O custo de vida é a principal preocupação dos eleitores americanos, mas o Federal Reserve decidiu, nesta quarta-feira, não mexer nos juros diante de um quadro de inflação que segue resistente. A decisão, segundo a CNN, vale pelo menos até o próximo encontro do comitê, daqui a seis semanas.
A manutenção da taxa ocorre mesmo com os preços ao consumidor subindo 3,7% em 12 meses e o indicador de inflação preferido do Fed permanecendo 50% acima da meta oficial do banco central. Ainda assim, o mercado já esperava a pausa, já que alterações na taxa de juros funcionam como um instrumento pouco preciso, capaz de causar danos relevantes à economia quando aplicado no momento ou na intensidade errados.
Cautela após o primeiro aumento em anos
Segundo a CNN, o presidente do Fed, Kevin Warsh, afirmou em coletiva que os juros afetam todos os aspectos da economia, comparando o impacto da política monetária a algo que "se infiltra nas frestas". A fala ocorre um mês depois de o banco central promover a primeira alta de juros em mais de três anos, movimento que a autoridade monetária agora quer observar antes de decidir por um novo aperto.
Warsh também disse que a garantia de estabilidade de preços não depende de uma data fixa no calendário nem de um único dado isolado, mas de objetivos claros e da política monetária adequada, segundo o relato da reportagem. Ele afirmou ainda estar encorajado pela redução nas expectativas de inflação desde a alta promovida em setembro.
A reportagem destaca que, ao esperar, o Fed corre o risco de repetir um erro semelhante ao de 2021, quando o banco central avaliou que poderia ignorar sinais claros de pressão inflacionária — avaliação que, à época, se mostrou equivocada. Desta vez, a aposta em não agir às pressas pode se revelar acertada, ou pode forçar o Fed a aplicar um ajuste mais agressivo em dezembro, algo que poderia ter sido evitado com uma alta em outubro.
Mercado de trabalho em terreno frágil
Elevar os juros encarece o crédito para as empresas, reduzindo sua capacidade de contratação — e o momento, segundo a CNN, é delicado para mexer no emprego. A economia americana criou apenas 29 mil vagas em setembro, número bem abaixo do esperado, e o próprio relatório revisou para baixo a criação de empregos nos dois meses anteriores, com 60 mil vagas a menos do que se estimava originalmente.
O mercado de trabalho não está em colapso, mas vem andando sobre terreno instável: a economia perdeu 10 mil vagas em julho e registrou queda de empregos em sete dos últimos 16 meses. A taxa de desemprego segue em patamar considerado saudável, de 4,2%, mas economistas descrevem o cenário atual como de "pouca contratação, pouca demissão" — ou seja, quem tem emprego tende a mantê-lo, mas quem sai enfrenta dificuldade para encontrar uma nova posição.
Mercados financeiros e o peso do calendário eleitoral
De acordo com a CNN, os rendimentos dos Treasuries subiram desde a última alta de juros do Fed, chegando a atingir máximas de várias décadas antes de recuar um pouco, voltando a níveis de meados de setembro. Esses yields relativamente altos funcionam, na prática, de forma parecida com a própria taxa básica, ajudando a desacelerar a economia e a inflação — o que dá ao Fed uma margem extra para não mexer nos juros agora.
O banco central também evita surpreender os investidores, mesmo sob a gestão de Warsh, descrita como uma fase de maior imprevisibilidade nas comunicações. Segundo a ferramenta FedWatch, da CME, citada pela reportagem, o mercado já precificava 91% de chance de manutenção da taxa, e uma eventual alta poderia provocar um reajuste doloroso nos preços dos ativos.
A CNN também aponta que o calendário eleitoral pode ter pesado na decisão. Narayana Kocherlakota, ex-presidente do Fed de Minneapolis, disse ao colega Matt Egan que o banco central teria hesitado em subir os juros nesta quarta-feira para se proteger de críticas do presidente Donald Trump. Por outro lado, a repórter Elisabeth Buchwald lembrou que, historicamente, o Fed já alterou taxas de juros diversas vezes justamente em períodos próximos a eleições.
O fantasma do erro "transitório"
Normalmente, o Fed não reage a choques de oferta — como uma eventual crise energética provocada pela guerra no Irã —, já que esse tipo de pressão costuma ser temporário, difícil de prever e pouco sensível a mudanças na taxa de juros. Mas, segundo a reportagem, choques de oferta às vezes evoluem para problemas mais estruturais, que o Fed de fato consegue endereçar — e a instituição já passou por isso recentemente.
