A propriedade da família Cargil, perto da pequena cidade de Uvalde, no sudoeste do Texas, está sob o mesmo cultivo desde 1953. Steve Cargil, hoje com 67 anos, sempre imaginou que algum de seus três filhos daria sequência ao negócio, repetindo o que ele próprio fez ao herdar a terra do pai, segundo relato publicado pela BBC.
Essa expectativa foi abalada numa noite de 2018, quando uma tempestade de granizo destruiu em poucas horas meses de trabalho em plantações de repolho e cebola conduzidas por Cargil e seu filho Ryan. Em depoimento à BBC, Cargil recorda a reação do filho diante da perda total da colheita, questionando se valia a pena continuar no ramo diante de tanto esforço desperdiçado.
Com nenhum dos três filhos disposto a assumir integralmente a atividade agrícola, Cargil passou anos sem saber o que seria da terra — e da própria aposentadoria, já que produtores rurais normalmente não contam com um plano de previdência estruturado, segundo a reportagem.
Um contrato que mudou a lógica da fazenda
A virada veio em 2001, quando Cargil fechou um contrato de arrendamento de 600 acres — cerca de um quarto da área total da propriedade — com a empresa OCI Energy, responsável pela instalação de um parque solar de grande porte no local. Ele diz à BBC que jamais imaginou ver um projeto solar dentro de suas terras, e hoje descreve o episódio como uma sorte inesperada.
O acordo garante a Cargil um pagamento anual de 200 mil dólares (cerca de 150 mil libras), valor que, segundo ele, permitiu manter a operação agrícola mesmo em meio a um período severo de seca. Com a renda do arrendamento, conseguiu concentrar a cota de irrigação disponível apenas na parte da terra ainda cultivada, além de deixar de se preocupar tanto com oscilações nos custos de diesel e fertilizantes. Ele resume o impacto dizendo que sua vida mudou.
Texas ultrapassa a Califórnia na geração solar
O Texas, que segue sendo o maior produtor de petróleo do país, assumiu neste ano a posição de maior gerador de eletricidade a partir de parques solares nos Estados Unidos, superando a Califórnia, de acordo com dados citados pela BBC. Em março do ano passado, pela primeira vez, a geração solar no estado superou a geração a carvão, segundo levantamento da Administração de Informação sobre Energia dos EUA (EIA).
Mark Stover, diretor-executivo da Texas Solar and Storage Association, afirma à BBC que, em tardes quentes de pico de consumo, a energia solar já responde por cerca de um terço de toda a eletricidade utilizada no estado.
Segundo Stover, dois fatores explicam o crescimento acelerado do setor. O primeiro é a facilidade e a rapidez para conectar novos parques solares à rede elétrica texana, que opera de forma isolada do restante do sistema nacional dos Estados Unidos. O segundo é a demanda crescente por energia, impulsionada pelo rápido aumento populacional do estado — entre 2015 e 2025, a população do Texas cresceu 15,8%, tornando-o um dos estados que mais ganharam habitantes no país.
"We need a whole lot of power in Texas, and we need it quickly", disse Stover à BBC, ao descrever a urgência por novas fontes de geração.
O custo caiu, e os contratos ficaram mais atrativos
James Scott, vice-presidente de desenvolvimento de projetos da OCI, conta à BBC que anos de pequenos avanços na fabricação dos equipamentos reduziram o custo da tecnologia solar a ponto de torná-la hoje a forma mais barata de gerar eletricidade no estado — algo que, segundo ele, ninguém apostaria há duas décadas.
Uma vez concluído um projeto, o preço da energia gerada pode ser travado por décadas, já que a matéria-prima — a luz solar — não tem custo. Scott menciona a possibilidade de contratos de 40 dólares por megawatt-hora válidos por 25 anos, modelo que, segundo ele, atrai grandes compradores corporativos como Amazon e Apple, interessados em previsibilidade de preço no longo prazo. Em comparação, novas usinas a carvão nos Estados Unidos produzem energia a um custo próximo de 90 dólares por megawatt-hora, segundo a EIA.
Produtores rurais no centro da expansão
Os agricultores se tornaram peça central desse crescimento porque os desenvolvedores de projetos solares precisam de grandes extensões de terreno plano. Stover afirma que o setor hoje distribui renda capaz de atravessar gerações dentro das famílias, por meio de contratos de arrendamento que costumam durar entre 25 e 30 anos e têm valor reajustado anualmente — permitindo a alguns proprietários se aposentar, constituir fundos familiares ou simplesmente manter a fazenda financeiramente viável.
