Uma reportagem da CNBC revelou que contratos de apostas sobre eleições negociados em plataformas como Kalshi e Polymarket vêm registrando picos de preço suspeitos capazes de distorcer a percepção pública sobre o favoritismo de candidatos. O caso mais emblemático é o da prefeitura de Los Angeles, onde o mercado previu com folga a vitória de um candidato que terminou em terceiro lugar na votação real.
Segundo a CNBC, o episódio reacende a discussão sobre até que ponto esses mercados — cada vez mais citados como termômetro político — podem ser manipulados por apostadores com recursos suficientes para empurrar os preços na direção desejada, gerando a falsa impressão de consenso entre os eleitores.
A surpresa Spencer Pratt
De acordo com o material apurado pela CNBC, Spencer Pratt, ex-estrela de reality show que nunca havia ocupado cargo eletivo, transformou a crítica à resposta da cidade ao incêndio de Palisades — que destruiu sua casa — em bandeira de campanha para a prefeitura de Los Angeles.
A corrida mobilizou mais de 47 milhões de dólares em negociações nas plataformas Kalshi, Polymarket U.S. e Polymarket International, tornando-se a disputa municipal mais negociada de 2026, conforme a reportagem. Na véspera da primária de junho, um dos mercados chegava a dar 78% de chance de Pratt avançar ao segundo turno de novembro.
O resultado contrariou as apostas: Pratt terminou em terceiro lugar. Apoiadores do candidato usaram o erro de previsão para questionar a legitimidade do pleito, o que levou Dean Logan, registrador-escrivão do condado de Los Angeles, a declarar à CNBC que os mercados de previsão podem ampliar a confusão quando suas projeções são tratadas como mais autoritativas do que a contagem real dos votos.
A CNBC aponta que a discrepância entre pesquisas eleitorais tradicionais, mercados de previsão movidos a especulação e o resultado final das urnas ganha peso à medida que esse tipo de aposta se torna mais popular nas eleições americanas — mesmo sem seguir a metodologia das pesquisas políticas convencionais.
O levantamento da Anti-Corruption Data Collective (ACDC), organização sem fins lucrativos de Washington citada pela reportagem, mostra que o volume apostado em contratos ligados às eleições legislativas de 2026 já é mais do que o triplo do registrado nas eleições de 2024. A Kalshi informou ainda que, nos mercados das eleições de meio de mandato, o número de pessoas que apenas acompanham as cotações supera o de apostadores efetivos numa proporção de 5 para 1.
Picos de preço sob suspeita
Mesmo sendo um contrato líquido e amplamente negociado, o mercado sobre a prefeitura de Los Angeles registrou picos de preço identificados pela própria Kalshi, segundo estudo de caso publicado pela empresa em julho. Um pico de preço é definido como um salto temporário, mas expressivo, que pode fazer um resultado parecer mais provável do que realmente é — fenômeno que pode ocorrer tanto por novas informações quanto pela compra concentrada de grande volume de contratos.
De acordo com a Kalshi, em 20 de maio um apostador gastou 1,25 milhão de dólares em contratos "Sim" para a vitória de Pratt. Uma das operações fez o preço dos contratos saltar de 29 para 45 centavos — ou seja, a chance percebida de vitória de Pratt subiu de 29% para 45%. Em nove segundos, porém, o preço retornou ao patamar anterior, segundo o estudo de caso da empresa.
Robert DeNault, chefe de fiscalização da Kalshi responsável por rastrear atividades incomuns na plataforma, afirmou à CNBC que "é possível garantir que há traders racionais nesse mercado dispostos a fazer as operações que trazem o preço de volta para onde ele deveria estar" e completou que, ao fim do dia, o preço do contrato de Pratt estava mais baixo do que no início.
A análise independente feita pela ACDC para a CNBC, no entanto, identificou diversos outros picos de preço na Kalshi e na Polymarket International ao longo da corrida de Los Angeles que favoreceram as chances de Pratt — a análise não incluiu dados da Polymarket U.S. Os dados da ACDC confirmam o episódio relatado pela Kalshi, mas apontam que, ao ampliar a janela de observação para três horas após o pico, o preço se estabiliza três centavos acima do patamar original e permanece assim por cerca de duas horas antes de corrigir totalmente. Para a ACDC, quanto mais tempo um aumento de preço se sustenta, maior o risco de ele ser interpretado como sentimento genuíno de mercado.
