A estratégia da Nvidia de atuar não só como fornecedora de chips, mas também como financiadora do ecossistema de inteligência artificial, começa a ser testada por um mercado de crédito mais apertado entre seus principais parceiros, segundo reportagem da CNBC.
Depois de criar os semicondutores que sustentaram a fase inicial da IA generativa, a companhia passou a usar sua força financeira para bancar desenvolvedores de modelos, operadoras de data center e as chamadas neoclouds. Segundo a CNBC, o CEO Jensen Huang adotou a estratégia de não apenas oferecer a tecnologia mais avançada, mas também investir nesses clientes e ajudá-los a contrair empréstimos para que seus sistemas cheguem a mais usuários.
Isso significou aproveitar a classificação de crédito de grau de investimento da Nvidia para oferecer garantias de apoio (backstops) em megaprojetos, caso de parte do financiamento ligado à OpenAI, permitindo que as obras sejam financiadas a juros menores.
Os números por trás das garantias
De acordo com o último balanço trimestral divulgado em julho, a Nvidia tinha US$ 36 bilhões em acordos de nuvem de IA fora do balanço, classificados como garantias de apoio a neoclouds, além de uma garantia de até US$ 105 bilhões cobrindo chips, terreno e energia para um data center de 10 gigawatts proposto pela OpenAI em Ohio. A empresa também assinou como locatária US$ 20 bilhões em contratos futuros de arrendamento de data centers, que depois serão repassados a terceiros.
Na maior parte desses acordos, a Nvidia só precisaria desembolsar recursos se os participantes dos projetos entrassem em default. David Trainer, fundador e CEO da consultoria financeira New Constructs, disse à CNBC que, caso a demanda por capacidade computacional não acompanhe as expectativas, a estrutura pode enfrentar problemas. A Nvidia não comentou o assunto quando procurada pela reportagem.
Neoclouds sob pressão
As condições de mercado já começam a testar essa engenharia financeira. Segundo a CNBC, as ações da CoreWeave, da Nebius e da IREN — todas neoclouds que queimam caixa e integram o portfólio de apostas da Nvidia — recuaram ao menos 30% neste mês. A CoreWeave, a maior do grupo, viu o spread de seus swaps de crédito contra default (CDS) ultrapassar 11%, com investidores pagando mais caro para se proteger de um calote.
A Nvidia também é investidora em outras neoclouds que enfrentam dificuldades. A empresa tem participação na australiana Firmus, que retirou abruptamente seus planos de abertura de capital neste mês, além da britânica Nscale e da SB Energy, apoiada pela SoftBank. Ambas protocolaram pedidos de IPO nos Estados Unidos em setembro, mas não deram atualizações sobre os planos nas últimas semanas, de acordo com a reportagem.
A própria ação da Nvidia encerrou a sexta-feira com a terceira semana seguida de queda em Wall Street, acumulando recuo de 7,6% em outubro — o pior mês da companhia desde novembro do ano passado, segundo a CNBC.
Apesar do cenário, Huang reafirmou confiança no mercado. Em entrevista à CNBC nesta quinta-feira, à margem da conferência GTC da empresa em Berlim, ele disse que a demanda por neoclouds está "fora da curva". Segundo o executivo, falta "capital de giro para alimentar esse crescimento", já que "há tanta demanda em tantos setores de IA que existe escassez de capital".
A Nvidia tomou participações acionárias em dezenas de empresas, incluindo investimentos relevantes em OpenAI e Anthropic. Seu portfólio de participações valia US$ 99 bilhões no segundo trimestre, conforme os dados citados pela CNBC.
Construindo o ecossistema
Investidores ouvidos pela CNBC apontam que a grande questão em torno da Nvidia é como a empresa vai usar seu caixa e seu valor de mercado de US$ 5 trilhões para colocar mais chips nas mãos de clientes — e quanto risco está disposta a assumir nesse processo.
As unidades de processamento gráfico (GPUs) da Nvidia são essenciais para treinar e rodar modelos de IA. A receita do último ano fiscal somou US$ 216 bilhões, cerca de oito vezes mais do que no período anterior ao lançamento do ChatGPT pela OpenAI, no fim de 2022.
