Cripto · Golpes Digitais

Golpistas de cripto usam ódio anti-muçulmano como isca nas redes

Pesquisa identifica mais de 220 contas no X que atraem seguidores com conteúdo islamofóbico antes de direcioná-los a fraudes financeiras, segundo a CNN

When researchers messaged some of the scam accounts on Telegram, one claimed to be "closely connected" to the Trump administration. Portion…
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Um levantamento do Center for the Study of Organized Hate, think tank sediado em Washington, identificou uma rede de contas na rede social X que usa publicações islamofóbicas para atrair audiência e, em seguida, converter esse engajamento em vítimas de golpes financeiros envolvendo criptomoedas. A reportagem é da CNN, que teve acesso às conclusões dos pesquisadores e conduziu verificações próprias sobre o esquema.

Segundo o material, os pesquisadores começaram a notar o padrão em setembro, durante a reta final da temporada eleitoral americana, ao identificar publicações geradas por inteligência artificial com temática anti-muçulmana circulando no X.

Publicações que miram o preconceito

Entre os exemplos citados pela CNN está uma imagem de uma família muçulmana em um aeroporto, acompanhada de um texto fictício afirmando que a família deixaria os Estados Unidos por falta de respeito à sua cultura. Outra publicação mostrava um homem árabe sorridente ao lado de um cachorro, questionando se o usuário entregaria seu animal de estimação para agradar a um muçulmano. Uma terceira trazia uma mulher de niqab cercada por outras mulheres vestidas da mesma forma, segurando um cartaz que pedia o fim da expressão “Feliz Natal”.

De acordo com a matéria, algumas dessas publicações acumularam milhares de comentários e dezenas de milhares de visualizações. Muitas das contas responsáveis por espalhá-las tinham nomes que sugeriam vínculo com figuras como o presidente Donald Trump, Donald Trump Jr. ou o vice-presidente JD Vance, embora os pesquisadores não tenham encontrado qualquer conexão real com essas pessoas. As contas também se apresentavam como baseadas nos Estados Unidos, mas a ferramenta “About this account” do próprio X indicava origem no exterior.

Da isca ao golpe financeiro

A CNN relata que usuários atraídos pelos conteúdos islamofóbicos virais passavam, em seguida, a ver publicações alertando para uma suposta crise iminente no sistema financeiro global — crise da qual poderiam escapar seguindo instruções recebidas por mensagem direta. Para os pesquisadores, esse padrão é um indício claro de operações do tipo “bait-and-switch”, nas quais um gancho atrativo é usado para depois empurrar a vítima a outro objetivo.

Raqib Naik, fundador e diretor-executivo do centro de pesquisa, disse à CNN que os operadores desses esquemas entenderam que existe demanda por esse tipo de conteúdo no país atualmente e estão simplesmente atendendo a essa demanda.

A reportagem destaca que o X não respondeu ao pedido de comentário da CNN, mas que diversas contas citadas pela equipe de reportagem foram suspensas depois que a emissora questionou a plataforma sobre elas. As políticas da empresa proíbem a incitação de medo ou a disseminação de estereótipos amedrontadores sobre integrantes de categorias protegidas.

Um padrão já documentado na plataforma

A CNN lembra que a presença de conteúdo anti-muçulmano no X não é novidade: o próprio Center for the Study of Organized Hate já havia documentado a proliferação desse tipo de publicação na plataforma sob a gestão de Elon Musk, além de uma aplicação inconsistente das próprias regras da empresa contra esse tipo de conteúdo. Ainda segundo a matéria, o centro relatou neste ano que dezenas de autoridades eleitas do Partido Republicano ajudaram a promover, em suas contas verificadas, a ideia de que muçulmanos representariam uma ameaça existencial aos Estados Unidos, e que mensagens anti-muçulmanas se tornaram rotina para parte da campanha republicana rumo às eleições de meio de mandato.

O que chamou a atenção de Naik e da pesquisadora-chefe Meriem Mahdhi foi a forma como golpistas baseados no exterior passaram a explorar esse ambiente: eles identificaram que o conteúdo islamofóbico é um caminho confiável para gerar visualizações e engajamento, e passaram a produzi-lo em escala com finalidade financeira.

Mahdhi descreveu à CNN que a raiva funciona como o gancho inicial, e a indignação é o que gera compartilhamentos e comentários — esse alcance amplia o público da conta, e os seguidores que interagem são então direcionados a esquemas de investimento falsos, perfis que se passam por celebridades e canais no Telegram.

Mais de 220 contas identificadas

Segundo a CNN, o Center for the Study of Organized Hate mapeou mais de 220 contas desse tipo, engajadas em golpes financeiros ou fraudes de cunho sexual. Mahdhi afirmou que cerca de 90% delas tinham origem no continente africano, enquanto as demais foram rastreadas até o Sul da Ásia, a Itália e o Japão.

