O setor de reformas residenciais nos Estados Unidos vive um momento de sinais cruzados, segundo reportagem da CNBC publicada na newsletter Property Play, de Diana Olick. Historicamente, a atividade de remodelação responde a duas forças opostas: por um lado, cresce quando famílias se mudam e adaptam novas casas; por outro, também se fortalece quando proprietários decidem não vender e preferem investir no imóvel atual. Com o mercado imobiliário praticamente congelado por juros elevados, preços altos e confiança fraca do consumidor, fica em aberto qual dessas forças vai prevalecer.
De acordo com o mais recente Leading Indicator of Remodeling Activity (LIRA), produzido pelo Remodeling Futures Program do Joint Center for Housing Studies da Universidade Harvard, os gastos anuais com reformas e reparos devem permanecer relativamente estáveis até o fim de 2027. O indicador projeta crescimento de apenas 1,5% ano a ano até o terceiro trimestre.
Gastos devem se manter próximos de US$ 525 bilhões
Rachel Bogardus Drew, diretora do programa de remodelação futura do centro de Harvard, afirmou em comunicado que os gastos de varejo com produtos de construção estão estagnados ou em queda, e que as licenças para reforma também patinaram — um quadro que, segundo ela, aponta para atividade de renovação persistentemente fraca. Drew projetou que os gastos anuais devem girar em torno de US$ 525 bilhões até o terceiro trimestre do próximo ano.
Chris Herbert, diretor-executivo do mesmo centro, reforçou o tom cauteloso ao dizer, também em comunicado, que os ventos contrários observados atualmente podem reduzir ainda mais o crescimento dos gastos com reforma nos próximos trimestres.
Indicadores de construção e vendas reforçam o cenário fraco
Os dados oficiais do mercado imobiliário dos EUA corroboram esse diagnóstico. O levantamento mensal do U.S. Census Bureau sobre construções de casas unifamiliares (housing starts) em setembro veio bem abaixo das expectativas, assim como as licenças de construção, indicador usado para antecipar a atividade futura do setor. As vendas de imóveis pendentes, medidas por contratos assinados e acompanhadas pela National Association of Realtors (NAR), também despencaram além do previsto pelo mercado.
NAHB vê sentimento estável, mas sem grande expansão
Um relatório separado, divulgado em outubro pela National Association of Home Builders (NAHB), trouxe leitura um pouco mais positiva sobre o sentimento entre profissionais de reforma, embora também não projete crescimento expressivo para 2027. Elliott Pike, presidente nacional do conselho de remodeladores da NAHB e profissional do setor em Homewood, no Alabama, disse que o sentimento dos remodeladores permaneceu estável no terceiro trimestre, ainda que remodeladores em certas regiões do país continuem relatando problemas com custos elevados de materiais e dificuldade para encontrar mão de obra suficiente para concluir projetos no prazo. Pike acrescentou que a incerteza econômica tem deixado parte dos clientes em potencial hesitante em avançar com projetos.
Houzz vê otimismo entre profissionais de construção
Já outro relatório de outubro, da Houzz — plataforma de inteligência artificial voltada a profissionais de construção e design e a proprietários de imóveis —, mostrou uma perspectiva mais favorável, com ressalvas. Segundo o levantamento, os profissionais de construção encerram 2026 com otimismo, com expectativas no nível mais alto desde o início de 2022, após um período prolongado de atividade fraca. Já as empresas de design adotam postura mais ponderada, embora também cautelosamente otimista.
Marine Sargsyan, chefe de pesquisa econômica da Houzz, afirmou que os custos de combustível seguem sendo um ponto de pressão para a maioria dos negócios do setor, com alguns profissionais repassando esses custos aos clientes por meio de preços mais altos e sobretaxas, enquanto outros optam por absorver o impacto em suas margens.
O que isso significa para o investidor
Para quem acompanha o mercado imobiliário americano a partir do Brasil, o conjunto de indicadores citados pela CNBC sugere um setor de reforma em compasso de espera, refletindo o travamento mais amplo do mercado de compra e venda de imóveis nos EUA. A combinação de juros altos, preços elevados e confiança fraca do consumidor — fatores mencionados na reportagem — tende a limitar tanto as mudanças residenciais quanto os investimentos em reforma ligados a elas, ainda que parte da demanda por remodelação possa ser sustentada por proprietários que optam por não vender.
A divergência entre os relatórios citados — a cautela do LIRA e da NAHB de um lado, e o otimismo mais recente da Houzz entre profissionais de construção do outro — reforça que o cenário ainda não está definido. Investidores com exposição a empresas de materiais de construção, varejo de reforma ou serviços ligados ao setor imobiliário residencial americano devem acompanhar os próximos dados de housing starts, licenças de construção e vendas pendentes divulgados pelo Census Bureau e pela NAR, citados na reportagem como termômetros antecedentes da atividade de remodelação.
Vale observar também o comportamento dos custos de insumos, como combustível, mencionado pela Houzz como fator de pressão sobre margens e preços no setor. Esse tipo de custo, somado à disponibilidade de mão de obra citada pela NAHB, pode ser um indicador relevante de como as empresas do setor vão repassar pressões de custo aos consumidores nos próximos trimestres — e, por consequência, de como o mercado de reforma residencial americano vai se comportar até 2027.
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