O roubo de mais de US$ 6 bilhões em ativos digitais sofrido pela Binance acelerou um movimento que já vinha ganhando força entre grandes investidores de bitcoin: a compra de proteção contra novas quedas de preço. A informação é da CoinDesk, que cita dados da Paradigm, rede de liquidez onde grandes operadores negociam contratos de derivativos em blocos privados.
Segundo a reportagem, no dia anterior ao ataque já havia sinais de que investidores institucionais buscavam seguro contra desvalorização do bitcoin, cotado em US$ 77.425,31 no momento da publicação. Esse viés se intensificou depois que um hacker retirou recursos da maior exchange de criptomoedas do mundo.
Como funcionou a corrida por puts
O instrumento usado nessas operações é a opção de venda, ou put, que dá ao comprador o direito de vender bitcoin a um preço pré-determinado, o chamado strike. O contrato só paga se a cotação do BTC cair abaixo desse valor combinado.
De acordo com Nicolas Quatravaux, head de EMEA da Paradigm, ouvido pela CoinDesk, a primeira grande operação ocorreu às 20h38 UTC, cerca de 15 minutos após os primeiros saques identificados na carteira da Binance e antes mesmo de o caso se tornar público.
Esse primeiro negócio envolveu a compra de 250 lotes — cada um representando um bitcoin — de puts com strike em US$ 78.000 e vencimento em 31 de outubro, somando cerca de US$ 20 milhões em valor nocional. Três minutos depois, outro lote de 250 contratos do mesmo put foi negociado, mas o comprador pagou cerca de 35% a mais pelo mesmo tipo de proteção.
A conta Altiorix Trades, que monitora fluxos de mercado na plataforma X, classificou as compras como reveladoras. Segundo a conta, citada pela CoinDesk, os contratos foram adquiridos com o bitcoin próximo de US$ 80,15 mil, e à noite o preço já negociava exatamente nesse patamar. A venda simultânea de opções de compra (calls) no mesmo strike de US$ 80 mil limitou qualquer ganho adicional em caso de alta do ativo.
Volume concentrado em apostas de baixa
Nas oito horas seguintes ao ataque, a Paradigm processou cerca de US$ 590 milhões em blocos de opções de bitcoin em valor nocional — montante equivalente a cerca de metade de todo o volume de blocos de opções de BTC negociado na Deribit, a maior bolsa de opções cripto, no mesmo intervalo.
O fluxo foi predominantemente baixista, com a maior parte do volume concentrada em puts. A hora de maior movimento, segundo a CoinDesk, ocorreu antes mesmo de a Binance se pronunciar oficialmente sobre o incidente e incluiu dois blocos de 1.000 bitcoins em puts com strike de US$ 74.000 e vencimento em meados de novembro, somando cerca de US$ 155 milhões em valor nocional.
A maior parte das compras se concentrou em puts com strikes próximos — ainda que ligeiramente abaixo — do preço à vista do bitcoin, e não em strikes muito mais distantes. Para Quatravaux, isso indica que o movimento não representa apostas especulativas de cauda, do tipo que paga apenas em cenários extremos de colapso, mas sim uma proteção de convicção contra uma possível correção de curto prazo.
Segundo o executivo, citado pela CoinDesk, as compras se concentraram em strikes entre US$ 74.000 e US$ 78.000, com vencimentos majoritariamente na mesma semana e em meados de novembro.
Deribit também registra aumento de proteção
A Deribit também viu alta na atividade de puts. A maior operação identificada envolveu uma estratégia com múltiplas pernas de puts distribuídas entre os vencimentos de novembro e dezembro, somando cerca de US$ 190 milhões. Outra operação relevante envolveu blocos de 500 bitcoins em puts de novembro com strike de US$ 64.000, além de algum fluxo em opções de compra com vencimento em março.
Quatravaux observou que nem todos os operadores adotaram postura defensiva, já que parte do fluxo também incluiu apostas de alta para prazos mais longos.
Mercado cripto se divide
Fora do universo de opções, o mercado amplo de criptomoedas mostrou comportamento desigual. As chamadas moedas de privacidade Monero (XMR) e Zcash (ZEC), além do token HYPE da Hyperliquid, resistiram melhor, enquanto bitcoin, ether e outras grandes criptomoedas, assim como algumas altcoins menores, perderam valor. Tokens do setor de finanças descentralizadas (DeFi) também ficaram sob pressão.
