A eleição legislativa de meio de mandato realizada na terça-feira nos Estados Unidos trouxe um resultado adverso para o Partido Republicano, e a explicação central, segundo reportagem da CNN, está na economia. Dois anos depois de Donald Trump e os republicanos chegarem ao poder prometendo resolver o custo de vida, parte do eleitorado diz se sentir pior do que estava antes.
A CNN destaca que a leitura não é tão simples quanto parece à primeira vista. Por indicadores agregados, a economia americana está em condição relativamente sólida: o desemprego está baixo, a ponto de economistas classificarem o mercado de trabalho como em situação de pleno emprego, o consumo das famílias permanece majoritariamente resiliente e o boom de investimentos ligados à inteligência artificial é descrito como um dos maiores ciclos de gastos da história econômica recente dos Estados Unidos.
Se a economia vai bem, por que o desgaste político?
Segundo a reportagem, a volta da inflação fez parte do eleitorado associar diretamente as próprias dificuldades financeiras a decisões centrais do governo Trump: tarifas de importação, flexibilização da regulação sobre inteligência artificial, restrições mais duras à imigração e, principalmente, a guerra contra o Irã.
"Se não fosse pela guerra no Irã, esta seria uma eleição de meio de mandato bem diferente", afirmou Heather Long, economista-chefe da Navy Federal Credit Union, à CNN.
A reportagem lembra que os americanos ainda não se acostumaram ao salto de preços que atingiu praticamente todos os setores de consumo desde 2021. A inflação havia recuado no último ano do governo Joe Biden, mas isso não foi suficiente para convencer o eleitorado a dar uma nova chance aos democratas em 2024 — e a irritação com o custo de vida elevado persistiu ao longo do retorno de Trump ao poder.
Um início de ano com narrativa econômica favorável
Até o começo de 2026, Trump e os republicanos tinham, segundo a CNN, um discurso econômico razoavelmente consistente para apresentar ao eleitorado. Em janeiro, a economia americana registrou o melhor mês de criação de empregos desde 2024. Os empregos na indústria de manufatura voltaram a crescer pela primeira vez em 14 meses.
Grandes restituições de imposto de renda, decorrentes da lei republicana conhecida como One Big Beautiful Bill Act, começaram a aparecer nas contas bancárias dos americanos. As taxas de financiamento imobiliário caíram abaixo de 6% pela primeira vez em três anos. O mercado acionário seguia batendo recordes, impulsionado pelas ações ligadas à inteligência artificial. A inflação ao consumidor, que havia atingido o menor patamar em quatro anos em abril de 2025, voltou a se aproximar desse piso em janeiro e fevereiro de 2026.
A guerra no Irã muda o cenário
O quadro se reverteu, segundo a reportagem, com o início da guerra entre os Estados Unidos e o Irã. Os preços do petróleo subiram a máximas de quatro anos, o diesel atingiu recorde histórico e os preços da gasolina nunca haviam estado tão altos em um dia de eleição nos Estados Unidos.
A CNN observa que os americanos reagem com particular irritação a preços elevados de combustíveis — exibidos em grandes painéis pelas cidades e sentidos semanalmente ao abastecer o carro. Segundo pesquisadores da Universidade Brown, citados na reportagem, os preços elevados de gasolina e diesel por si só adicionaram US$ 1.150 em custos para a família americana média desde o início da guerra.
Com a alta dos combustíveis, os rendimentos dos títulos públicos (yields) dispararam, e as taxas de financiamento imobiliário voltaram a subir — recentemente no ritmo mais acelerado em três anos. Depois de três anos seguidos em que os ganhos salariais superaram a alta de preços, essa tendência se inverteu em março, segundo a CNN: a inflação em recuperação passou a corroer o poder de compra dos trabalhadores, e o salário real médio do americano encolheu desde que Trump retornou ao governo.
A comparação com o primeiro mandato de Trump
A reportagem destaca que não é surpresa os americanos guardarem boas lembranças da economia durante o primeiro mandato de Trump: em todos os momentos daquele período, os salários dos trabalhadores cresceram mais rápido que os preços, quase no dobro do ritmo da inflação ao longo dos quatro anos.
Foi por isso que, em pesquisa da CNN realizada em outubro de 2024, os eleitores preferiram Trump à então vice-presidente Kamala Harris como melhor administrador da economia, por uma margem de 15 pontos percentuais. Na mesma época, a aprovação líquida de Biden em relação à economia era de -31 pontos, na última pesquisa da CNN antes de ele desistir da disputa.
Agora, segundo pesquisa da CNN realizada em outubro, a aprovação líquida de Trump na economia é de -46 pontos — pior do que a registrada por Biden. A CNN descreve o segundo mandato de Trump como uma história completamente diferente da primeira passagem pela Casa Branca, com a sensação, para muitos americanos, de que os custos estão fora de controle e o sonho americano se tornou inatingível.