Antes do boom de IA, a Nvidia vendia placas gráficas que cabiam em um rack de servidor padrão ou em um PC. Os sistemas mais recentes são muito maiores e mais caros: o produto principal, batizado Vera Rubin, é um rack de mais de dois metros de altura com 72 GPUs, pesando tanto quanto uma caminhonete, com custo estimado acima de US$ 7 milhões pelo Morgan Stanley, segundo a CNBC.
Embora ainda domine o mercado de chips de IA, a Nvidia enfrenta concorrência crescente do Google, que aluga suas unidades de processamento tensorial (TPUs) dentro da própria nuvem, e da Advanced Micro Devices, que lançou em julho seu primeiro rack de IA, batizado Helios.
O caixa é outra vantagem relevante da companhia. No primeiro semestre deste ano, a Nvidia gerou US$ 70 bilhões em fluxo de caixa livre, ante pouco mais de US$ 4 bilhões da AMD, enquanto a Alphabet, controladora do Google, registrou fluxo de caixa negativo no segundo trimestre para financiar sua própria expansão.
Essa diferença de caixa dá à Nvidia uma vantagem na construção de seu ecossistema, que hoje inclui uma plataforma completa com software, serviços, hardware integrado e, para muitos clientes, apoio para financiamento. O balanço trimestral mais recente, divulgado em agosto, listou mais de US$ 500 bilhões em compromissos fora do balanço para os próximos anos, com a maior parte vencendo até o ano fiscal de 2029.
No mesmo mês, Huang anunciou uma parceria com seis grandes gestoras de ativos voltada a uma iniciativa de financiamento de US$ 500 bilhões, concebida para tratar a infraestrutura de computação como uma classe de ativos. O acordo prevê garantias de valor residual de até US$ 125 bilhões sobre financiamentos de GPUs para as instituições financeiras envolvidas, somando-se às participações que a Nvidia já mantém como sócia limitada em fundos de private equity.
A companhia aportou US$ 2 bilhões no fundo inaugural de infraestrutura de IA da Brookfield, que busca captar US$ 10 bilhões no total, além de valores não confirmados no Helix Digital Infrastructure, da KKR — veículo de US$ 11 bilhões —, e no fundo dedicado de computação da Valor Equity Partners, de US$ 5,4 bilhões.
Ao anunciar o acordo com as gestoras em agosto, Huang disse à CNBC que a empresa costumava vender chips como componentes de tecnologia, mas que hoje sua plataforma de "fábrica de IA" é, segundo ele, "realmente um ativo investível". Em podcast com o investidor Brad Gerstner publicado na semana passada, o executivo reforçou o discurso afirmando que os equipamentos da Nvidia são "os mais alugáveis", "fungíveis" e "duráveis".
20 anos de hardware em Ohio
Enquanto aguarda que as gestoras de Wall Street atraiam mais investidores para ampliar o pool de crédito voltado a GPUs, a Nvidia já atua ativamente na costura de acordos recordes no setor de infraestrutura de IA.
A maior garantia individual da companhia é destinada à futura instalação da OpenAI em Pike County, Ohio, que pode se tornar o maior data center do mundo. O acordo exige o uso de hardware Nvidia por ao menos 20 anos.
A mudança de um modelo baseado em venda de chips para um modelo de concessão de capital traz riscos relevantes caso a OpenAI enfrente dificuldades. Se a empresa deixar de pagar ou ficar insolvente, a Nvidia pode assumir o contrato de locação, buscar um novo inquilino ou pedir à proprietária do imóvel, a SB Energy, que venda a instalação — garantindo, nesses dois últimos casos, cobrir a diferença de valor em até US$ 105 bilhões caso a nova locação ou venda fique abaixo de um preço mínimo estabelecido. A Nvidia também poderia optar por pagar um valor único à SB Energy. Por outro lado, se a OpenAI apresentar garantias próprias ou atingir uma classificação de crédito suficientemente alta, a garantia da Nvidia deixa de valer.
