Economia · Estados Unidos

Inflação ao produtor nos EUA acelera em setembro e reacende pressão sobre o Fed

PPI avança 1,3% no mês e 6,3% no ano, maior patamar em mais de quatro anos, um dia após CPI também surpreender para cima

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A inflação ao produtor nos Estados Unidos subiu com força em setembro, atingindo o maior nível em mais de quatro anos e reforçando um quadro de pressões de preços mais amplo na economia americana, segundo dados do Bureau of Labor Statistics (BLS) divulgados nesta quinta-feira e citados pela CNN. O movimento chega poucas semanas antes das eleições de meio de mandato, em um momento em que o custo de vida já está no centro do debate eleitoral.

O Índice de Preços ao Produtor (PPI, na sigla em inglês) avançou 1,3% em relação ao mês anterior e 6,3% na comparação anual. Em agosto, o indicador havia subido 0,5% no mês, levando a taxa anual a 5,6%. O resultado de setembro representa, portanto, uma aceleração expressiva frente ao mês anterior.

O dado do PPI veio um dia depois da divulgação do Índice de Preços ao Consumidor (CPI) de setembro, que também mostrou pressões inflacionárias se espalhando por mais categorias. Segundo a CNN, a alta nos preços de gasolina elevou o CPI geral para uma taxa anual de 3,7%; já o núcleo do índice, que exclui alimentos e energia e é acompanhado de perto por analistas, subiu para 2,6%, ante 2,4% no mês anterior.

Números acima do esperado

Economistas consultados pela FactSet projetavam alta de 0,5% no PPI frente a agosto e taxa anual de 5,3%. O resultado efetivo superou essas estimativas e marcou o maior avanço mensal desde março de 2022, além da maior taxa anual desde dezembro de 2022 — ano em que a inflação americana havia atingido o patamar mais alto em quatro décadas.

Segundo o BLS, em dados que remontam a 2009, os preços de energia, impulsionados por conflitos geopolíticos, incluindo a guerra com o Irã, foram o principal motor da alta de setembro, respondendo por 80% do salto de 2,9% nos preços de bens. A CNN classificou esse como o maior aumento mensal já registrado na série histórica do indicador.

Pressões além da energia

As empresas americanas, no entanto, enfrentam pressões de custos que vão além do componente energético. O núcleo do PPI, que exclui alimentos e energia, subiu 0,7% — o ritmo mais rápido em cinco meses —, levando a taxa anual a 5%, o maior patamar desde janeiro de 2023.

Oliver Allen, economista sênior da Pantheon Macroeconomics, atribuiu parte da alta do núcleo a categorias ligadas a transporte sensíveis a combustíveis, como as tarifas aéreas. Segundo ele, os aumentos de preços em serviços foram mais moderados quando se exclui transporte, armazenagem e serviços de comércio — categoria que mede as margens de varejistas e atacadistas. "Não acho que os detalhes sejam tão ruins quanto sugerem os números de topo e de núcleo", disse Allen à CNN. "Mas ainda não são bons."

Allen acrescentou que os preços de energia mais altos ainda estão se propagando pela economia, e que os preços de bens de consumo finais, excluindo alimentos e energia — que subiram 0,2% em relação a agosto —, devem continuar avançando nos próximos meses.

Alimentos sob pressão e sinalização para o Fed

O PPI mede a variação média dos preços recebidos por produtores de bens e serviços e funciona como um indicador antecedente do que pode chegar ao consumidor final. Parte desses dados também alimenta o índice de Gastos com Consumo Pessoal (PCE), referência oficial de inflação usada pelo Federal Reserve em sua meta de 2%.

Joe Brusuelas, economista-chefe da RSM US, disse à CNN que, se os formuladores de política monetária buscavam evidências de inflação persistente, os dados de CPI e PPI de setembro as forneceram. Ele espera que o PCE, com divulgação prevista para ainda este mês, confirme essa tendência.

