O Federal Reserve deve elevar sua taxa básica de juros nesta quarta-feira pela primeira vez desde julho de 2023, encerrando um ciclo de seis cortes consecutivos que somaram 175 pontos-base. A decisão do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) sai às 14h (horário de Brasília), com traders atribuindo mais de 90% de probabilidade a uma alta de 0,25 ponto percentual, segundo o FedWatch da CME Group. O movimento levaria a faixa-alvo da taxa dos fed funds para 3,75%-4%.
Há um mês, a chance precificada era de apenas 36%. A virada reflete declarações do chairman Kevin Warsh no simpósio anual de Jackson Hole, no Wyoming, somadas a dados de inflação desanimadores, mercado de trabalho firme e ressurgimento do petróleo acima de US$ 100 o barril por causa do conflito com o Irã. Wall Street, inicialmente cética quanto à disposição de Warsh para apertar a política monetária, agora vê o aperto como inevitável.
O Morgan Stanley mudou sua projeção de zero para duas altas em 2026 — uma nesta quarta e outra em dezembro. Em nota divulgada na segunda-feira, o economista-chefe para os EUA Michael Gapen argumentou que não agir arriscaria perda de credibilidade e elevação dos prêmios de risco de longo prazo, similar à reação após a reunião de julho do FOMC. A decisão se baseia nas declarações públicas de Warsh, na alta do petróleo, na expansão inflacionária ligada à inteligência artificial e na mudança mais ampla das expectativas do mercado.
Além da taxa, investidores acompanharão a atualização do Sumário de Projeções Econômicas, que traz as visões do comitê para desemprego, inflação e PIB, além do gráfico de pontos com as expectativas individuais dos participantes para os juros. Pela primeira vez, a grade incluirá projeções para 2029.
Dias de Fed castigam bolsa em 2026
Reuniões do Fed têm sido ruins para as ações americanas neste ano. O S&P 500 caiu em cada um dos cinco dias de decisão anteriores em 2026, com queda média de 1,5% nessas sessões, segundo a Bespoke Investment Group. A sequência de cinco recuos consecutivos em dias de FOMC é histórica: apenas uma série foi mais longa, com sete quedas seguidas que terminaram em 2018.
A pressão sobre os mercados reflete a incerteza sobre o ritmo da política monetária e o temor de que o Fed precise apertar mais do que o esperado para controlar a inflação. O índice de referência operava em alta de 0,29% na manhã desta quarta, cotado a 7.607,97 pontos às 11h26 (horário de Brasília), segundo dados da TradingView.
Ex-assessor do Tesouro prevê pelo menos quatro altas
O economista Joe LaVorgna, que deixou o cargo no Departamento do Tesouro no início deste ano, diverge de seu ex-chefe, o secretário Scott Bessent, ao defender não apenas um aumento agora, mas pelo menos quatro elevações enquanto a inflação permanecer bem acima da meta de 2% do Fed. LaVorgna é economista-chefe do SMBC Americas.
Em nota divulgada na terça-feira, ele afirmou que o número final de altas depende de dois fatores: quando a guerra no Oriente Médio terminará e quando o dividendo inflacionário dos investimentos em capital do lado da oferta será pago. LaVorgna escreveu que as respostas são desconhecidas no curto prazo, mas devem se tornar evidentes nos próximos meses. Enquanto isso, o Fed não será dissuadido de subir mais de uma vez, e é improvável que as respostas cheguem a tempo de evitar uma série de aumentos.
Bessent e outros integrantes da Casa Branca disseram respeitar a independência do Fed e de Warsh, mas geralmente afirmaram não ver necessidade de altas. O presidente Donald Trump foi mais explícito, chegando a ameaçar romper laços comerciais com algumas nações caso o banco central não corte juros.
Rendimento do Treasury de 10 anos atinge máxima de 19 anos
A decisão do Fed chega após o rendimento da nota do Tesouro de 10 anos ter escalado nesta semana aos níveis mais altos desde 2007, com investidores temendo que preços elevados de energia mantenham a inflação em patamar alto. O yield de referência atingiu máxima de 5,041% na terça-feira, mas recuou desde então. Às 7h38 (horário de Brasília) desta quarta, operava em torno de 4,96%.
A alta nos rendimentos dos Treasuries reflete expectativas de que o Fed precisará manter os juros elevados por mais tempo, ou até aumentá-los ainda mais, para ancorar as expectativas inflacionárias. O movimento também pressiona os custos de financiamento para empresas e consumidores, com potencial impacto sobre o crescimento econômico.
Altas do Fed raramente vêm isoladas
O Federal Reserve raramente sobe ou corta juros de forma isolada. O último exemplo claro de alta única ocorreu em março de 1997, quando o banco central elevou as taxas mas depois manteve a política inalterada enquanto a crise financeira asiática se desenrolava. Desde então, movimentos de aperto ou afrouxamento tendem a vir em ciclos.
Michael Gapen, do Morgan Stanley, acredita que o banco central subirá juros nesta quarta e que mais aumentos podem estar à frente. Ele apontou que a razão primária é que a desinflação não está rápida o suficiente para dar ao comitê confiança de que a inflação retornará a 2% dentro de um período adequado.
Gapen escreveu que sua projeção anterior de nenhuma alta se baseava na suposição de que a inflação mostraria progresso suficiente para o comitê e os impediria de elevar as taxas. Embora ele veja bastante evidência favorável à desinflação, não tem certeza de que seja rápida ou clara o bastante para satisfazer o comitê. A mudança de posição do Morgan Stanley reflete o consenso crescente de que o Fed precisará agir de forma mais agressiva.
A expectativa de um ciclo de altas, e não de um movimento isolado, adiciona pressão sobre ativos de risco e reforça a volatilidade nos mercados. Investidores aguardam não apenas a decisão desta quarta, mas também os sinais que Warsh dará sobre os próximos passos do banco central.
O que isso significa para o investidor
A provável alta de juros pelo Fed marca uma inflexão importante na política monetária americana e tem implicações diretas para quem investe no Brasil. Juros mais altos nos Estados Unidos tendem a fortalecer o dólar e atrair capital para ativos americanos, pressionando moedas emergentes como o real. O movimento também eleva o custo de financiamento externo para empresas brasileiras e pode reduzir o apetite por risco em mercados como o nosso.
Para investidores com exposição a ativos americanos, a perspectiva de um ciclo de aperto — e não apenas uma alta isolada — sugere cautela com ações de crescimento e setores sensíveis a juros, como tecnologia e imóveis. Títulos de renda fixa de curto prazo nos EUA ganham atratividade relativa, enquanto a curva de juros pode se achatar ou até inverter se o mercado antecipar desaceleração econômica à frente.
No Brasil, o Banco Central acompanha de perto os movimentos do Fed. Uma trajetória de alta nos EUA pode limitar o espaço para cortes da Selic, especialmente se o real se enfraquecer e pressionar a inflação doméstica via câmbio. Setores exportadores podem se beneficiar de um dólar mais forte, mas o custo disso é maior pressão inflacionária e juros locais potencialmente mais altos por mais tempo.
O cenário pede atenção aos próximos dados de inflação americana, às declarações de Warsh após a reunião e ao gráfico de pontos atualizado, que indicará quantas altas o comitê projeta até o fim de 2026 e além. Se o Fed sinalizar um ciclo agressivo, a volatilidade deve persistir. Investidores brasileiros com carteiras diversificadas globalmente precisam monitorar o diferencial de juros Brasil-EUA e ajustar a alocação conforme o aperto monetário americano avança.
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