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Nova composição do Congresso pesa tanto quanto urnas na leitura do mercado

Analistas dizem que avanço da direita no Legislativo, e não só a liderança de Flávio Bolsonaro, explica parte do rali dos ativos brasileiros

Nova composição do Congresso pesa tanto quanto urnas na leitura do mercado
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O movimento de alta observado nos ativos brasileiros depois do primeiro turno das eleições não se explica apenas pela frente aberta por Flávio Bolsonaro na disputa presidencial. Segundo analistas e gestores consultados pelo InfoMoney, parte relevante da reação veio de uma recomposição do Congresso considerada mais propensa a sustentar uma pauta de ajuste das contas públicas e de reformas econômicas.

A ideia de que um eventual governo encabeçado por Flávio Bolsonaro contaria com um apoio legislativo mais amplo ajudou a puxar a valorização de ações, a apreciação do real e o recuo dos juros nos pregões mais recentes. Mesmo assim, as casas de análise fazem uma ressalva importante: um Legislativo com perfil mais alinhado ao ajuste fiscal não torna automática a aprovação de mudanças estruturais, tampouco assegura que a consolidação das contas públicas venha a ocorrer de forma rápida.

A nova aritmética do Legislativo

De acordo com o Goldman Sachs, a transformação mais significativa trazida pelo pleito foi o crescimento da direita e da centro-direita dentro do Parlamento. Na Câmara, o PL passou de 98 para 121 deputados — a maior bancada conquistada por uma única legenda desde 1986. Juntas, direita e centro-direita somam hoje cerca de 57% da Casa, ante aproximadamente 25% concentrados em esquerda e centro-esquerda.

No Senado, o quadro segue direção parecida: a bancada do PL foi de 16 para 29 cadeiras, enquanto o conjunto de direita e centro-direita avançou de 46% para 63% do total de assentos. Para o banco americano, esse novo desenho tende a facilitar a formação de maiorias em torno de propostas de Flávio Bolsonaro, caso ele confirme a posição de favorito no segundo turno, já que ele poderia se apoiar em legendas como PL, PP, União Brasil, Republicanos e Novo para aprovar matérias por maioria simples.

Na leitura do Goldman Sachs, o cenário é distinto para uma eventual vitória de Lula: o petista encontraria pela frente um Congresso com perfil mais conservador e, portanto, menos inclinado a referendar uma agenda de expansão fiscal.

Por que o Congresso importa tanto para os investidores?

Para a Pimco, uma das maiores gestoras de renda fixa do mundo, essa nova configuração do Legislativo ajuda a afastar um dos riscos mais acompanhados pelo mercado: o de um deterioro contínuo das contas públicas brasileiras.

Pramol Dhawan, responsável pela área de mercados emergentes da gestora, afirma que um Parlamento mais conservador eleva as chances de se chegar a um processo de ajuste fiscal visto como confiável nos próximos anos, além de reduzir de forma relevante o risco de uma condução fiscal marcadamente expansionista — independentemente de qual candidato prevaleça no segundo turno.

Essa interpretação ajuda a entender por que gestores passaram a reavaliar suas projeções para juros, câmbio e bolsa assim que o resultado eleitoral foi conhecido.

A consultoria 4intelligence seguiu o mesmo movimento e atualizou seu cenário principal após a apuração. Segundo a empresa, a expectativa de reeleição de Lula, que antes era tida como mais provável, deu lugar a uma vantagem mais consistente de Flávio Bolsonaro, o que levou o mercado a revisar para cima as chances de um ajuste nas contas do governo.

A consultoria avalia ainda que um governo liderado por Flávio Bolsonaro teria terreno político mais favorável para colocar em prática mudanças de natureza fiscal, beneficiado pelo salto nas bancadas de direita tanto na Câmara quanto no Senado.

Mas o Congresso não garante reformas

Apesar da leitura mais otimista no primeiro momento, os relatórios são unânimes em apontar que o fortalecimento da direita no Parlamento não elimina as dificuldades para avançar com o ajuste fiscal. O próprio Goldman Sachs pondera que mudanças de natureza constitucional dependem de quórum qualificado, o que continuará exigindo negociação política intensa ao longo do processo.

O banco também avalia que os partidos de centro devem manter papel determinante nas articulações, cobrando em troca de apoio às reformas espaço dentro do governo, ingerência sobre a destinação de recursos orçamentários e presença em postos estratégicos da administração. A instituição acrescenta que o Congresso brasileiro ganhou mais autonomia nos últimos anos e deve continuar controlando fatias relevantes do orçamento público.

