A Google vai apresentar nesta quarta-feira, durante seu primeiro simpósio de ativos digitais em Nova York, um serviço de segurança voltado a bancos e outras instituições financeiras que desejam proteger e movimentar criptomoedas e ativos tokenizados. A ferramenta, batizada oficialmente de Google Multi-Party Compute (MPC), ainda está em fase de pré-visualização privada e não está disponível ao público em geral, segundo informações repassadas pela empresa ao site especializado CoinDesk.
O lançamento ocorre em meio a um volume expressivo de roubos ligados a chaves privadas comprometidas no mercado cripto, e busca oferecer às instituições financeiras uma camada adicional de proteção à medida que bancos avançam na exploração de blockchains para emissão de ativos tokenizados, processamento de pagamentos e serviços de custódia digital.
O que já se sabe sobre o novo serviço
Segundo a CoinDesk, diversos parceiros de design e grandes instituições financeiras já testam a tecnologia, embora a Google não tenha revelado seus nomes nem especificado quais ativos digitais estão sendo protegidos. A própria Alphabet, controladora da Google, começou a usar o sistema para proteger ativos digitais próprios nas blockchains Ethereum e Solana — também sem detalhar quais ativos ou volumes estão envolvidos.
A empresa afirmou que pretende tornar o Google Multi-Party Compute comercialmente disponível no início de 2027, mas não divulgou informações sobre preços. A tecnologia de computação multipartidária (MPC) não é novidade no universo de ativos digitais, tampouco é a primeira vez que a Google se envolve com ela: em 2023, a companhia já havia publicado orientações explicando como clientes poderiam construir sistemas de ativos digitais baseados em MPC usando sua infraestrutura Confidential Space.
A Google esclareceu que nunca havia oferecido antes um produto dedicado de custódia baseado em MPC especificamente para criptomoedas. Até então, seus serviços em produção incluíam o Google Cloud Key Management Service (KMS) e o Cloud HSM, usados por instituições para gerenciar e proteger chaves criptográficas. A nova oferta reúne assinatura baseada em MPC, políticas de transação e recuperação de chaves em um serviço construído especificamente para ativos digitais, dispensando que os clientes montem essas capacidades separadamente.
Rich Widmann, diretor de estratégia de ativos digitais do Google Cloud, afirmou à CoinDesk que "a adoção de ativos digitais e a tokenização estão em um ponto de inflexão" e que instituições financeiras reguladas, ao adotarem blockchains, precisam de "infraestrutura escalável e comprovada" para proteger os ativos de seus clientes.
O problema que o sistema tenta resolver
Um invasor que obtém controle sobre a chave privada que protege uma carteira pode transferir seus ativos sem autorização do proprietário, o que torna a gestão de chaves um desafio central de segurança para instituições que entram nesse mercado. Essa ameaça já custou bilhões de dólares ao setor cripto ao longo dos anos.
De acordo com a firma de análise blockchain Chainalysis, chaves privadas comprometidas responderam por 43,8% de todo o volume de criptomoedas roubadas em 2024. Já dados da DeFiLlama mostram que, até junho deste ano, projetos blockchain acumulavam perdas de US$ 16,69 bilhões em hacks e exploits, dos quais cerca de 40% são atribuídos a comprometimentos de chaves privadas.
A reportagem da CoinDesk cita exemplos recentes dessa fragilidade. O protocolo de stablecoin Resolv sofreu, em março, um ataque envolvendo uma chave privada comprometida que controlava uma conta privilegiada, somado a falhas em seu sistema de cunhagem, permitindo que um hacker extraísse cerca de US$ 25 milhões. Em junho, invasores comprometeram as chaves privadas de um membro da fundação do Humanity Protocol e drenaram mais de US$ 32 milhões de pelo menos 17 carteiras — episódio que também derrubou o token do projeto em mais de 80%, evidenciando como credenciais roubadas podem gerar perdas que vão além dos ativos diretamente subtraídos.
Como funciona a computação multipartidária
O novo sistema da Google busca reduzir o risco de depender de uma única chave privada ao distribuir seu controle entre múltiplas partes ou computadores por meio da técnica de multi-party computation (MPC). Em vez de uma única chave, o modelo exige que diversos fragmentos distintos de informação criptográfica atuem em conjunto para autorizar uma transação.