A pesquisa da organização também mapeou a extensão do problema: entre 167 mercados ligados a disputas legislativas na Polymarket International e na Kalshi com volume superior a 100 mil dólares, 38 — cerca de 23% do total — registraram picos de preço de 30 centavos ou mais.
O caso Stratton, em Illinois
Um dos exemplos citados pela CNBC envolve o contrato da Kalshi sobre a indicação de Juliana Stratton como candidata democrata ao Senado por Illinois. Segundo a ACDC, em 3 de março duas compras se destacaram em um mercado cuja ordem mediana até o dia da eleição era de apenas 12 dólares: um apostador gastou 5 mil dólares em contratos favoráveis à candidatura da política, levando o preço de 47 para 79 centavos.
O preço voltou a 47 centavos em três segundos, mas cerca de um minuto depois disparou para 99 centavos após a compra de mais 3 mil dólares em contratos. Na sequência, recuou para 52 centavos — cinco centavos acima do ponto de partida —, o que significa que uma pessoa ou grupo gastou 8 mil dólares e, no processo, elevou artificialmente a percepção de que a vitória de Stratton era mais provável.
Duas semanas depois, Stratton venceu a primária democrata. Ela não comentou o caso diretamente, mas um porta-voz de seu escritório remeteu a CNBC a uma pesquisa da Public Policy Polling divulgada no mesmo dia do pico de preço, que já apontava Stratton na liderança. Em nota à CNBC, um porta-voz da Kalshi afirmou que "como é comum na Kalshi, o mercado se corrigiu rapidamente para um preço próximo do valor justo".
A ACDC reconhece que é impossível determinar com certeza a motivação por trás dessas operações. O lucro, segundo a organização, é um motivo imperfeito: nos mercados de previsão, os contratos variam entre 0 e 1 dólar, refletindo a probabilidade percebida de um evento ocorrer, e contratos mais caros oferecem retorno potencial menor — quem compra a 99 centavos ganha apenas 1 centavo se o resultado previsto se confirmar, e ainda há taxas de transação que corroem esse ganho.
Michelle Kendler-Kretsch, pesquisadora da ACDC, questionou à CNBC: "se a teoria é que os mercados de previsão são precisos por causa do incentivo de lucro, a ausência desse incentivo levanta a pergunta sobre que tipo de objetivo alguém que faz uma operação dessas realmente tem para si mesmo". Para a reportagem, influenciar o resultado eleitoral é uma resposta plausível.
O efeito sobre a percepção do eleitor
Um novo estudo financiado pelo Brennan Center for Justice, organização de defesa de direitos sediada em Nova York e classificada pela reportagem como de orientação progressista, mostrou que eleitores ficaram entre 10 e 20 pontos percentuais mais propensos a acreditar que um candidato venceria quando os mercados de previsão o favoreciam — independentemente do que diziam as pesquisas eleitorais tradicionais. A pesquisa, realizada em setembro, ouviu 1.994 eleitores registrados.
Dados compartilhados pela ACDC com a CNBC também mostram que manipular as cotações é mais fácil e barato em mercados com pouco volume de negociação: entre 18 mil mercados ativos ligados às eleições legislativas na Polymarket International, na Polymarket U.S. e na Kalshi, 88% poderiam ter seus preços movidos em 10 centavos com uma única operação abaixo de mil dólares.
Como as plataformas tentam coibir manipulação
Apesar dos episódios relatados, a CNBC destaca que os mercados da Kalshi costumam acertar os resultados eleitorais. Em publicação no próprio site, a empresa afirmou que, desde 2024, quando seus mercados favoreciam um candidato, ele venceu em aproximadamente 9 de cada 10 casos. O jornal The Washington Post, citado na reportagem, analisou 268 candidatos nas primárias deste ano que receberam entre 70% e 80% de chance de vitória na Kalshi ou na Polymarket em algum dia nos dois meses anteriores ao pleito — três quartos deles venceram.
A Kalshi afirma estar trabalhando para reduzir as preocupações sobre distorção eleitoral. A empresa incluiu, ainda neste mês, novos recursos de transparência em seus mercados para as eleições de meio de mandato, com rótulos para contratos de pouca atividade de negociação e feeds ao vivo mostrando operações individuais. A Polymarket, por sua vez, lançou um sistema próprio de vigilância voltado especificamente para eleições, descrito pela empresa como destinado a detectar tentativas de manipular mercados eleitorais, distorcer probabilidades ou fabricar aparência de consenso.