Na saída da pandemia, o Fed classificou a disparada da inflação como resultado "transitório" da guerra na Ucrânia e dos gargalos nas cadeias de suprimentos. O diagnóstico se revelou errado: o episódio se tornou o pior problema inflacionário em uma geração, obrigando o banco central a promover um ritmo histórico de altas, com três aumentos consecutivos de três quartos de ponto percentual. A inflação ao consumidor chegou a bater 9,1% ao ano, o maior patamar em quatro décadas, antes de ceder para níveis mais administráveis.
A CNN avalia que o cenário atual pode seguir caminho parecido, já que a inflação já começa a contaminar outras partes da economia. O relatório de inflação ao consumidor de setembro trouxe uma retomada inesperada nos custos de moradia e aluguel — componente relevante que havia arrefecido na primavera e no verão americanos — além de um avanço maior do que o previsto nos preços de outros serviços, como estúdios de ioga e manutenção de jardins, que tendem a repassar aos clientes o aumento de seus próprios custos.
Investimento em IA e riscos geopolíticos somam pressão
Outro fator citado pela reportagem é o investimento em data centers e tecnologia voltada à inteligência artificial, que teria acelerado a economia a ponto de contribuir para o aquecimento dos preços. Eletricidade, materiais de construção, mão de obra e produtos de tecnologia pessoal, como smartphones e notebooks, teriam subido em decorrência desse movimento.
No front geopolítico, Trump sinalizou — e a CNN já havia noticiado — que Estados Unidos e Israel poderiam intensificar o conflito com o Irã após as eleições de meio de mandato, o que elevaria o risco de alta nos preços do petróleo. A reportagem pondera que seria imprudente o Fed basear uma decisão em um rumor, já que os preços de energia também podem recuar rapidamente: o anúncio de um cessar-fogo energético entre a administração Trump e a Rússia tem se mantido de forma surpreendente, o que já elevou a produção russa de diesel nas últimas semanas e pode reduzir os preços globais do combustível, caso a Ucrânia continue evitando ataques com drones às refinarias russas.
Ainda assim, segundo a CNN, a prolongada pressão sobre os preços de energia já está se espalhando pela economia, e esperar demais para agir pode deixar o Fed atrasado em relação ao ciclo inflacionário.
O risco de um ajuste mais brusco em dezembro
A reportagem recorre à metáfora do "sapo fervendo": altas de juros produzem efeito com atraso, e mudanças bruscas tendem a causar mais estragos ao sistema financeiro, aos mercados e à economia real, enquanto ajustes graduais são mais bem absorvidos. Se os conflitos no Irã e entre Rússia e Ucrânia voltarem a se intensificar, o Fed pode ser forçado a elevar os juros mais do que o esperado em seu próximo encontro, em dezembro — inclusive em meio ponto percentual, como uma espécie de compensação pelo tempo perdido.
A sequência de altas de juros ao longo de 2022 levou o mercado acionário a registrar seu pior desempenho anual desde a crise financeira global e colocou o mercado imobiliário praticamente paralisado. Apesar disso, a economia não entrou em recessão — um resultado raro quando o Fed aperta a política monetária de forma tão intensa, segundo a reportagem. É uma aposta, afirma a CNN, que poucos economistas estariam dispostos a fazer novamente.
O que isso significa para o investidor
Para quem investe, a pausa do Fed reduz o risco de um choque imediato nas taxas de juros americanas, mas não elimina a incerteza sobre o rumo da política monetária nos próximos meses. O mercado já havia precificado a manutenção da taxa, segundo o FedWatch da CME, o que limita surpresas de curto prazo em ativos de renda fixa e câmbio atrelados ao dólar — mas um eventual recrudescimento dos conflitos no Irã ou entre Rússia e Ucrânia pode mudar rapidamente esse cálculo.
O ponto central a acompanhar é se a inflação de serviços e habitação nos EUA, que voltou a acelerar em setembro, se consolida como tendência ou se arrefece nos próximos relatórios. Caso o quadro se confirme, a possibilidade citada pela reportagem de uma alta de meio ponto em dezembro ganha peso, o que tende a pressionar ativos de risco globalmente e reforçar o dólar frente a moedas emergentes, incluindo o real.
Para o investidor brasileiro, o episódio reforça a importância de monitorar de perto os dados de emprego e inflação americanos antes da reunião de dezembro do Fed, já que qualquer sinalização de aperto mais rápido tende a repercutir nos juros futuros locais, no câmbio e no apetite por risco em mercados emergentes. A combinação de fragilidade no mercado de trabalho dos EUA com pressão inflacionária persistente é um cenário que historicamente exige cautela na alocação entre renda fixa e variável.
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