Segundo a Google, a chave privada completa nunca fica armazenada em um único local, o que reduz o risco de um invasor assumir o controle dos ativos mesmo que uma única máquina seja comprometida. A empresa também afirma que os clientes mantêm o controle sobre o material de suas chaves e que ela própria não consegue acessá-lo de forma não criptografada, mesmo quando fragmentos das chaves ficam armazenados em sua infraestrutura.
Na prática, segundo a CoinDesk, um banco poderia manter um fragmento de sua chave de assinatura criptográfica no Google Cloud, outro em seu próprio hardware e um terceiro com outro provedor de nuvem. Quando o banco deseja movimentar ativos, a transação entra no ambiente Confidential Space da Google, onde um mecanismo de políticas verifica a operação contra as regras da instituição antes que a assinatura seja concluída.
Essas regras podem incluir limites de valor para transferências, restrições sobre carteiras de destino e exigências de aprovação por diferentes departamentos. As verificações ocorrem dentro da tecnologia Confidential Space da Google, que utiliza ambientes de computação isolados por hardware, projetados para proteger informações sensíveis contra acessos não autorizados.
A Google afirma ainda que o sistema pode operar com diferentes limiares de assinatura criptográfica, como exigir que dois entre três participantes, ou cinco entre sete, produzam conjuntamente a assinatura de uma transação. Essa flexibilidade busca atender a uma preocupação comum entre bancos: obter a conveniência da infraestrutura em nuvem sem conceder a um único fornecedor de tecnologia o controle total sobre as credenciais necessárias para movimentar seus ativos. A empresa diz que as instituições podem distribuir essas credenciais entre hardware próprio, o Google Cloud e serviços de nuvem concorrentes, e afirma que o sistema suporta assinatura rápida de transações e recuperação de chaves — embora não tenha fornecido comparações de desempenho verificadas de forma independente frente a produtos de custódia já existentes.
Ameaças de inteligência artificial e computação quântica
A Google também posiciona o novo serviço como resposta a ataques cibernéticos cada vez mais sofisticados, incluindo ameaças associadas à inteligência artificial e à computação quântica. A IA já vem ajudando alguns golpistas de criptomoedas a operar em maior escala, enquanto pesquisadores alertam para potenciais riscos futuros à criptografia que protege ativos digitais.
A Chainalysis constatou que golpes de criptomoedas associados a fornecedores de ferramentas de IA extraíram, em média, US$ 3,2 milhões por operação em 2025, contra US$ 719 mil em golpes sem esse tipo de ligação — uma diferença de cerca de 4,5 vezes. A própria CoinDesk pondera que esses números sugerem que a IA pode estar ajudando fraudadores a operar em maior escala, mas que o levantamento não estabelece uma relação direta de causa entre o uso de IA e o valor mais alto dos golpes.
O pesquisador do Ethereum Justin Drake alertou recentemente que avanços em inteligência artificial poderiam, eventualmente, revelar atalhos matemáticos capazes de quebrar as assinaturas digitais que protegem carteiras de Bitcoin e Ethereum. Segundo ele, em um cenário extremo esse avanço poderia surgir em questão de meses, e não de anos — possivelmente antes mesmo do surgimento de computadores quânticos suficientemente potentes para o mesmo fim. A reportagem destaca, contudo, que nenhum sistema de IA demonstrou até agora capacidade de quebrar as assinaturas criptográficas que protegem carteiras de Bitcoin ou Ethereum; sistemas de IA já foram usados para identificar falhas em ferramentas mal criptografadas, como no episódio de uma autoridade certificadora na semana anterior à publicação da matéria. As proteções atuais de MPC da Google tratam de ameaças como credenciais comprometidas e transações não autorizadas, e não de uma eventual quebra da criptografia subjacente.
O sistema pode ajudar a conter ameaças existentes ao verificar transações contra regras institucionais antes da assinatura, potencialmente impedindo transferências que violem limites ou exigências de aprovação predefinidos. Esses controles podem reduzir o risco de transações não autorizadas, mas a possibilidade de usuários legítimos serem enganados para autorizar transações maliciosas segue sendo um risco à parte.
A computação quântica, embora não representa uma ameaça iminente, configura um risco distinto e de prazo mais longo para instituições que avançam na adoção de ativos digitais. Pesquisadores da própria Google já estimaram que um futuro computador quântico suficientemente potente poderia, em tese, derivar a chave privada de um bitcoin a partir de uma chave pública exposta em cerca de 9 minutos, considerando preparação avançada. Embora nenhum computador quântico atual seja capaz de executar esse tipo de ataque, cerca de 6,9 milhões de bitcoins já foram apontados como potencialmente vulneráveis a futuros ataques quânticos, por terem suas chaves públicas expostas.