A Kalshi disse à CNBC que utiliza algoritmos para gerar alertas com base em parâmetros de atividade de negociação incomum, incluindo horários e volumes suspeitos, além de saltos de preço. Não ficou claro se os protocolos internos da empresa dispararam alertas durante as operações envolvendo Pratt; a Kalshi não respondeu ao pedido de esclarecimento da CNBC sobre esse ponto.
Tanto a Kalshi quanto a Polymarket U.S. são reguladas pela Commodity Futures Trading Commission (CFTC), agência federal independente cujas regras visam prevenir manipulação de mercado e uso de informação privilegiada. Os preços e o volume de negociação são publicamente visíveis e, no caso da Kalshi, o livro de ofertas é público em corretoras de derivativos, permitindo que usuários sinalizem operações suspeitas. As duas plataformas também coletam informações de identificação dos clientes, incluindo nome legal completo e número de Seguro Social — mas, segundo a reportagem, o público em geral não tem acesso à identidade por trás de cada operação.
Shana Bautista, chefe de inteligência e investigações globais da Polymarket e ex-funcionária do FBI com experiência em finanças centralizadas fora da blockchain, disse à CNBC que obter informações sobre uma operação específica exige o uso de intimação judicial ou mandado de busca.
Em abril, a Polymarket International anunciou parceria com a empresa de análise de blockchain Chainalysis para rastrear negociações suspeitas em sua plataforma internacional. Adam Hart, gerente sênior de produto da Chainalysis, mostrou à CNBC os dados que a firma coleta sobre cada operador da Polymarket, incluindo número de operações, valor total de compras e vendas, proporção entre o que é apostado e a atividade total do usuário, além de lucros e perdas acumulados.
Hart detalhou à CNBC uma investigação conduzida em parceria com a Polymarket sobre o caso de Gannon Ken Van Dyke, soldado americano acusado de usar informação classificada para apostar na remoção do presidente venezuelano Nicolás Maduro e na entrada de forças americanas na Venezuela. Van Dyke se declarou inocente. Segundo Hart, a carteira do militar foi sinalizada por registrar apostas incomumente lucrativas e nunca perder. Ele acabou identificado em parte porque fez pouco para esconder sua identidade: suas carteiras eram financiadas por corretoras de criptomoedas que exigem verificação de identidade, e ele transferiu cerca de 400 mil dólares em ganhos para uma corretora americana tradicional.
Nem toda operação que parece suspeita é, de fato, manipulação — pode ser apenas a aposta de um especulador habilidoso ou de um apoiador entusiasmado. A CNBC cita o caso de "Theo", apostador francês anônimo que faturou cerca de 85 milhões de dólares em contratos favoráveis a Donald Trump na eleição de 2024. A firma de análise on-chain Bubblemaps rastreou aproximadamente 60 milhões de dólares das apostas de Theo distribuídos em ao menos dez contas na Polymarket, ligando a atividade a carteiras de depósito de duas corretoras de criptomoedas de propriedade do apostador — que afirmou ter baseado suas apostas em pesquisas próprias de vizinhança e em ligações feitas para estados decisivos.
O que isso significa para o investidor
Para quem acompanha mercados como fonte de sinal — seja político, seja econômico — o episódio relatado pela CNBC é um lembrete de que liquidez não é sinônimo de precisão instantânea. Os próprios dados da Kalshi mostram que, no agregado, seus mercados eleitorais têm histórico de acerto elevado, mas os casos de Los Angeles e Illinois comprovam que janelas curtas de preço podem ser distorcidas por operações concentradas, mesmo em contratos de alto volume.
Investidores que utilizam prediction markets como insumo para decisões — de alocação a análise de risco político — devem tratar picos de preço isolados com cautela redobrada, especialmente em mercados de baixa liquidez, onde a ACDC identificou que a maioria dos contratos pode ser movida de forma significativa com valores relativamente pequenos. A diferença entre o preço de curtíssimo prazo e o preço sustentado por horas é o ponto central levantado pela apuração.
O movimento das próprias plataformas — Kalshi com rótulos de transparência e feeds de operações, Polymarket com sistema de vigilância e parceria com a Chainalysis — sinaliza que o setor reconhece o problema e tenta se antecipar a uma regulação mais dura por parte da CFTC. Para quem opera ou observa esses mercados, acompanhar a adoção efetiva dessas ferramentas, e não apenas seus anúncios, será o termômetro de quanto a classe de ativo consegue se blindar de tentativas de manipulação antes das eleições de 2026.
Agregado por AAR News · fonte: CNBC
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