Custos que pesam no bolso
A reportagem registra que o governo Trump e os republicanos no Congresso atribuem aos democratas a responsabilidade pelo cenário financeiro herdado, mas reconhece que algumas políticas do próprio governo — especialmente a guerra impopular — pioraram claramente o custo de vida dos americanos.
Além do impacto da gasolina, que acrescentou cerca de US$ 75 por mês aos gastos das famílias, outros custos associados a Trump e aos republicanos somam centenas de dólares mensais adicionais. A falha dos republicanos em prorrogar os subsídios ampliados do Affordable Care Act em 2025 fez os prêmios mensais do Obamacare subirem, em média, 58% neste ano.
Os custos de eletricidade subiram 8,7% durante o segundo mandato de Trump, período em que ele se tornou um dos maiores defensores do crescimento irrestrito da inteligência artificial, segundo a CNN. As políticas de imigração e as tarifas de Trump elevaram o custo de reparos automotivos, que avançaram 12,3% desde que ele assumiu o cargo, e também pressionaram os custos das construtoras, que subiram 13,3%.
As tarifas de Trump adicionaram US$ 820 em impostos para a família americana média neste ano, segundo dados da Tax Foundation citados pela reportagem.
"Digamos, para efeito de argumento, que Biden tenha errado totalmente: isso de forma alguma exime Trump", disse Steven Durlauf, economista da Universidade de Chicago que pesquisa desigualdade de riqueza e mobilidade social, à CNN. "A inflação foi mal administrada por Trump. Os eleitores precisam atribuir a responsabilidade às políticas do governo."
Uma economia em formato de K
Segundo a CNN, toda a evidência indica que foi exatamente isso que o eleitorado fez — uma das razões centrais da derrota republicana na eleição de terça-feira. A reportagem ressalta, porém, que a inflação é apenas parte da história: muitos americanos sentem que a economia os deixou para trás.
A chamada economia em formato de K explica parte do fenômeno: americanos mais ricos, com dinheiro investido em ações e casa própria, estão significativamente mais protegidos do aumento de custos do que americanos menos abastados, que vivem cada vez mais de salário em salário. Parte do problema, segundo a reportagem, é a falta de opções disponíveis para alcançar o sonho americano — uma escassez acentuada de vagas de creche e de moradia, que tira o acesso de boa parte da população.
"O ideal de classe média está se tornando cada vez mais inatingível", disse Durlauf à CNN.
O mesmo vale para o mercado de trabalho. Embora ainda relativamente forte, o emprego está longe do boom observado nos anos imediatamente posteriores à pandemia. Demissões em massa não se tornaram a norma, mas para quem está desempregado, as candidaturas parecem desaparecer no vazio. "Outra forma de dizer mercado de trabalho de baixa contratação e baixa demissão é mercado de falta de oportunidade", resumiu Heather Long à CNN.
O que isso significa para o investidor
Para quem acompanha ativos americanos a partir do Brasil, o quadro descrito pela CNN reforça um ponto relevante: indicadores agregados fortes — pleno emprego, consumo resiliente, bolsa em recordes puxada por inteligência artificial — não garantem estabilidade política nem previsibilidade de política econômica quando a percepção de custo de vida se deteriora. O desgaste eleitoral republicano, nesse contexto, é um sinal de que pressões inflacionárias localizadas (combustíveis, saúde, energia, construção) podem ter peso político desproporcional mesmo diante de dados macro favoráveis.
Do ponto de vista de alocação, o episódio sugere acompanhar de perto como o resultado eleitoral pode se traduzir em mudanças de rumo em pautas sensíveis citadas na reportagem — tarifas de importação, regulação de inteligência artificial e política migratória —, já que todas aparecem como vetores de custo mencionados pela CNN e, potencialmente, como temas de reposicionamento político daqui para frente.
A chamada economia em formato de K também é um alerta para investidores que monitoram consumo discricionário e varejo nos Estados Unidos: a divergência entre famílias com exposição a ativos financeiros e imóveis e famílias dependentes de renda corrente tende a se refletir de forma desigual em diferentes segmentos de consumo, o que pode seguir gerando resultados corporativos dispersos entre companhias voltadas a públicos de renda alta e de renda média-baixa.
Por fim, a trajetória de yields e taxas de financiamento imobiliário mencionada na reportagem — pressionada pelo choque de preços de energia decorrente da guerra no Irã — é uma variável a observar para quem opera renda fixa e ativos sensíveis a juros americanos, uma vez que o próprio texto associa o salto recente nos custos de crédito ao ambiente inflacionário reacendido no período eleitoral.
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