A ideia de que criptomoedas dividem o eleitorado americano por linhas partidárias não se sustenta diante de dados recentes. É o que defende Jennifer Rosenthal, da DeFi Education Fund, em artigo de opinião publicado pelo CoinDesk, às vésperas das eleições americanas, descritas no texto como ocorrendo em um dos climas políticos mais divididos da memória recente.
A organização encomendou ao instituto Ipsos, por meio do painel KnowledgePanel, uma pesquisa sobre o estado atual e o futuro do sistema financeiro norte-americano. Segundo a autora, quando os resultados foram segmentados por filiação partidária, a divergência esperada simplesmente não apareceu.
Números quase idênticos entre os partidos
De acordo com o levantamento citado no artigo, 15% dos eleitores republicanos e 13% dos democratas consideram importante que um candidato político incentive o crescimento de tecnologias financeiras emergentes, como blockchain, criptomoedas e finanças descentralizadas (DeFi). O apoio a novas regras e regulações que permitam inovação no sistema financeiro também aparece equiparado: mais de 1 em cada 4 eleitores de ambos os partidos (27% em cada caso) manifestou essa posição.
Quando questionados sobre qual prioridade de inovação financeira mais importa, republicanos e democratas deram a mesma resposta prioritária: garantir que quem está construindo a próxima geração de tecnologia financeira seja incentivado a fazê-lo dentro dos Estados Unidos, segundo o texto.
Um sistema financeiro em transição, segundo a pesquisa
Os dados indicam que a população americana vê o sistema financeiro atual como insuficiente. Apenas cerca de 3 em cada 10 americanos (31%) concordam fortemente que o sistema financeiro funciona bem para "pessoas como eles", segundo a pesquisa citada. Nenhuma instituição financeira tradicional obtém confiança completa ou alta de ao menos metade dos entrevistados, e apenas cerca de metade dos americanos (49%) sente ter controle pessoal sobre seus ativos financeiros.
Sobre o futuro do sistema, haveria convergência em torno de uma direção comum: atualização para acompanhar novas ameaças. Segundo o levantamento, quase 2 em cada 3 americanos (63%) afirmam que o sistema financeiro precisa ser modernizado para enfrentar riscos como cibercrime e inteligência artificial. Três em cada quatro (74%) dizem que a privacidade financeira é importante para eles, e dois em cada três (66%) querem acesso ao próprio dinheiro a qualquer momento.
Adoção de cripto e DeFi já em curso
O artigo também traz dados de uso efetivo: mais de 1 em cada 5 americanos já possuiu ou utilizou criptomoedas, patamar que subiu em relação aos 18% registrados em 2025. Além disso, 2 em cada 5 americanos dizem que seriam ao menos moderadamente propensos a experimentar finanças descentralizadas, e entre esse grupo, mais de 8 em cada 10 declararam que usariam DeFi para guardar dinheiro, enviar recursos a familiares e obter rendimento sobre seus ativos.
Para a autora, esses números contradizem a narrativa de que cripto seria pauta eminentemente partidária. Segundo ela, tratar o tema como campo de disputa política dificulta a construção de um sistema financeiro mais seguro, transparente e de produção americana — algo que, segundo a pesquisa, a maioria dos americanos afirma desejar. Rosenthal argumenta que cripto deve ser entendido, em essência, como infraestrutura de tecnologia financeira, e que lideranças políticas que adotarem essa leitura encontrarão apoio público já consolidado.
O CoinDesk publicou o texto como artigo de opinião, e ressalva que as visões expressas são da autora e não refletem necessariamente a posição do veículo ou de seus afiliados. A pesquisa completa foi disponibilizada pela DeFi Education Fund em seu site de pesquisa.
O que isso significa para o investidor
Para quem acompanha o mercado de criptoativos no Brasil e no exterior, o dado relevante não é tanto o resultado eleitoral em si, mas o sinal de que a demanda por infraestrutura financeira digital nos Estados Unidos parece transcender o ciclo político imediato. Se a adoção de cripto e DeFi continuar crescendo independentemente de qual partido estiver no poder, isso reduz — ainda que não elimine — o risco de reversões bruscas de política regulatória a cada alternância de governo.
Vale lembrar, porém, que esse otimismo estrutural de longo prazo convive com volatilidade de curto prazo no mercado. Conforme cobertura anterior do AAR News, o bitcoin chegou a cair abaixo de US$ 82 mil em 22 de outubro de 2026, com recuo de até 2,9% em meio a balanços mistos de empresas de tecnologia e dúvidas sobre IA, enquanto o índice DeFi da CoinDesk despencou 6% no mesmo episódio. Esse contraste mostra que percepção pública favorável e preço de mercado nem sempre caminham juntos no imediato.
Para o investidor brasileiro, a leitura prática é dupla: de um lado, pesquisas como a da DeFi Education Fund reforçam a tese de adoção estrutural de cripto e DeFi nos EUA, o que tende a sustentar o interesse institucional de médio e longo prazo; de outro, episódios como a queda do índice DeFi em outubro mostram que o segmento continua sujeito a choques de curto prazo ligados a sentimento de risco global, não apenas a fundamentos regulatórios ou de adoção. Acompanhar o desenrolar regulatório pós-eleitoral nos EUA, bem como a reação do índice DeFi da CoinDesk em episódios futuros de estresse, é o tipo de informação que ajuda a calibrar exposição ao setor nos próximos meses.
Agregado por AAR News · fonte: CoinDesk
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