A 4intelligence segue linha semelhante: mesmo reconhecendo que Flávio Bolsonaro teria mais facilidade para governar, a consultoria pondera que um ajuste mais profundo passa por alterações estruturais em um orçamento com pouca margem de manobra. Entre os obstáculos citados pela consultoria estão a resistência política a cortes de gastos impopulares, a dificuldade em reduzir incentivos e renúncias tributárias, promessas de desoneração e a dependência que o Legislativo tem da distribuição de recursos via emendas parlamentares.

Diante desse quadro, a 4intelligence trabalha com a hipótese de um ajuste fiscal que avance de forma gradual — ainda que, na comparação com uma administração petista, essa consolidação pudesse ocorrer em ritmo mais acelerado.

Equipe econômica passa a ser o próximo teste

Na avaliação do UBS, o processo eleitoral resolveu apenas uma parte do problema. Um dos riscos que seguem no radar dos investidores é a capacidade efetiva de execução da agenda econômica: mesmo um presidente eleito com força política considerável não tem garantia de aprovar reformas ligadas a despesas obrigatórias nem de concretizar o nível de ajuste fiscal pretendido.

Por esse motivo, o banco suíço chama atenção para três pontos que devem ser acompanhados de perto pelos investidores: a escolha de quem comandará a equipe econômica, o grau de ambição do plano de consolidação fiscal a ser apresentado e a capacidade real do próximo governo de levar essas propostas adiante dentro do Congresso.

Na prática, o mercado tende a deslocar o foco, saindo do debate estritamente eleitoral para passar a discutir políticas públicas concretas. Os preços dos ativos já embutem uma probabilidade maior de que o ajuste fiscal avance após o primeiro turno, mas a continuidade dessa tendência dependerá menos do resultado das urnas isoladamente e mais da capacidade de converter a nova composição parlamentar em decisões legislativas efetivas.

Para quem acompanha o mercado, o recado das casas de análise é que o novo Legislativo contribui para reduzir incertezas e melhora as perspectivas de governabilidade em um eventual mandato de Flávio Bolsonaro. A visão predominante, porém, é que um Congresso mais favorável ao ajuste não se traduz automaticamente em reformas aprovadas nem em estabilização fiscal garantida.

A próxima fase desse movimento nos mercados dependerá de um fator mais difícil de antecipar do que as pesquisas eleitorais: a capacidade do próximo governo de costurar uma coalizão funcional, apresentar um plano fiscal que seja visto como crível e transformar essas intenções em legislação de fato aprovada.

O que isso significa para o investidor

A reação recente do câmbio ilustra como o mercado já está precificando parte desse otimismo com a nova aritmética do Congresso: segundo dados do scanner TradingView, o dólar era cotado a R$ 4,9913 em 11/10/2026, às 21h38 (horário de Brasília), recuo de 0,51% no dia. Esse movimento é coerente com a leitura de que o Legislativo mais conservador reduz, na avaliação de casas como Goldman Sachs e Pimco, o risco de uma política fiscal expansionista independentemente do resultado do segundo turno.

Como já destacou a AAR News em cobertura anterior sobre o primeiro turno de 2026, há quem alerte que a euforia do mercado pode se tornar uma armadilha para quem vier a governar: expectativas elevadas de reforma tendem a cobrar entrega rápida, e a história recente do Congresso brasileiro mostra resistência a ceder poder sobre o orçamento, conforme apontado pelo próprio Goldman Sachs nesta reportagem.

Para o investidor, a mensagem prática é dupla. De um lado, a nova composição parlamentar reduz um risco de cauda que preocupava o mercado — o de uma deterioração fiscal persistente, como resume a Pimco. De outro, nenhuma das casas citadas trata essa configuração como garantia de reforma: o ritmo do ajuste dependerá da escolha da equipe econômica, da ambição do plano fiscal e da capacidade de transformar maioria parlamentar em lei, pontos levantados pelo UBS e pela 4intelligence. Vale, portanto, acompanhar de perto os próximos sinais sobre nomes para a área econômica e o desenho de qualquer proposta de ajuste, antes de tratar o rali recente como algo definitivo.

Agregado por AAR News · fonte: InfoMoney

Texto reescrito pela redação AAR com assistência de IA · confira a fonte · como produzimos