Segundo Brusuelas, o choque energético que elevou os custos de transporte já começa a aparecer nos preços de alimentos: os preços de vegetais frescos e secos subiram 41%, os de grãos avançaram 17,4% e os de oleaginosas, 11,4%, todos na comparação com agosto.

Varejo perde fôlego

Um relatório separado do Departamento de Comércio, também divulgado nesta quinta-feira, mostrou desaceleração nos gastos dos consumidores americanos. As vendas no varejo dos EUA cresceram 0,8% em setembro, após um avanço surpreendentemente forte de 1,3% em agosto. Excluindo as compras em postos de gasolina, o crescimento das vendas no varejo foi de apenas 0,2%.

Os dados de vendas no varejo são ajustados sazonalmente, mas não pela inflação: ao considerar o ritmo de alta de preços de 0,6% em setembro apontado pelo CPI, o crescimento real das vendas no mês foi ainda mais modesto.

"Os preços mais altos da gasolina estão começando a pesar porque, diferentemente do início do ano, não há um contrapeso vindo da política fiscal", escreveu Michael Pearce, economista-chefe para os EUA da Oxford Economics, em nota a investidores citada pela CNN. Segundo ele, o gasto adicional acumulado com gasolina neste ano já supera o aumento nas restituições de impostos registrado no ano anterior.

Na comparação anual, as vendas no varejo subiram 6,3% (ou 4,5%, excluindo gastos em postos de gasolina). Já na base trimestral anualizada, esse ritmo de crescimento caiu para 2,4%, o que, segundo Gary Schlossberg, estrategista global do Wells Fargo Investment Institute, sinaliza perda de força às vésperas da temporada de compras de fim de ano.

Reação nos mercados

Apesar dos dados de inflação mais quentes que o esperado, os juros dos títulos do Tesouro americano recuaram, com investidores buscando segurança em bonds em meio a uma queda nas ações ligadas a inteligência artificial, segundo a CNN. Os principais índices acionários tiveram desempenho misto: o S&P 500 caiu 0,3% e o Nasdaq recuou 0,9%, enquanto o Dow Jones subiu 0,6% no dia.

O que isso significa para o investidor

A combinação de PPI e CPI mais altos que o previsto em uma mesma semana reforça o argumento de que a inflação americana não está arrefecendo de forma linear, o que tende a manter o Federal Reserve cauteloso quanto ao ritmo de cortes de juros. Para o investidor brasileiro exposto a ativos globais, esse cenário mantém a volatilidade nas taxas longas dos Treasuries como variável a ser monitorada, já que qualquer sinalização de inflação persistente nos EUA tende a influenciar o apetite por risco em mercados emergentes.

A reação dividida das bolsas americanas — com S&P 500 e Nasdaq em queda, mas Dow Jones em alta no mesmo pregão — ilustra como o mercado ainda está processando se a aceleração de preços é um efeito pontual, ligado principalmente a energia, ou um sinal mais estrutural de pressão inflacionária. Segundo cotação da TradingView referente a 15 de outubro de 2026, às 20h43 (horário de Brasília), o S&P 500 era negociado a 7.744,06 pontos, alta de 0,33% no dia, enquanto o Nasdaq estava em 26.713,03 pontos, com ganho de 0,08% — níveis que mostram os índices em patamares elevados mesmo após o ruído causado pelos dados de inflação relatados pela CNN.

Para quem acompanha renda fixa e câmbio, o desempenho mais fraco das vendas no varejo ao ser ajustado pela inflação — combinado à perda de fôlego sinalizada na base trimestral anualizada — sugere que o consumidor americano começa a sentir o peso dos preços de energia sem o alívio fiscal observado anteriormente. Esse enfraquecimento gradual do consumo, somado a pressões de custo em alimentos e bens industriais, é um fator que tende a manter o Fed em compasso de espera antes de sinalizar novos cortes, o que tem implicações diretas sobre o fluxo de capital para mercados como o brasileiro nos próximos meses.

Agregado por AAR News · fonte: CNN

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