A Google afirma que a arquitetura do novo sistema foi projetada para suportar futuras atualizações de criptografia pós-quântica, que buscam proteger assinaturas digitais contra ataques de computadores quânticos suficientemente potentes. A empresa diz que, no lançamento comercial, sua oferta de MPC dará suporte aos algoritmos convencionais de assinatura criptográfica ECDSA e Ed25519. Não foi divulgado um cronograma para a incorporação de capacidades de assinatura pós-quântica, mas a Google afirma que essas atualizações poderão ser introduzidas conforme as redes blockchain adotem a criptografia necessária, sem exigir que as instituições redesenhem seus sistemas ou interrompam operações.
Um novo concorrente no mercado de custódia
A entrada planejada da Google aproxima um dos maiores provedores de nuvem do mundo de um mercado já atendido por empresas especializadas em segurança cripto, como Fireblocks, Fordefi e BitGo, que oferecem tecnologia para ajudar instituições a proteger e autorizar transações em blockchain.
A Google argumenta que suas relações bancárias e sua experiência em segurança lhe dão vantagem sobre provedores especializados de custódia cripto. A empresa também enxerga uma oportunidade entre bancos receosos de depender de provedores que competem pelos mesmos clientes, posicionando-se como fornecedora neutra de infraestrutura que permite às instituições operar seus próprios negócios de custódia.
A reportagem da CoinDesk pondera, no entanto, que a entrada da Google não elimina a necessidade de as instituições avaliarem os riscos de seus fornecedores de tecnologia. Mesmo quando as credenciais de assinatura estão distribuídas entre ambientes diferentes, os bancos ainda podem depender da Google para parte do software, das políticas de transação e da infraestrutura operacional. A segurança do sistema também depende de como cada instituição configura a ferramenta, protege seus participantes de assinatura e controla quem pode alterar as regras de aprovação de transações. O teste decisivo, segundo a publicação, será saber se as instituições passarão a ver a oferta da Google como alternativa mais segura frente a provedores especializados de custódia cripto — e quanto de infraestrutura financeira crítica estarão dispostas a confiar à empresa.
O que isso significa para o investidor
Para quem acompanha o mercado cripto no Brasil, o movimento da Google reforça uma tendência que já aparece em outras frentes da cobertura da AAR News: a infraestrutura institucional em torno de ativos digitais está sendo reconstruída por grandes players de tecnologia, não apenas por especialistas nativos do setor. Isso tende a facilitar, no médio prazo, a entrada de bancos tradicionais em serviços de custódia e tokenização — mas a disponibilidade comercial do produto só é esperada para início de 2027, o que significa que, por ora, trata-se de um sinal de direção e não de um fator de impacto imediato sobre preços.
Vale lembrar que o ambiente regulatório e de confiança em torno de serviços cripto segue tenso em outras geografias: como noticiado pela AAR News em 25 de outubro, bancos britânicos como Lloyds, Barclays e NatWest acumulam mais de 10 mil queixas por restrições a transferências para exchanges, segundo levantamento da Stand With Crypto. Iniciativas como o MPC da Google podem, no futuro, dar a bancos tradicionais um caminho tecnológico mais confortável para operar com ativos digitais sem depender de provedores especializados — o que, se avançar, pode reduzir parte do atrito hoje observado entre bancos e exchanges.
No curtíssimo prazo, o investidor não deve esperar efeito direto sobre cotações: segundo dados do TradingView referentes a 28 de outubro de 2026, às 13h06 (horário de Brasília), o Bitcoin era negociado a US$ 80.440,49, com queda de 0,42% no dia, enquanto o Ethereum operava a US$ 2.330,70, com recuo de 0,68% — movimentos compatíveis com a rotina do mercado, sem relação direta divulgada com o anúncio da Google.
O ponto relevante a acompanhar daqui para frente é regulatório e competitivo: como reguladores financeiros tratarão a entrada de big techs em custódia de ativos digitais, se instituições como as citadas pela Google de fato migrarão volumes expressivos para o novo serviço após 2027, e como concorrentes especializados como Fireblocks, Fordefi e BitGo reagirão a essa disputa por um mercado que lida diretamente com a segurança de bilhões de dólares em ativos.
Agregado por AAR News · fonte: CoinDesk
Texto reescrito pela redação AAR com assistência de IA · confira a fonte · como produzimos
