O documento que a Anthropic protocolou para sua abertura de capital reúne, lado a lado, motivos para entusiasmo e para cautela, segundo reportagem da CNBC. De um lado, números de expansão comercial que impressionam; de outro, prejuízos e compromissos financeiros em escala que preocupam parte do mercado.
Os otimistas destacam um salto de 1.300% nas vendas anuais, retenção líquida de receita de 900% e margem bruta implícita de 85%. Já os céticos apontam para algo em torno de 80 bilhões de dólares em perdas líquidas no primeiro semestre, além de centenas de bilhões de dólares em compromissos de capacidade computacional e mais de 90 páginas dedicadas a fatores de risco no prospecto, conforme a CNBC.
Uma avaliação sem precedentes
Seja qual for a leitura, os valores envolvidos colocam a Anthropic no caminho de disputar a maior oferta inicial de ações já registrada. A operação também joga os investidores em terreno inédito: trata-se da primeira companhia dedicada exclusivamente a inteligência artificial a buscar a bolsa, num momento de juros em alta e de dúvidas crescentes sobre o ritmo de investimento no setor, segundo a reportagem.
A empresa havia sido avaliada em 965 bilhões de dólares em maio e, de acordo com informações citadas pela CNBC, busca agora uma faixa entre 1,5 trilhão e 2 trilhões de dólares para o IPO — patamar que a colocaria imediatamente entre as dez empresas de tecnologia mais valiosas dos Estados Unidos.
Denny Fish, gestor de carteiras da Janus Henderson Investors, classificou o episódio como um divisor de águas tecnológico ao conversar com o programa 'The Exchange', da CNBC, na segunda-feira. Para ele, daqui a uma década o setor vai olhar para trás e reconhecer ali a maior virada tecnológica já vivida — ainda que, em suas palavras, faltem ainda muitos detalhes para avaliar o caso com precisão.
Base de clientes e concentração de receita
Fundada em 2021 por um grupo de pesquisadores que deixou a OpenAI, a Anthropic ficou conhecida por seus modelos Claude, vendidos a empresas por meio de contratos corporativos e assinaturas. No prospecto divulgado na segunda-feira, a companhia informou ter mais de 11.900 clientes corporativos com gastos de ao menos 100 mil dólares no ano anterior, além de mais de 1.900 clientes com desembolsos de 1 milhão de dólares ou mais e cerca de 250 clientes acima de 10 milhões de dólares. Nos primeiros nove meses de 2026, apenas cinco clientes responderam por cerca de um quarto da receita total, segundo o documento.
Erica Brescia, diretora administrativa da Redpoint Ventures — fundo que investe na companhia —, disse à CNBC que é fácil esquecer o estágio inicial em que o negócio ainda se encontra diante do desempenho já apresentado. Para ela, há ainda uma oportunidade enorme pela frente, e a oferta pública representa uma chance rara de investidores pessoa física participarem da transformação do setor sem depender apenas de ações ligadas a semicondutores.
Os céticos e o peso das perdas
Para quem olha estritamente os fundamentos do negócio, a venda da ação é considerada difícil de justificar. A companhia registrou prejuízo de 80,7 bilhões de dólares nos primeiros seis meses deste ano, ante perda de 12,9 bilhões de dólares no mesmo período de 2025 — ainda que boa parte desse salto decorra de mudanças no valor justo de notas conversíveis e passivos derivativos, conforme detalhado no material. Ao mesmo tempo, os compromissos de capacidade computacional seguem crescendo, enquanto modelos abertos e mais baratos ampliam a concorrência.
David Trainer, executivo-chefe da consultoria de pesquisa financeira New Constructs, descreveu a futura oferta como uma manobra oportunista de Wall Street. Sua empresa já havia publicado, no mês passado, um relatório chamando a operação de IPO mais absurdo de 2026 e de teste inédito da credulidade dos investidores.
Após examinar o prospecto, Trainer afirmou em entrevista à CNBC na terça-feira que não mudou de opinião. Segundo ele, a inteligência artificial pode ser uma ferramenta extraordinária para a sociedade, mas não necessariamente lucrativa para as empresas que a exploram, e ele se diz incomodado com a posição competitiva da companhia, com o calendário pouco transparente de venda de ações por parte de executivos e sócios, e com o fato de os compromissos e passivos superarem em muito o caixa disponível.
Trainer disse ainda que diversos acionistas construíram participações na empresa e agora buscam uma saída financeira, e comparou o momento, por sua experiência acumulada durante a bolha das pontocom e a crise financeira de 2008, a um acidente de trem em câmera lenta.
Roger McNamee, investidor que esteve nos estágios iniciais de Google e Facebook, disse à CNBC na terça-feira que a oferta representa um risco considerável para quem for investir, e que o setor de IA ainda tem muito a comprovar. Cofundador da Elevation Partners, ele afirmou ao programa 'Squawk on the Street' que o documento de registro deveria ser tratado como uma narrativa especulativa bem construída, mas que suas centenas de páginas não servem para esclarecer a história contada, e sim para sustentá-la. Ele acrescentou que boa parte das críticas que recebe nas redes sociais vem de pessoas que simplesmente gostam da narrativa da empresa, ainda que isso não mude sua avaliação sobre o risco envolvido.
Próximos passos até a estreia
O protocolo público aproxima a Anthropic do IPO, mas ainda há etapas a cumprir. Falta a empresa percorrer o roteiro tradicional de apresentações a investidores, medir o apetite do mercado, fixar o preço da oferta e distribuir as ações. Somente depois disso a companhia deve estrear na Nasdaq sob o código 'ANT'.
Investidores devem acompanhar de perto cada novo desdobramento. Gil Luria, diretor administrativo da D.A. Davidson, disse em entrevista na terça-feira que ainda quer mais clareza sobre o caminho da empresa até a rentabilidade de longo prazo e, especialmente, sobre o preço final da oferta. Para ele, se a precificação for adequada, o desempenho tende a ser positivo, já que a Anthropic segue sendo a principal representante pura do setor de inteligência artificial em bolsa — o que, segundo Luria, deve atrair forte demanda de investidores que buscam esse tipo de exposição.
O que isso significa para o investidor
A oferta da Anthropic chega num momento em que o AAR já vinha acompanhando o movimento de companhias de IA se aproximando do mercado de capitais, como no caso das doações de ações feitas por SpaceX e Anthropic sob pressão por mais transparência ética, noticiado em 19/10/2026. A disputa entre visões tão opostas sobre o mesmo prospecto — de 'momento geracional' a 'ficção especulativa' — sinaliza que o preço final da oferta será decisivo para separar apostas de convicção de apostas especulativas.
Para quem acompanha os mercados brasileiros, o episódio é relevante sobretudo como termômetro de apetite ao risco em tecnologia: o Nasdaq operava em alta de 1,25%, aos 26.496,82 pontos, conforme scanner da TradingView em 27/10/2026 às 17h07 BRT, o que indica ambiente ainda favorável a grandes lançamentos do setor. Uma eventual repactuação de expectativas em torno da Anthropic tende a repercutir no humor geral com ações de IA, inclusive nas negociadas fora dos Estados Unidos.
Investidores de varejo que pensarem em participar da oferta devem observar, antes de tudo, o intervalo final de preço e a reação do mercado após a listagem, já que o próprio prospecto reconhece dezenas de fatores de risco ainda não precificados. A disparidade entre o crescimento de receita e o tamanho das perdas contábeis, somada à concentração de clientes-chave, reforça a necessidade de cautela na análise de quanto desse otimismo já estaria embutido na faixa de avaliação buscada pela companhia.
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