No caso da CoreWeave, o investimento da Nvidia inclui participação acionária e o compromisso de comprar até US$ 6,3 bilhões em capacidade computacional caso a neocloud não encontre outro comprador. As garantias da Nvidia assumem formatos variados, como um preço mínimo de revenda ou um valor mínimo por hora de uso dos chips caso o credor precise recuperar os ativos. Com a Sharon AI e outras neoclouds, os acordos vêm acompanhados de cláusulas de compartilhamento de receita.
Em seu relatório trimestral, a Nvidia afirmou acreditar que essas parceiras de nuvem de IA têm forte demanda de clientes e carteiras robustas de vendas, mas são limitadas pela infraestrutura em grande escala necessária para atender a essa demanda, segundo trecho citado pela CNBC.
CoreWeave e Nebius no centro das atenções
Huang afirmou nesta semana que a CoreWeave não precisa da garantia da Nvidia e que o custo de capital da neocloud está em queda. Ainda assim, a CoreWeave carrega cerca de US$ 51,6 bilhões em dívida total, incluindo aproximadamente US$ 35 bilhões em notas, títulos e empréstimos. Os rendimentos de seus títulos com vencimento em 2031 e 2032 ultrapassaram 15%, segundo a reportagem.
Brian Stutland, gestor de portfólio da Equity Armor Investments, disse à CNBC que a instabilidade recente no mercado reflete preocupações sobre a solidez do modelo de negócio das neoclouds. Segundo ele, empresas como a CoreWeave assinam contratos de longo prazo que parecem sólidos nos balanços, mas resta saber se esses contratos vão se manter estáveis ou se podem se romper em algum momento.
A própria Nvidia defende que seu apoio financeiro ajuda clientes a construir a infraestrutura necessária para atender à forte demanda por seus chips, o que, por sua vez, permitiria a laboratórios de IA desenvolver novos modelos e serviços, retroalimentando a demanda por produtos da companhia.
Gene Munster, fundador da Deepwater Asset Management, disse à CNBC no mês passado que a Nvidia deve faturar US$ 700 bilhões no próximo ano, volume que, segundo ele, dá à empresa capacidade de financiar parte de seus clientes.
A reportagem destaca ainda que os backstops de crédito da Nvidia se intensificaram principalmente nos últimos seis a 12 meses — o último relatório anual da companhia, publicado em fevereiro, não fazia qualquer menção a acordos de nuvem de IA.
O que isso significa para o investidor
O episódio expõe um ponto estrutural do atual ciclo de investimento em inteligência artificial: parte relevante da demanda por chips da Nvidia é sustentada por financiamento que a própria companhia ajuda a viabilizar. Enquanto a confiança no crescimento da IA se mantém alta, esse arranjo amplia o alcance dos produtos da empresa; se as condições de crédito continuarem apertadas, porém, o mesmo mecanismo pode transformar problemas de clientes em exposição direta para a Nvidia.
Para quem acompanha ações ligadas à cadeia de IA, os movimentos recentes em CoreWeave, Nebius e IREN — com quedas de pelo menos 30% no mês e disparada no custo de proteção contra calote da CoreWeave — funcionam como termômetro de apetite ao risco no setor. O desempenho das próprias ações da Nvidia, em seu pior mês desde novembro passado, sugere que o mercado já começou a precificar parte dessa incerteza.
Vale observar que boa parte das garantias da Nvidia só se materializa em caso de default dos parceiros, o que significa que o impacto direto no balanço da companhia depende de eventos específicos ainda não confirmados, como problemas de pagamento da OpenAI no projeto de Ohio ou dificuldades mais severas em neoclouds menores, como Firmus, Nscale e SB Energy. Investidores tendem a monitorar de perto novidades sobre os planos de IPO dessas empresas, além dos próximos relatórios trimestrais da Nvidia, que devem detalhar a evolução dos compromissos fora do balanço.
Por fim, a solidez financeira da Nvidia — com geração de caixa muito superior à de concorrentes como AMD e Alphabet — dá à companhia margem para sustentar esse papel de financiadora por mais tempo do que rivais menos capitalizados. Ainda assim, a concentração de garantias em poucos clientes de grande porte, caso de OpenAI e CoreWeave, mantém o tema como ponto de atenção para quem avalia o risco de cauda embutido na tese de investimento em IA.
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