Além das contas que afirmavam vínculo com pessoas do círculo de Trump, outras se apresentavam como fontes governamentais ou jornalísticas, e havia ainda perfis com identidades genéricas usando termos como “patriot”, “MAGA” ou “QAnon” em seus nomes.

O caso da conta “Trump Account”

Um exemplo detalhado pela CNN é o de uma conta não verificada, com cerca de 2.400 seguidores, chamada “Trump Account” — nome que coincide, sem relação real, com o programa federal de poupança para crianças lançado pelo governo Trump. Rotulada no X como conta de “comentário”, ela se apresentava como fonte de notícias financeiras baseada em Washington. A data de criação registrada, no entanto, era janeiro de 2026, e indícios apontavam que o responsável poderia estar usando servidor proxy, com conexão feita via aplicativo Android na África.

Depois de semanas publicando conteúdo pró-Trump e anti-muçulmano, a conta passou a incentivar seguidores a comprar criptomoedas e aderir ao chamado “Quantum Financial System”, termo recorrente em teorias de conspiração financeira. As publicações convidavam os usuários a entrar em contato pelo Telegram, plataforma conhecida por alto nível de anonimato e moderação de conteúdo mais frouxa, o que a torna atrativa para golpistas.

Ao enviar mensagem à conta pelo Telegram, Naik recebeu a resposta de que o interlocutor estaria “intimamente ligado a pessoas e trabalhos ligados ao governo Trump”, segundo capturas de tela compartilhadas com a CNN. O operador da conta então perguntou se Naik tinha conhecimento de uma suposta quebra bancária e colapso do mercado de ações iminentes, que tornariam sem valor todas as moedas exceto duas criptomoedas específicas. Depois de uma troca de mensagens, o usuário disse a Naik que ele precisaria abrir uma nova conta bancária e enviou um link para um site de cadastro.

One scammer on Telegram warned Naik that banks were about to close and that he needed to transfer his money to a new financial system.
One scammer on Telegram warned Naik that banks were about to close and that he needed to transfer his money to a new financial system. · Foto: CNN

O Telegram informou à CNN que investigaria o caso e que remove contas fraudulentas sinalizadas por moderadores ou usuários. A empresa afirmou, em comunicado, que a necessidade de os golpistas buscarem contato com alvos em outras plataformas evidencia a eficácia de suas ferramentas automatizadas contra spam e dos avisos exibidos quando um usuário desconhecido entra em contato.

Imitações de familiares de Trump

Naik também compartilhou capturas de interações semelhantes com contas no Telegram que se diziam ligadas a Donald Trump Jr., Tiffany Trump e Barron Trump. Em uma delas, o perfil que se fazia passar por Donald Trump Jr. perguntou se Naik acompanhava notícias recentes sobre um iminente fechamento bancário associado à sigla EBS. Diante da resposta negativa, o perfil enviou uma mensagem com diversos erros de digitação, afirmando que bancos e corretoras estariam prestes a colapsar, que o dinheiro ali depositado seria perdido e inacessível, e que banqueiros gananciosos estariam planejando confiscar recursos de pessoas em benefício próprio. A mensagem instruía Naik a esvaziar sua conta bancária e converter todos os seus ativos nas criptomoedas XLM e XRP, apresentadas como a nova moeda do “Quantum Financial System”.

Alvo: seguidores de teorias conspiratórias

De acordo com Mahdhi, os golpes identificados pelo centro de pesquisa parecem mirar especificamente usuários de direita que já aderem a crenças conspiratórias como o QAnon. Em vez de recorrer ao trabalho tradicional e mais demorado de identificar alvos vulneráveis e construir confiança aos poucos, os golpistas estariam deixando o próprio algoritmo do X fazer esse trabalho pesado.

Em mensagem à CNN, Mahdhi afirmou que, ao impulsionar esse tipo de conteúdo, os golpistas alcançam exatamente o perfil de pessoas que apoiam essas teorias conspiratórias ligadas ao QAnon, e que esse público tem mais chance de perder dinheiro por uma causa em que acredita.

A base das teorias de colapso financeiro

A reportagem também ouviu Mike Rothschild, jornalista que cobre teorias da conspiração, para quem os alertas sobre um suposto colapso bancário seguido de um “reset” financeiro global têm raízes em teorias conspiratórias com décadas de existência, cujos detalhes costumam ser vagos. Segundo ele, a ideia central é a de que existiria um plano secreto em andamento para reorganizar o sistema financeiro mundial, enquanto o golpista se posiciona como uma espécie de guru financeiro, tentando convencer as vítimas de que seguir seus conselhos as protegerá do colapso que supostamente atingirá a maioria das pessoas.

Rothschild descreveu à CNN que esse tipo de discurso explora a necessidade das pessoas de sentir que entendem o que está acontecendo, dando a elas a sensação de estarem por dentro de algo que a maioria desconhece.