O banco Standard Chartered alertou que a fraqueza nos preços pode persistir e que um novo patamar de estabilidade só deve se formar depois que surgirem mais detalhes sobre o hack e que exchanges e protocolos envolvidos conseguirem descongelar os recursos afetados.
Outros desdobramentos do dia
A própria Binance estimou o impacto total do ataque em cerca de US$ 6,3 bilhões em ativos roubados. A exchange informou ter conseguido congelar cerca de US$ 3 bilhões em ativos, incluindo US$ 2,3 bilhões em stablecoins USDT e USDC, segundo reportagem da CoinDesk.
Em outro rastreamento da blockchain feito pela CoinDesk, identificou-se que o autor do ataque dividiu 18.270 bitcoins — equivalentes a cerca de US$ 1,4 bilhão — em 19 carteiras, sendo 17 delas com exatamente 1.000 BTC cada. Nenhuma dessas carteiras havia movimentado os fundos desde a noite de quinta-feira, e a estrutura escolhida dificulta o congelamento dos recursos por parte das autoridades ou da própria exchange.
No noticiário corporativo cripto, a CoinDesk também reportou a renúncia de Andrew Kang, diretor financeiro da Strategy, que deixará o cargo em 5 de novembro. Kang comunicou sua intenção de sair por motivos pessoais em 26 de outubro, justamente quando a empresa divulgava lucro operacional trimestral recorde.
No mercado tradicional, os futuros do Nasdaq também recuaram, segundo reportagem da Reuters citada pela CoinDesk, após resultados de Amazon e Intel aprofundarem preocupações com os gastos em inteligência artificial. As ações da Amazon caíram 7,2% no pré-mercado diante de sinais de que o ciclo de investimentos em IA da empresa está longe do fim, enquanto a Intel alertou que deve queimar caixa.
O sinal observado pelos traders de opções
A CoinDesk destacou ainda um indicador de mercado conhecido como skew, que mede o preço relativo entre puts e calls em diferentes prazos — valores positivos indicam que as opções de venda estão relativamente mais caras, sinal de maior demanda por proteção contra quedas.
O skew de uma semana chegou a subir para 18% durante o horário asiático de sexta-feira, no auge da corrida por hedge provocada pelo desenrolar do hack. Embora esse pico tenha sido passageiro, os skews em todos os prazos analisados permaneceram positivos, o que indica que a especulação sobre novas quedas no preço do bitcoin segue presente no mercado.
O que isso significa para o investidor
O episódio reforça como o mercado de derivativos de cripto reage com velocidade a eventos de risco operacional, muitas vezes antes mesmo de a informação se tornar pública — como mostra o fato de a primeira grande operação de proteção ter ocorrido minutos após os primeiros saques da carteira da Binance. Para quem acompanha o setor, esse tipo de fluxo funciona como termômetro antecipado de estresse, ainda que não substitua a confirmação factual dos eventos.
Às 12h57 BRT de 30 de outubro, o bitcoin era cotado em US$ 77.496,48, com queda de 0,51% no dia, segundo o scanner da TradingView, enquanto o ether operava em US$ 2.223,75, baixa de 1,21%, e o Nasdaq recuava 2,56%, para 25.514,66 pontos — movimento que coincide com a cobertura anterior do AAR News sobre o hack e sobre os resultados fracos de Amazon e Intel, que já vinham pressionando os futuros do índice americano.
A concentração das compras de puts em strikes próximos ao preço à vista, e não em apostas extremas de colapso, sugere que parte relevante dos grandes operadores está se posicionando para uma correção moderada de curto prazo, e não para um cenário de ruptura total do mercado. Ainda assim, o alerta do Standard Chartered de que a estabilização só deve vir após o esclarecimento completo do incidente e o descongelamento dos ativos afetados é um fator a ser monitorado de perto por quem opera no mercado cripto brasileiro.
Vale observar também a divergência de comportamento entre ativos no meio do estresse: enquanto bitcoin e ether cederam, moedas como Monero, Zcash e o token da Hyperliquid resistiram melhor. Esse tipo de dispersão pode indicar realocação tática de capital dentro do próprio universo cripto, e não necessariamente uma fuga generalizada da classe de ativos — distinção relevante para investidores que avaliam exposição setorial dentro de suas carteiras digitais.
Agregado por AAR News · fonte: CoinDesk
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