O investidor de varejo que tenta superar o mercado comprando ações individuais e ETFs complexos talvez estivesse em posição melhor apostando em fundos de índice amplos, segundo Victor Haghani, fundador e diretor de investimentos da Elm Wealth. Em entrevista ao programa "ETF Edge", da CNBC, nesta semana, ele questionou a ideia de que o investidor comum evoluiu significativamente em sofisticação ao longo das últimas décadas.
"Não tenho certeza de que os investidores sejam muito mais sofisticados do que eram 30 anos atrás", disse Haghani à CNBC. Para ele, o comportamento humano continua sujeito a vieses, em especial o que chamou de viés de extrapolação — a tendência de acreditar que padrões recentes vão se repetir no futuro.
Haghani foi um dos sócios fundadores da Long-Term Capital Management, fundo de hedge que ficou marcado na história financeira. Hoje, à frente da Elm Wealth, ele prioriza estratégias de investimento de baixo custo como pilar central de sua abordagem.
"É um ambiente que continua difícil para não profissionais gerarem alfa", afirmou à CNBC. Segundo ele, investidores de varejo são bem atendidos simplesmente tendo alguma exposição a fundos de índice mais amplos.
Acesso a estratégias sofisticadas não garante vantagem
Para Haghani, ter acesso a estratégias elaboradas não significa necessariamente obter vantagem competitiva no mercado. Ele citou nominalmente gestoras e empresas de trading de alta frequência como exemplo de players que operam em patamar diferente do investidor comum.
"Seja a Citadel, a Jane Street ou a Hudson River Trading, elas simplesmente fabricam dinheiro todos os dias. Então é um ambiente rico em oportunidades — se você tiver um bilhão de dólares para gastar em tecnologia a cada ano", disse à CNBC. Ele completou que, se o investidor de varejo está em casa tentando encontrar oportunidades, precisa entender que do outro lado da operação provavelmente está alguém como o CEO da Citadel, Ken Griffin, ou figura equivalente, e que isso dificilmente terminará bem para o pequeno investidor.
'Mais opções são, no fim, algo positivo'
Nem todos os participantes do mesmo debate compartilham o ceticismo de Haghani. Valerie Grimba, diretora de estratégia global de ETFs da RBC Capital Markets, enxerga um papel estratégico para fundos mais sofisticados dentro das carteiras de investidores de varejo.
"Mais opções são, no fim, algo positivo", disse Grimba na mesma entrevista à CNBC. Segundo ela, fundos que concentram entre 10 e 15 ações podem ajudar investidores a participar de temas de investimento específicos sem precisar acertar sozinhos qual será o grande vencedor do setor.
Grimba acrescentou que produtos baseados em derivativos podem ser usados para gerar renda de diferentes formas dentro de uma carteira. Ainda assim, ela fez questão de ressaltar que isso não dispensa o dever de casa do investidor sobre o que está comprando.
"É mais importante do que nunca que o investidor individual entenda o que está comprando", afirmou à CNBC. Para ela, o teste prático é simples: o investidor deveria ser capaz de explicar a um amigo o que compõe o ETF e qual é, de fato, o ativo por trás da aplicação.
O que isso significa para o investidor
O debate entre Haghani e Grimba expõe uma tensão real para quem aloca capital no exterior ou busca produtos estruturados mais complexos: a oferta de ETFs e instrumentos derivados cresceu, mas isso não equivale, por si só, a mais capacidade de análise por parte de quem compra. A visão de Haghani sugere que, para a maior parte do público não profissional, a aposta mais defensável continua sendo exposição ampla a índices, evitando tentar competir diretamente com gestoras que têm escala e tecnologia incomparáveis.
Por outro lado, a ponderação de Grimba é um alerta útil para quem já decidiu ir além do índice: ETFs temáticos concentrados e produtos com derivativos podem ter lugar numa carteira, mas exigem compreensão real da composição e dos trade-offs envolvidos — não apenas da tese de marketing por trás do produto.
Para o investidor brasileiro com acesso a ETFs internacionais ou produtos estruturados oferecidos por corretoras e bancos, a mensagem prática é dupla: avaliar se a exposição desejada já não é entregue de forma mais barata e simples por um fundo de índice amplo, e, caso opte por instrumentos mais sofisticados, exigir de si mesmo a capacidade de explicar claramente o que está sendo comprado antes de alocar capital.
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