do acordo com seu novo "comprador âncora", afirmando ter entregado o primeiro milhão de barris sem custo para o contribuinte americano.

Como funciona o desconto diferido

A reportagem da CNN explica que a NABEP concordou em entregar o 1 milhão de barris sem cobrança imediata, compensando esse valor por meio de preços mais altos cobrados em entregas futuras. Uma pessoa familiarizada com os termos do acordo afirmou que o carregamento está sendo fornecido conforme um arranjo comercial no qual o valor é acertado por ajustes no preço de retiradas futuras, em vez de um pagamento antecipado em dinheiro.

Crude oil tankers are docked and loaded at the Bajo Grande oil terminal on Lake Maracaibo in San Francisco, Zulia state, Venezuela, on Sept…
Crude oil tankers are docked and loaded at the Bajo Grande oil terminal on Lake Maracaibo in San Francisco, Zulia state, Venezuela, on Sept… · Foto: CNN

Na prática, o primeiro milhão de barris foi vendido aos Estados Unidos por zero dólar o barril, com a empresa recuperando esse custo por meio de pagamentos diferidos. A CNN cita como exemplo a possibilidade de que o próximo milhão de barris seja vendido ao governo americano por 60 dólares o barril — de modo que as remessas, somadas, se equilibrem em torno dos 30 dólares por barril previstos no acordo original. Um porta-voz da Casa Branca confirmou que apenas o primeiro carregamento da NABEP chegaria sem custo para o contribuinte americano.

Mesmo a 60 dólares o barril, a remessa seguinte ainda representaria, tecnicamente, ausência de custo direto ao contribuinte, já que o petróleo venezuelano está sendo vendido a 80 dólares o barril no mercado aberto, segundo a CNN. Ou seja, a Venezuela estaria enviando petróleo aos Estados Unidos a um preço bem inferior ao que poderia obter em condições normais de mercado.

Produção em declínio e disputa sobre benefícios

O governo Trump argumenta que, sem investimento estrangeiro, a Venezuela não teria como explorar plenamente suas riquezas petrolíferas, e que o acordo, independentemente do preço praticado, sustentaria empregos no país. A reportagem lembra que regimes socialistas sucessivos deixaram a infraestrutura petrolífera venezuelana se deteriorar ao longo de décadas, reduzindo a capacidade de produção do país para cerca de 1,2 milhão de barris por dia, ante mais de 3 milhões de barris na década de 1990.

Ainda assim, críticos apontam que os Estados Unidos estarem extraindo petróleo a baixo custo para depois revendê-lo com grande margem de lucro é, na melhor das hipóteses, uma má imagem e, na pior, uma forma de exploração. O deputado democrata por Illinois Dan Casten, crítico ferrenho da política do governo para a Venezuela, disse à CNN que Trump "encobriu propositalmente os detalhes de seu esquema petrolífero na Venezuela" e que ainda não se sabe exatamente quanto dinheiro está envolvido nem para onde ele está indo.

Trump, por sua vez, sempre afirmou que o petróleo venezuelano estava à disposição dos Estados Unidos. Em 3 de janeiro, ao anunciar a captura de Maduro, ele disse que a operação militar tinha como objetivo garantir o controle sobre recursos considerados centrais para enriquecer o país. Segundo a CNN, Trump afirmou que o futuro seria determinado pela capacidade de proteger comércio, território e recursos essenciais à segurança nacional, comparando essa lógica à das tarifas comerciais, que, em sua avaliação, tornaram o país mais rico e fortaleceram sua segurança nacional como nunca antes.

O que isso significa para o investidor

Para quem acompanha ativos ligados a energia e a risco geopolítico latino-americano, o episódio reforça que anúncios políticos sobre commodities nem sempre refletem a estrutura econômica real por trás deles. A diferença entre "petróleo gratuito" e um mecanismo de preço diferido — com remessas futuras potencialmente cobradas a valores mais altos, como os 60 dólares por barril citados pela CNN frente aos 30 dólares do custo de produção previsto no acordo de agosto — ilustra como contratos de offtake podem ser apresentados de formas distintas conforme o público-alvo.

A opacidade apontada por críticos como o deputado Dan Casten também é um ponto de atenção relevante: acordos de energia envolvendo participação de agências de defesa, como a entrada do Pentágono na estrutura acionária da controladora da NABEP, tendem a ter menos transparência pública do que transações puramente comerciais, o que dificulta a avaliação de risco por parte de investidores que acompanham o setor de óleo e gás na região.

Vale observar também o pano de fundo da capacidade produtiva venezuelana, hoje em torno de 1,2 milhão de barris por dia frente a mais de 3 milhões nos anos 1990, segundo dados citados pela CNN. Qualquer retomada de investimento estrangeiro no país — mesmo sob condições contratuais favoráveis aos Estados Unidos, como o preço de custo de 30 dólares por barril para 20% da produção da NABEP — pode, a médio prazo, ter efeito sobre a oferta global de petróleo caso a infraestrutura seja de fato recuperada.

Por fim, o episódio se soma a um padrão já observado pelo AAR News em outras frentes da política comercial do governo Trump, como o uso de tarifas e isenções questionado pelo deputado Jamie Raskin em relação a produtos como carne brasileira, diamantes e smartphones. Para investidores expostos a setores sensíveis a decisões discricionárias de Washington, o caso venezuelano reforça a importância de monitorar não apenas os anúncios oficiais, mas os termos contratuais efetivos por trás deles, já que divergências entre narrativa política e estrutura econômica tendem a gerar volatilidade regulatória adicional.

Agregado por AAR News · fonte: CNN

Texto reescrito pela redação AAR com assistência de IA · confira a fonte · como produzimos