A gestora Federated Hermes, sediada em Pittsburgh e responsável por US$ 911 bilhões em ativos, anunciou planos para emitir suas primeiras classes de cotas de fundos tokenizadas no início de 2027. A iniciativa amplia um movimento que já vinha sendo testado pela empresa em parcerias anteriores com plataformas de blockchain.
Segundo Kevin Barr, diretor de produtos de ativos digitais e plataforma da Federated Hermes, a novidade é que a própria gestora passará a emitir os tokens, em vez de depender de terceiros para digitalizar seus produtos já existentes, como ocorria até aqui. A empresa fechou parceria com a Prometheum, provedora de infraestrutura para valores mobiliários digitais sediada em Nova York, para viabilizar a distribuição dos novos produtos a assessores financeiros e seus clientes, segundo informações repassadas à CoinDesk nesta terça-feira.
A Federated Hermes ainda não revelou quais fundos específicos serão tokenizados nem em qual blockchain os produtos vão operar. De acordo com Barr, os fundos de mercado monetário são o ponto de partida mais provável, dado o peso histórico que esse tipo de produto tem na operação da gestora.
"Há um interesse enorme por parte do setor em geral em torno de fundos de mercado monetário tokenizados, e isso se alinha muito bem com o pilar da nossa franquia, que são os nossos fundos de liquidez", afirmou Barr à CoinDesk.
Um movimento mais amplo em Wall Street
A decisão da Federated Hermes coloca mais uma grande gestora na corrida pela tokenização de ativos tradicionais. Segundo a CoinDesk, empresas como BlackRock, Franklin Templeton, JPMorgan e, mais recentemente, a seguradora New York Life Insurance Company já adotaram versões de fundos convencionais baseadas em blockchain, apostando que a tecnologia pode modernizar a forma como ativos são emitidos, transferidos e liquidados.
Defensores dessa abordagem argumentam que o uso de blockchains para fundos de investimento pode acelerar a liquidação, automatizar o registro de operações e facilitar a movimentação entre diferentes plataformas financeiras. O banco Citi projetou que o mercado de valores mobiliários tokenizados pode chegar a US$ 5,5 trilhões até 2030, segundo a reportagem.
De parcerias externas à emissão própria
A Federated Hermes não é estreante no tema. A gestora já havia trabalhado com plataformas como a londrina Archax, o banco Goldman Sachs e a Conduit Digital, de Singapura, para criar representações tokenizadas de produtos de investimento já existentes. Nesses casos, eram os parceiros externos que emitiam as versões digitais das participações em fundos convencionais.
Agora, segundo Barr, a Federated Hermes pretende emitir ela mesma as classes de cotas tokenizadas, assumindo um papel mais direto no processo de digitalização de seus produtos. Antes de ingressar na gestora em maio, Barr passou 15 anos no banco custodiante BNY, onde atuou mais recentemente como chefe de caixa digital e inovação.
O executivo destacou que o porte do negócio de gestão de liquidez da empresa torna os fundos de mercado monetário um ponto de partida natural. Esse tipo de fundo investe em dívida de curto prazo e costuma ser usado por investidores como refúgio de caixa remunerado.

De acordo com a reportagem da CoinDesk, fundos de mercado monetário e Treasuries tokenizados têm liderado os esforços de tokenização em Wall Street, permitindo que empresas e investidores institucionais obtenham rendimento sobre reservas de caixa enquanto movimentam ativos a qualquer hora. Os tokens também podem servir como garantia em empréstimos ou operações, segundo o material, ajudando as instituições a colocar o caixa para trabalhar sem precisar vender posições.
"Você pode ter movimentação instantânea desses recursos", disse Barr. "Você pode ter programabilidade desses fundos de uma forma que talvez seja mais difícil ou operacionalmente ineficiente com a infraestrutura tradicional."
Acesso via corretoras tradicionais
Uma parte central da parceria com a Prometheum é garantir que os produtos tokenizados cheguem aos investidores por canais já conhecidos do mercado financeiro. As subsidiárias de corretagem da Prometheum, registradas na SEC, vão oferecer serviços de custódia, compensação e liquidação, enquanto a plataforma de clearing correspondente da empresa permitirá que outras corretoras também distribuam os produtos tokenizados da Federated Hermes a seus clientes.
Segundo Barr, um dos principais obstáculos para a adoção mais ampla da tokenização tem sido o acesso, e não a tecnologia de blockchain em si. Assessores financeiros e corretoras precisam de formas de oferecer fundos tokenizados sem precisar reconstruir toda a sua infraestrutura operacional.
"Para nós, isso se torna uma extensão natural da forma como distribuímos nossos produtos hoje, e faz todo o sentido do mundo sob essa perspectiva", disse Barr.
Para a Federated Hermes, a aposta vai além de simplesmente distribuir produtos já existentes em um novo formato. Barr afirmou enxergar a tokenização como um fator capaz de transformar a forma como investidores administram caixa, migram entre ativos e constroem carteiras.
"A tokenização representa, em muitos aspectos, um upgrade fundamental da infraestrutura do mercado financeiro para esta geração", declarou o executivo.
O que isso significa para o investidor
O movimento da Federated Hermes se soma a uma lista crescente de gestoras tradicionais que buscam oferecer versões tokenizadas de produtos de baixo risco, como fundos de mercado monetário, caminho já trilhado por nomes como BlackRock e Franklin Templeton. Para o investidor brasileiro que acompanha ativos digitais, o episódio reforça a tese de que a tokenização está deixando de ser um nicho experimental para se tornar parte da infraestrutura padrão de distribuição de fundos nos Estados Unidos.
A escolha da Prometheum como parceira de custódia e corretagem também chama atenção por sinalizar que o acesso via canais regulados — e não a tecnologia de blockchain em si — segue sendo o principal gargalo para escala nesse mercado, como destacou o próprio executivo da gestora. Isso é relevante para quem avalia empresas ligadas a infraestrutura de ativos digitais, já que o valor agregado tende a migrar para quem resolve o problema de distribuição regulada, e não apenas para quem emite o token.
Vale observar que a projeção citada pelo Citi, de um mercado de valores mobiliários tokenizados podendo chegar a US$ 5,5 trilhões até 2030, ilustra o apetite do setor, mas ainda depende de execução concreta — a própria Federated Hermes só deve lançar seus primeiros produtos em 2027, e sem detalhes sobre quais fundos ou blockchains serão usados. Para o investidor, o episódio funciona menos como um gatilho imediato e mais como um indicador de tendência a ser monitorado junto a outros movimentos recentes de Wall Street, incluindo a temporada de resultados em curso e a dinâmica mais ampla de apetite por risco discutida na cobertura anterior do AAR News sobre o mercado americano.
Agregado por AAR News · fonte: CoinDesk
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