O gestor Jeffrey Gundlach, fundador da DoubleLine, criticou publicamente a decisão do Federal Reserve de manter os juros inalterados em sua reunião de outubro. Em entrevista ao programa Closing Bell, da CNBC, ele questionou diretamente a postura do banco central americano, perguntando o que justificaria essa espera diante de um quadro econômico que, segundo ele, já foi descrito como forte pela própria autoridade monetária.
Segundo a CNBC, Gundlach já havia criticado o Fed em setembro, quando a instituição elevou os juros em 25 pontos-base. Na ocasião, o gestor defendeu que o aumento deveria ter sido de 50 pontos-base, de uma só vez, em vez de um movimento gradual distribuído entre reuniões.
Na quarta-feira, ele reafirmou essa visão e foi além: disse acreditar que o Fed será obrigado a subir os juros na reunião de dezembro, a menos que o preço do petróleo recue de forma significativa até lá.
'Vocês acabaram de elogiar a economia'
Gundlach fez referência direta à coletiva de imprensa pós-decisão conduzida pelo presidente do Fed, Kevin Warsh, que descreveu um ambiente macroeconômico sólido. Para o gestor, essa avaliação contradiz a opção por manter os juros parados. Segundo a CNBC, ele afirmou estar surpreso com a reticência da autoridade monetária em agir diante de um índice de inflação ao consumidor caminhando para a casa dos 4% e de um índice de commodities em trajetória de alta.
Para Gundlach, esse conjunto de sinais deixa o Fed atrasado em relação ao ciclo econômico. Ele citou como evidência adicional o fato de a taxa de juros overnight do banco central, hoje na faixa de 3,75% a 4%, estar bem abaixo do rendimento da Treasury de dois anos, que opera perto de 4,7% — uma distância que, na leitura do gestor, indica que o aperto monetário já realizado não foi suficiente.
Mercado ainda precifica alta em dezembro
Apesar da pausa anunciada em outubro, o mercado segue atribuindo probabilidade relevante a um novo aumento de juros na reunião de dezembro. De acordo com a ferramenta FedWatch, da CME, citada pela CNBC, a chance de uma alta de 25 pontos-base no encontro de dezembro está em 85%.
Em comunicado, o Fed afirmou que vai utilizar as informações disponíveis daqui para frente para calibrar a política monetária adequada ao retorno da inflação à meta de 2%. Na coletiva, Warsh reiterou que as próximas decisões de política monetária ainda não podem ser antecipadas neste momento.
Gundlach amarrou sua previsão de alta em dezembro ao comportamento do petróleo. Segundo ele, 'na ausência de uma quebra no preço do petróleo', o Fed terá que subir os juros na última reunião do ano. A reportagem da CNBC destaca que os preços do petróleo americano seguiam operando acima de US$ 100 por barril na quarta-feira.
Carteira sem mudanças: aposta em dry powder e commodities
Apesar das críticas à condução da política monetária, Gundlach disse manter sua estratégia de investimentos inalterada após a decisão do Fed. A alocação, segundo ele, segue dividida em 30% em ações, 30% em títulos de renda fixa, 20% em commodities e 20% em caixa disponível para novas oportunidades, o chamado 'dry powder'.
Na fatia de ações, o gestor afirmou preferir o S&P 500 ponderado igualmente entre seus componentes, em vez do índice tradicional ponderado por valor de mercado. A justificativa, de acordo com a CNBC, é evitar concentração excessiva em ativos ligados à inteligência artificial, segmento que Gundlach associa a riscos potenciais.
Menos reuniões de política monetária
A reportagem também menciona um anúncio de Warsh sobre o calendário futuro do Fed: das oito reuniões programadas por ano, uma em 2027 e duas em 2028 passarão a ser dedicadas exclusivamente à discussão de estratégia de política monetária, sem votação sobre a taxa de juros.
Gundlach disse não ter se surpreendido com a mudança. Ele afirmou ser favorável a reduzir desde já o número de reuniões com poder decisório sobre juros para seis ao ano, argumentando que oito encontros se sucedem rápido demais e que um espaçamento maior permitiria acumular mais dados econômicos entre uma decisão e outra antes de cada novo posicionamento.
O que isso significa para o investidor
A divergência entre a leitura de Gundlach e a postura cautelosa do Fed resume uma tensão que deve acompanhar o mercado de renda fixa americano até o fim do ano: de um lado, um banco central que prefere esperar mais dados antes de agir; de outro, um gestor influente que enxerga sinais de inflação e commodities fortes o suficiente para justificar um aperto adicional já na próxima reunião. Para quem investe em ativos atrelados a juros americanos, essa divergência é um lembrete de que a probabilidade de 85% precificada pelo mercado para uma alta em dezembro, segundo a ferramenta FedWatch da CME, ainda pode oscilar conforme novos dados de inflação e, principalmente, o comportamento do petróleo sejam divulgados.
A aposta declarada de Gundlach contra uma concentração excessiva em ativos de inteligência artificial, refletida em sua preferência pelo S&P 500 ponderado igualmente, é outro ponto a observar. O índice de referência americano fechava a 7.743,98 pontos, alta de 0,28% no dia, conforme dados do TradingView às 17h21 (horário de Brasília) de 28 de outubro. Esse patamar ainda reflete, em parte, o apetite do mercado por papéis ligados a tecnologia e IA — exatamente o tipo de concentração que o gestor da DoubleLine diz querer evitar em sua própria carteira.
Por fim, a manutenção da estratégia de Gundlach, com uma fatia relevante em caixa disponível para novas oportunidades, sinaliza uma postura de cautela tática diante da incerteza sobre os próximos passos do Fed. Investidores que acompanham o ciclo de juros americano devem monitorar de perto tanto a trajetória do petróleo — citada explicitamente como variável-chave pelo gestor — quanto os próximos dados de inflação ao consumidor, que serão determinantes para saber se a pausa de outubro foi um ajuste pontual ou o início de um período mais longo de estabilidade na taxa básica americana.
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