Medidas do X e suspensões de contas

A CNN relata que o X tomou recentemente medidas para conter conteúdo de baixa qualidade e engajamento artificial, primeiro alterando regras de um programa que pagava criadores por publicações de alto engajamento, e depois encerrando esse programa em setembro. Em outubro, a empresa anunciou a suspensão de mais de 13 mil contas associadas a suspeitas operações de influência estrangeira, alegando que redes de contas inautênticas estariam publicando e amplificando conteúdo sobre política americana na plataforma.

Não ficou claro, segundo a reportagem, se alguma das contas de golpe identificadas pelo Center for the Study of Organized Hate fazia parte dessa leva específica de suspensões, mas algumas delas foram desativadas após o anúncio do X e após a CNN entrar em contato sobre as descobertas dos pesquisadores. Ainda assim, a matéria aponta que diversas contas semelhantes continuam ativas.

O pano de fundo das ligações de Trump com cripto

A CNN observa que, ao alegarem vínculo com Trump e pessoas próximas a ele, os golpistas exploram a extensa relação do presidente com o universo das criptomoedas. Segundo a reportagem, Trump arrecadou mais de um bilhão de dólares com empreendimentos cripto em seu primeiro ano de volta ao cargo, além de ter elevado lideranças favoráveis ao setor a postos regulatórios de destaque e proposto a criação de uma “reserva estratégica de bitcoin”. A matéria também menciona que os golpistas se aproveitam da aproximação do presidente com seguidores do QAnon, já que contas oficiais do governo Trump teriam feito aceno à teoria conspiratória em publicações no X ainda em junho.

Para Rothschild, não está fora do campo do possível que um membro da família Trump seja associado a algum investimento cripto de aparência duvidosa aos olhos do público, o que torna esse tipo de narrativa mais crível justamente para quem já quer acreditar nela.

Indícios de vítimas reais

A reportagem não soube precisar quantas pessoas caíram nesses golpes, mas aponta ao menos um indício concreto de que a estratégia funciona. Em 5 de outubro, pesquisadores observaram uma conta chamada “JohnfKennedyJR”, com cerca de 1.500 seguidores, publicar uma imagem de muçulmanos ajoelhados em uma rua de Londres e perguntar aos usuários o quanto apoiariam uma proibição da oração muçulmana em espaços públicos. Um usuário respondeu com emojis de positivo e coração. Em 16 de outubro, segundo a CNN, esse mesmo usuário foi visto perguntando à conta “Trump Account” como abrir uma “conta QFS” e se havia alguma taxa para obter um cartão — a conta instruiu o usuário a enviar mensagem direta pelo X ou pelo Telegram para tratar do assunto.

Mahdhi resumiu à CNN que a situação é triste sob diversos ângulos: tanto pelo lado das pessoas que caem nos golpes e podem ter as economias esgotadas, quanto pelo fato de que, em algumas partes do mundo, é preciso tanto ódio para conseguir sustento.

O que isso significa para o investidor

O caso reportado pela CNN ilustra um risco crescente para quem acompanha o universo cripto pelas redes sociais: o conteúdo mais inflamado, inclusive de cunho político ou discriminatório, pode ser parte de um funil desenhado para captar atenção e, em seguida, converter seguidores em vítimas de fraude. Investidores que se deparam com promessas de moedas específicas atreladas a supostos sistemas financeiros alternativos, como o citado “Quantum Financial System”, devem tratar esse tipo de abordagem como bandeira vermelha, independentemente de quem a publicação aparenta representar.

A menção a criptomoedas como XLM e XRP nas conversas relatadas pela CNN reforça que os golpistas tendem a se apropriar de ativos reais e conhecidos para dar verossimilhança ao discurso, misturando-os a jargões de conspiração sobre colapso bancário iminente. Isso não diz nada sobre os fundamentos desses ativos — é apenas o uso de nomes familiares como ferramenta de persuasão.

Vale notar que o mercado de criptomoedas segue operando normalmente fora desse contexto de fraude: segundo o scanner da TradingView, o bitcoin era cotado a US$ 78.263,51 em 4 de novembro de 2026, às 6h19 (horário de Brasília), com alta de 1,21% no dia. A distância entre esse tipo de movimento de mercado real e as narrativas de colapso iminente usadas pelos golpistas é, em si, um sinal de alerta para quem avalia esse tipo de abordagem recebida por mensagem direta.

Para o investidor brasileiro que acompanha ativos digitais, a lição prática é redobrar a desconfiança diante de perfis não verificados que combinam discurso político inflamado com convites para migrar recursos via Telegram ou sites externos pouco claros. Checar a procedência de contas, desconfiar de qualquer solicitação de transferência bancária ou cadastro em sistemas financeiros alternativos, e lembrar que plataformas legítimas de cripto não dependem de mensagens diretas não solicitadas para operar são passos simples que reduzem a exposição a esse tipo de fraude.

Agregado por AAR News · fonte: CNN

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