A Block, empresa de pagamentos comandada por Jack Dorsey, concordou em princípio em pagar US$ 764 milhões para encerrar uma investigação do Departamento de Justiça dos Estados Unidos sobre suas práticas de combate à lavagem de dinheiro. O valor supera os US$ 566 milhões de lucro que a companhia registrou no terceiro trimestre.
Segundo apuração da CoinDesk a partir de um documento enviado à SEC em 3 de novembro, o entendimento foi fechado em outubro e prevê o adiamento, por três anos, de uma acusação criminal que aponta falha da Block em manter um programa eficaz de prevenção à lavagem de dinheiro, conforme exigido pela Bank Secrecy Act.
Como ficou a conta
O componente financeiro bruto do acordo soma cerca de US$ 964 milhões, mas cai para US$ 764 milhões após descontos referentes a acordos regulatórios anteriores já firmados pela empresa. A Block informou no documento que já havia reservado integralmente esse montante.
Origem da investigação
O caso remonta a 2023, quando o Departamento de Justiça e a SEC passaram a examinar as práticas de compliance da Block e suas divulgações públicas, na sequência de um relatório de uma vendedora a descoberto. A SEC encerrou sua própria apuração em março, sem recomendar medidas de aplicação da lei.
O relatório, elaborado pela Hindenburg Research, acusava o Cash App de inflar seu número de usuários ao contabilizar contas duplicadas e fraudulentas, além de apontar que verificações frágeis de identidade teriam permitido que criminosos usassem a plataforma para golpes, lavagem de dinheiro e outros pagamentos ilícitos. A Block rejeitou as conclusões, classificando-as como imprecisas e enganosas.
Histórico de sanções
Em abril de 2025, o órgão regulador financeiro de Nova York já havia aplicado uma multa de US$ 40 milhões à Block após identificar falhas sérias em seus sistemas de compliance. A apuração constatou que o estoque de alertas de transações suspeitas não resolvidos saltou de cerca de 18.000 em 2018 para mais de 169.000 em 2020.
O mesmo levantamento identificou que um dos sistemas de triagem da empresa não bloqueava automaticamente transferências de bitcoin para carteiras associadas a financiamento do terrorismo até que a exposição a esse risco superasse 10%.
Lucro com bitcoin despenca
O anúncio do acordo com o DOJ coincide com um momento de menor rentabilidade da Block com a negociação de bitcoin dentro do Cash App. No terceiro trimestre, o lucro bruto do segmento de bitcoin da empresa caiu 50%, para US$ 52 milhões, ante US$ 104 milhões no mesmo período do ano anterior, enquanto a receita da linha recuou 11%, para US$ 1,8 bilhão.
A companhia atribuiu a queda principalmente à decisão de reduzir as taxas cobradas em determinadas transações de bitcoin na plataforma.
Apesar disso, o restante do negócio seguiu em expansão: o lucro bruto total da Block subiu 22%, para US$ 3,24 bilhões, impulsionado por atividade mais forte nas linhas de crédito e pagamentos do Cash App.
O que isso significa para o investidor
Para quem acompanha ativos de risco ligados a cripto, o caso Block ilustra um padrão que se repete entre empresas que oferecem acesso a bitcoin via varejo: crescimento acelerado de usuários muitas vezes convive com fragilidades de compliance que, anos depois, se transformam em passivos financeiros relevantes — neste caso, um valor que supera o próprio lucro trimestral da companhia. A cobertura anterior do AAR News já havia apontado, por ocasião dos 18 anos do white paper do bitcoin, a visão do CEO da Onramp, Michael Tanguma, de que o sistema financeiro que motivou Satoshi Nakamoto a criar o bitcoin segue socorrendo grandes instituições enquanto negócios menores arcam com os custos — um pano de fundo que ajuda a explicar por que reguladores mantêm pressão constante sobre plataformas como o Cash App.
No curto prazo, o desfecho do acordo com o DOJ tende a remover uma incerteza jurídica que pesava sobre as ações da Block, já que o valor provisionado está contabilizado e o processo caminha para um encerramento formal. Ainda assim, a queda de 50% no lucro bruto do segmento de bitcoin merece atenção de investidores que acompanham a tese de que corretoras e apps de pagamento monetizam cripto via taxas de transação: cortes de preço para atrair volume podem comprimir margens mesmo quando o restante do negócio — como lending e pagamentos — compensa o resultado agregado.
Vale observar que o movimento ocorre num momento em que o bitcoin era cotado, segundo o scanner da TradingView em 4 de novembro de 2026 às 6h19 (horário de Brasília), a US$ 78.263,51, alta de 1,21% no dia. Investidores expostos a empresas de infraestrutura cripto devem monitorar tanto o desfecho formal do acordo com a Justiça americana quanto os próximos balanços da Block para avaliar se a estratégia de reduzir taxas no Cash App continuará pressionando a linha de bitcoin, ou se o ganho de volume compensará a margem menor nos trimestres seguintes.
Agregado por AAR News · fonte: CoinDesk
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