Stover também contesta a ideia de que a energia solar ocupa grandes porções do território texano, afirmando que o setor utiliza menos de 0,15% da área do estado.
Resistência local em Franklin County
Nem todos recebem a expansão solar com entusiasmo. No condado de Franklin, no nordeste do Texas, um pequeno grupo de moradores vem se opondo ao avanço dos projetos há alguns anos.
BF Hicks, advogado local cuja família possui terras na região desde o século 19, relata à BBC ter visto vizinhos assinarem contratos de 30 anos com empresas do setor e máquinas removerem carvalhos centenários próximos à sua propriedade. Ele descreve um verão em que a fumaça da queima de vegetação removida pairou sobre a cidade por semanas, e diz que a situação ficou especialmente dolorosa quando um parque solar foi instalado ao lado do cemitério de sua família, onde parentes estão sepultados há cerca de dois séculos.
David Truesdale, agente federal aposentado que se mudou para o condado em busca de uma vida mais tranquila, afirma que passou a se envolver no debate depois de descobrir que um projeto solar seria instalado perto de sua casa — e que, pela legislação texana, nenhuma avaliação ambiental seria exigida para isso. Ele também cita preocupação com as grandes unidades de baterias de íon-lítio instaladas ao lado de muitos parques solares, comparando o risco a incêndios que já ocorreram em baterias semelhantes usadas em bicicletas elétricas, nos quais uma unidade em chamas pode provocar reação em cadeia nas demais.
Tanto Hicks quanto Truesdale afirmam que sua oposição não tem motivação política — o condado é majoritariamente conservador, mas seus moradores conseguiram aprovar uma das primeiras moratórias municipais contra novas construções solares no estado, medida posteriormente revogada após pressão jurídica de desenvolvedores do setor. As queixas da região refletem um desconforto mais amplo observado em outras áreas rurais do Texas, relacionado a impacto visual, escoamento de água após a limpeza de terrenos e riscos ligados às unidades de armazenamento em baterias.
Divergências políticas sobre o futuro do setor
O presidente Donald Trump já classificou a energia solar e eólica como prejudiciais aos agricultores e promoveu medidas para reduzir incentivos fiscais destinados a projetos de energia renovável. Ainda assim, pesquisa da empresa Fabrizio Lee and Associates, que presta serviços de sondagem para Trump, mostrou em fevereiro que 68% dos eleitores republicanos acreditam que o país precisa de todas as formas de geração de eletricidade, incluindo a solar em escala comercial, para manter os custos sob controle.
Stover afirma ter encontrado apoio amplo na Assembleia Legislativa do Texas, de maioria republicana, onde, segundo ele, há reconhecimento de que essas tecnologias trazem ganhos de confiabilidade para a rede elétrica do estado.
De volta a Uvalde, Steve Cargil diz não ter planos de se aposentar no curto prazo, mas se mostra mais otimista quanto à possibilidade de a fazenda chegar a uma quinta geração da família, agora que o contrato com o parque solar deu estabilidade financeira ao negócio. Ele resume a experiência repetindo uma frase do pai: que é melhor ser sortudo do que ser esperto, e que, neste caso, a sorte foi o que fez a diferença.
O que isso significa para o investidor
O caso texano ilustra como a diversificação energética pode se tornar uma fonte relevante de receita para ativos antes dedicados exclusivamente à produção agrícola, criando um fluxo de caixa previsível por décadas e menos exposto a choques climáticos ou de commodities. Para investidores atentos ao setor de energia nos Estados Unidos, o avanço solar dentro de um estado historicamente identificado com petróleo reforça a tese de que a transição energética avança mesmo em territórios de forte tradição em combustíveis fósseis, muitas vezes por razões puramente econômicas — custo e velocidade de conexão à rede — e não por preferência ideológica.
Ao mesmo tempo, a resistência observada em comunidades como Franklin County e as sinalizações políticas da administração Trump contra incentivos a renováveis indicam que o ambiente regulatório para o setor pode seguir instável nos próximos anos, especialmente no nível federal. Investidores expostos a empresas de geração solar ou armazenamento em baterias devem acompanhar de perto o desenho de incentivos fiscais, a evolução de moratórias locais e o apetite de grandes compradores corporativos por contratos de longo prazo, fatores que, segundo o material, têm sustentado a economia desses projetos.
Vale observar também o papel dos contratos de fornecimento de longo prazo mencionados pela OCI como um elemento central da atratividade financeira do setor: a possibilidade de travar preços por décadas oferece previsibilidade tanto para geradoras quanto para grandes consumidores corporativos de energia, um fator que tende a pesar na avaliação de risco de projetos semelhantes em outras regiões dos Estados Unidos.
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